“Santos Júnior e os Intelectuais Galegos. Epistolário”, de Isaac Alonso Estraviz

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Por Joám Manuel Araújo

“Si Galícia ha de ter expansión cultural na sua língua, ha de ser a base dos grandes países que a falan nas formas mais desenvoltas –Portugal e Brasil–.” (V. Paz-Andrade, carta a Santos Júnior datada aos 22 de abril, 1951)

Este volume1 oferece generosa informação a respeito de Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990), professor e académico português que teve importante relacionamento com numerosos agentes da cultura galega. Consequência desses contactos participou no Seminário de Estudos Galegos, foi designado membro da Real Academia Galega, ou interveio em projetos e publicações comuns, interessando-se por questões galegas e favorecendo um maior conhecimento delas no exterior. Reúne no livro por volta de um milhar de epístolas, que assim o evidenciam, de 67 correspondentes. A maioria das comunicações cruzaram-se entre Santos Júnior e Florentino Cuevillas (223 epístolas referenciadas), Filgueira Valverde (199), Joaquim Lourenço Xocas (169), Taboada Chivite (99), Fermim Bouça Brey (53), António Fráguas (49), Modesto Figueiredo (37), J. R. Fernández Ogea Bem-Cho-Shey (28), S. Martínez-Risco (22) e R. Otero Pedrayo (19). Quer dizer: pessoas da chamada Geração Nós, membros do Seminário de Estudos Galegos, da Real Academia Galega, do Instituto de Estudos Galegos Padre Sarmiento, do Laboratório de Laje, de museus galegos e da Universidade de Santiago de Compostela, a que se dedicam epígrafes, encontram-se entre os principais produtores e destinatários das mensagens. Em muitas transparece estilo de estreita amizade, com alusões a visitas a residências particulares, interesse pelo estado de saúde e pela família, pêsames, informações para férias, dificuldades e entraves com o poder político, e outros assuntos do âmbito individual, diferentes dos predominantes, de caráter mais profissional e académico.

Principia este livro com um “Prólogo” (pp. 3-5), em que Estraviz esclarece a génese do mesmo: uma visita a Moncorvo para celebrar um Conselho da Associaçom Galega da Língua, em 2009. Lá foram magnificamente acolhidos pelo Presidente da Câmara Municipal e por outras pessoas, e conheceram a Biblioteca Municipal e o espólio de Santos Júnior, onde (p. 3) “ficamos assombrados do material que encerrava. Mas o que mais nos chamou a atenção foi a quantidade de livros galegos, muitos primeiras edições. E ainda mais a quantidade de cartas de galegos”, afirma Estraviz. E oferece explicações de como se dedicou a trabalhar aqueles materiais para preparar esta edição.

Na continuação (pp. 7 e passim) inclui-se a “Introdução”, que principia com um muito interessante contributo biográfico, de Ana Maria Santos Hübner, neta de Santos Júnior. É este (pp. 7-18) um trabalho valioso, em que se referem acontecimentos familiares, de formação, viagens e profissionais de relevo, que não sempre é fácil identificar quando se investiga, e que ajudam a compreender aspectos da sua trajetória. Entre as informações que fornece indica-se que Santos Júnior (p. 12) “Na sua mesinha de cabeceira, havia dois livros sagrados: Os Lusíadas e Cantares Galegos de Rosalia de Castro”. Ajuda isto a entender, para os não avisados, que dedicasse esforços a estudar a produção da escritora galega.

Alonso Estraviz aprofunda nas seguintes páginas (19-36) em questões biográficas e da produção de Santos Júnior, demorando-se na sua ampla formação (pp. 19-22), com estudo de diferentes matérias científicas, entre elas Medicina, sendo docente de liceu, exercendo de médico no período 1932-1936, investigador, e catedrático de Zoologia e Antropologia da Universidade do Porto, além de ter servido em vários cargos e responsabilidades. Outras epígrafes são para a “Bibliografia” (pp. 22-23), “Santos Júnior e a Galiza” (pp. 23-26), “Rosalia de Castro” (pp. 26-27), “Otero Pedrayo” (pp. 27-28), “Viajante incansável” (pp. 28-29), e 16 fotografias (pp. 29-36) que ajudam para conhecer melhor este vulto da ciência e da cultura de Portugal.

