“O amor que eu levei de Santiago”, uma brilhante colaboração galego-brasileira

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Por Joám Manuel Araújo

O volume O amor que eu levei de Santiago. Roteiro da lírica medieval galego-portuguesa publica-se fruto de uma brilhante colaboração galego-brasileira. Três reputados especialistas, Yara Frateschi Vieira, José António Souto Cabo e Isabel Morán Cabanas, unem os seus esforços num trabalho valioso1, em que salientam a língua comum galego-portuguesa. Em cem páginas estudam os autores medievais que se ocuparam na sua produção da geografia mais próxima a Santiago de Compostela, por estarem ligados à hoje capital galega ou mencionarem-na nas suas cantigas.

O livro leva como epígrafe uma citação de X. Filgueira Valverde2, favorável a um projeto deste teor. Na continuação, em breve introdução (pp. 9-12), destacam que a idéia de fazer um roteiro trovadoresco pela Galiza, aproveitando a potencialidade da comunidade como berço dessa escola literária tão reconhecida internacionalmente, não se tivesse materializado ainda, e frisam como objetivo deste livro o de “preencher” esse vazio. Salientam (p. 10) a importância política, cultural, artística, intelectual e religiosa de Santiago de Compostela na altura, como referente central da Europa. Aludem a outros autores coevos, pertencentes a linhagens nobres, com propriedades e casas na cidade; bem como a outros mais que se sabe produziram textos literários, mas de que se não conservam.

A parte central do volume (pp. 13-91) subdividi-se por sua vez em dous capítulos: um dedicado a 11 trovadores (Airas Fernández Carpancho, Airas Nunez, Bernal de Bonaval, Fernando Esquio, Joán Airas de Santiago, Joán Vásquez de Talaveira, Pai Gómez Charinho, Pero Amigo de Sevilha, Pero da Ponte, Pero Garcia de Ambroa e Sancho Sánchez) que mencionam Santiago de Compostela nas cantigas; e outro a mais seis trovadores (Afonso Eanes do Coton, Juião Bolseiro, Osório Eanes, Pai da Cana, Pero Meogo e Rui Fernández de Santiago) relacionados com a cidade, segundo se evidencia por documentação que se conservam.

Finaliza o livro com uma (pp. 93-100) muito interessante bibliografia, e com a relação (p. 101) dos lugares referidos, hoje pertencentes ao território governado pelas Câmaras Municipais de Santiago de Compostela, Teo e Ames.

Pode-se concluir que este livro tem como mínimo (mais outras valorizações positivas são possíveis, certamente) um triplo interesse:

1) Científico, pois apesar de indicar-se (p. 11) que está pensado para público não especialista, inclui dados valiosos também para especialistas em Literatura Medieval e nos estudos desse período. Entre eles, a revisão e por vezes novas leituras e interpretações de composições, e informações a respeito da história desse tempo literário, que representam uma novidade.

2) Literário, pela reprodução e estudo de 19 cantigas, em que há alusões às terras de Compostela.

3) Turístico, pois oferece uma nova maneira de visitar essa geografia e de interpretar v. gr. a catedral e a cidade de Compostela, citados em todos os autores estudados; mas também espaços e monumentos como v. gr. o rio Sar, Cornes, Crecente, Bastavales, a rua da Moeda Velha (rua que ainda existe, próxima da catedral, e cuja citação numa cantiga destacam como caso singular), Lampai, Balcaide, S. Martinho Pinário, a igreja de Salomé…

Parabéns para Vieira, Morán e Souto por este livro; e para Toxosoutos por editá-lo. Seria bom que se completasse com outro(s), mais amplo(s), referido(s) a todo o território galego, pois como eles reconhecem, há elementos para isso. E que se sinalizassem e difundissem os muitos roteiros locais, comarcais, e é claro o galego, que podem emergir dessa pesquisa, com enorme potencialidade cultural, turística, artística e económica.

Em todo o caso, abre-se um caminho que merece ser trilhado. Porque lembrar o tempo em que a língua comum galego-portuguesa era referente para a produção literária internacional, com contributos como este, tem valor para conhecer a própria história e para alicerçar um futuro melhor e mais próspero.

Um novo tempo em que a colaboração de pessoas galegas com brasileiras, ou de outros povos que hoje partilham essa língua comum, ultrapasse a simples teoria, a especulação quimérica e o palavreado vazio, e se evidencie na materialização de projetos e em realidades conjuntas e tão valiosas como esta.

Compostela, 28 de junho de 2012.


Notas:

1 Vieira, Yara Frateschi; Morán Cabanas, M. Isabel e Souto Cabo, José António, (2011), O amor que eu levei de Santiago. Roteiro da lírica medieval galego-portuguesa, Noia, Toxosoutos. Morán e Souto são docentes de Filologia Portuguesa na Universidade de Santiago de Compostela, em que também exerceu há uns anos Vieira. Trata-se de três especialistas bem conhecidos pela dedicação aos estudos medievais, com importante e vultosa produção (editada na Galiza e no exterior, e com reconhecimento internacional) neste âmbito do Campo Científico/dos Estudos Literários. Deste volume anuncia-se uma edição brasileira.

2 Se este político e intelectual tivesse mais presente esta produção medieval nos inícios da década de 1980, quando o Campo do Poder Político galego decidiu o modelo ortográfico para a língua galega (cujo decreto, lembre-se, assinou o próprio Filgueira Valverde), como fez v. gr. Ricardo Carvalho Calero, a situação do idioma seria hoje bem diferente.