Professor Isaac Alonso Estraviz

Foto: www.aelg.org | Autoria: Santos-Díez (Ollo de Vidro-ACAB) (2009)

 

O Epistolário

As páginas 37 a 780 recolhem o epistolário, com informações biográficas de muitos dos correspondentes galegos. Todas as cartas de Santos Júnior reproduzidas no volume estão redigidas em português padrão, escassamente empregado pelos galegos, embora vários fizessem por vezes esforços por atingir uma aproximação ortográfica2.

Assim acontece, v. gr., com Florentino Cuevillas, o primeiro e quem ocupa mais páginas. Verifica-se como (p. 73) na epístola que lhe encaminha aos 21 de dezembro de 1936, e em outras posteriores, usa a grafia padrão portuguesa. Em carta de 12 de fevereiro de 1944 informa (p. 96): “O Instituto P. Sarmiento do que falaba na minha derradeira não veu a resucitar o Seminário [de Estudos Galegos], veu mais a botarlle por riba uma lousa de pedra, e ainda que não duvido que tenha para Portugal os melhores sentimentos é difícil que mantenha a antiga fraternidade baseada em princípios que são insostenibeles no dia de hoxe”. Pouco depois confirma (p. 97, data 3 de abril de 1944) que “O Instituto de Estúdios Gallegos P. Sarmiento ficou ja constituído em Santiago. Ja veremos o que fai”. Na p. 131, em epístola datada aos 6 de janeiro de 1950, informa da morte de Afonso Daniel R. Castelão.

Também a morte está presente na correspondência com Joaquin Lorenzo, quem (p. 226: carta de 16 de maio de 1976) informa da de Otero Pedrayo.

Taboada Chivite (p. 293), em 28 de abril de 1959, reage com satisfação ao conhecer a disponibilidade de Santos Júnior para colaborar num volume que se preparava na Galiza, e assim lho indica: “Me alegro que colabore en el homenaje a Cuevillas”.

Otero Pedrayo (p. 359) inclui Santos Júnior entre os “bos e xenerosos”. Em 4 de julho de 1962 (p. 363) dize-lhe que “Vde está, como bon fidalgo, en todo”. Em 29 de maio de 1958, perante a proximidade de uma visita ao Porto, afirma (p. 362): “Cada dia, conforme o esprito se vai decantando na vida con os moitos anos, amo con mais lumioso e fondo amore a Portugal”. E em 22 de janeiro de 1963 (p. 363-364) refere-se à morte de Vicente Risco como “perda esencial” para a cultura galega

José Ramón y Fernández Oxea em 12 de janeiro de 1970 informa que (p. 384) “Nos derradeiros de 1969 saiu o primeiro ‘Catón Galego’ pra ensiño dos nenos nas escolas da nosa terra. Tamén iste Catón tivo que agardar trinta anos pra ser editado”. E em 11 de junho de 1973: (p. 386) assinala, a respeito da morte de F. Bouza Brey em Santiago: “O seu cadavre, envolto na bandeira galega, foi levado pra ser enterrado no panteón familiar de Cortegada, ás beiras do Miño e a carón do irmán Portugal. Perdimos un grande amigo, un delicado poeta e un investigador serio, sabio e concenzudo”.

Vicente Risco, em 7 de setembro de 1935 (p. 391) defende a “necesidade do estudo etnográfico conjunto en Norte de Portugal e Galiza” e parece-lhe “excelente” a organização de um congresso ao respeito.

Julio Francisco Ogando Vázquez, em 30 de julho de 1970 (p. 396) salienta o interesse de um trabalho em que Santos Júnior estuda aspectos etnográficos dos Cantares Gallegos de Rosalia de Castro, e valoriza: “Penso que é o millor e mais suxerente estudo feito a autora dos cen anos da sua publicación. Galiza –que ten en V. E. un amigo afervoado—non sei se sabrá agradecerlle como merece a sua dedicación a obra coa que se inicia o noso renacimento”.

Filgueira Valverde em 7 de junho de 1951 (pp. 416-417) salienta a mediação para colaborarem estudiosos e intelectuais galegos e portugueses, o P. Sarmiento com o Instituto para a Alta Cultura. Em 10 de fevereiro de 1966 (p. 443) convida-o para participar, em abril de aquele ano, num colóquio luso-galaico de História Medieval, destarte: “Eres sábio en Galícia, do paleolítico a Rosalía, anque non sexas especialista, y eres do Museo [de Ponte Vedra], dendes de que naceu. Considérate invitado. A sección portuguesa a dirixirá Luis de Pina”.

Leandro Carré (16-VIII-1970, p. 685) a respeito do estudo de Santos Júnior “Os cantares de Rosália de Castro e o povo galego”, valoriza que esse trabalho: “na parte referente á indumentária con tuda a sua variedade de trajos, e á persoalidade física das moças ou raparigas da nossa província; assim como os costumes descritos, tem muitissima razao o meu admirado amigo, que constituem um magnífico poema etnografico pois que recolhe nas suas páginas tanta e tanta pormenorização relativas ao vivir da gente camponesa da nossa terra da Galiza”.

Felipe Ramón Cordero Carrete, dirigente do Seminário de Estudos Galegos de 1933 a 1936 e secretário do Instituto P. Sarmiento desde o início, para além de membro da RAG, em 12 de abril de 1950 (p. 700) agradece as atenções recebidas no Porto com ensejo da Semana Galega: “Mucho les agradecemos todo ello, personalmente y en nombre del Instituto de Estudios Gallegos, donde tanto se les admira y quiere y donde se guarda tan grato recuerdo de la acogida que nos prestaron y de la fecunda cooperación entablada desde los tiempos del Seminario, cooperación que esperamos se intensifique ahora”

Isaac Díaz Pardo, aos 18 de janeiro de 1978 (p. 748-750) informa-o da próxima inauguração de uma loja da fábrica de cerâmica Sargadelos em Compostela, e da intenção de reeditar com tal ensejo o Terra de Melide e recuperar o que foi o Seminário de Estudos Galegos com uma exposição, publicações e atividades diversas. Afirma: “Inda que non teño o gosto de coñecer a vostede personalmente eu sei moi bem quen é vostede, sei da súa vinculación e da súa saudade polo que foi o Seminario de Estudos Galegos”; e insiste em solicitar-lhe colaboração para esse empreendimento.

Também se documenta o relacionamento com o vulto a quem se dedica neste ano 2012 o Dia das Letras Galegas, V. Paz-Andrade, quem em 22 de abril de 1951 (p. 752), em carta que encaminha para Santos Júnior afirma: “Agora que Porto vai erguer un moimento a nosa Rosália, cecais poida recomenzarse con novo pulo a laboura de cooperación espritoal entre as duas bandas do Miño. Eu penso que, algun dia, poderemos centrala n-um orgaismo permanente da cultura luso-galaica, ao que se poidan incorporar os valores novos. Si Galicia ha de ter expansión cultural na sua língua, ha de ser a base dos grandes países que a falan nas formas mais desenvoltas –Portugal e Brasil–.”

Capa e contracapa de Santos Júnior e os Intelectuais Galegos: Epistolário

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Conclusão

Para além do relacionamento entre as culturas galega e portuguesa, Santos Júnior tem também relevo para os estudos moçambicanos e angolanos, e assim se indica igualmente neste interessante e recomendável volume.

Este trabalho é outro importante contributo de Isaac Alonso Estraviz. Na trajetória deste estudioso, pesquisador filológico e produtor literário, um dos aspectos que mais salientam é o seu interesse pelos contactos pessoais com Portugal, e por estudar o relacionamento entre galegos e portugueses. Hoje conhecemos mais dessa comunicação entre ambas as margens do Minho graças a diversos contributos de Estraviz, como os que dedicou com antecedência a Teixeira de Pascoaes, Eugénio de Castro, Alfredo Pedro Guisado ou Rodrigues Lapa, entre outros. O seu relacionamento pessoal, e o esforço por recuperar produtos de diverso teor, ajudaram para aproximar, como agora faz com Santos Júnior, realidades não sempre suficientemente conhecidas e valorizadas.

São muitos os ensinamentos que se podem tirar deste seu novo volume. Na contracapa lemos esta síntese, com que finalizamos este comentário: “Neste livro-epistolário estão recolhidas muitas cartas, que resultam fulcrais para entendermos muito dos que se tem produzido na Galiza, e do muito que tem significado Portugal na recuperação galeguista. A intra-história da Galiza percorre todas as páginas do livro de jeito que resulta muito difícil conhecer os nossos intelectuais sem ler atentamente este Epistolário. Está nele uma história oculta que os vencedores nos negaram conhecer devidamente”.

 

Notas:

1 Alonso Estraviz, Isaac, (2011, ed.), Santos Júnior e os Intelectuais Galegos. Epistolário, Ponte Caldelas, Fundação Meendinho.

2 Na “Introdução” Estraviz adverte (p. 5): “Na transcrição das cartas repeitou-se o original com todo tipo de gralhas ou erros. Nos poucos casos em que foram corrigidos, adverte-se em nota de rodapé”.