A revista da Associação Internacional de Lusitanistas publica três estudos sobre a cultura e a literatura galegas

Partilhar

 

Por J. M. Araújo

Veredas, a revista da Associação Internacional de Lusitanistas, inclui no último número, o 16, estudos redigidos na Galiza, Portugal e o Brasil, três deles dedicados à cultura e à literatura da comunidade galega, assinados por Carlos Pazos Justo, Regina Zilberman e Roberto López-Iglesias Samartim.

Para além destes três trabalhos, que serão brevemente comentados na continuação, a revista oferece estudos de Antonio Paulino de Sousa, da Universidade Federal do Maranhão e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico brasileiro, sobre “Regra, estratégia e habitus”; de Ermelinda Maria Araújo Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco, intitulado “Psicopatologia e confissão poética: o valor diagnóstico/terapêutico da obra literária de Mário de Sá-Carneiro”; de Gregório Foganholi Dantas, da Universidade Federal da Grande Dourados (Mato Grosso do Sul), “Mosaicos espelhados: Uma leitura de partes de África, de Helder Macedo”; e de Pedro Fernandes de Oliveira Neto, da Universidade do Estado de Rio Grande do Norte, com o título “Marcas da presença do discurso mítico em Memorial do Convento”.

1) O primeiro desses três trabalhos respeitantes à Galiza está assinado por Carlos Pazos Justo, docente galego da Universidade do Minho e membro do Grupo Galabra da Universidade de Santiago de Compostela. Intitulado “A imagem da Galiza e dos galegos em Portugal entre fins do século XIX e primeiras décadas do XX: do imagotipo negativo ao imagotipo de afinidade”, descreve e analisa “as origens e funções da imagem que dos galegos e da Galiza funcionava em Portugal, nomeadamente em Lisboa, desde fins do século XIX até as primeiras décadas do século XX”. Alicerça o estudo “A partir fundamentalmente da trajetória do enclave galego de Lisboa”. Trata-se de um tema que “não tem sido objeto de estudos de conjunto”, apesar de alguns contributos desde os estudos literários e da cultura e os estudos linguísticos, ou do fenómeno migratório galego em Portugal.

Pazos Justo documenta como no último terço do século XIX e primeiras décadas de XX se produz um ascenso social da comunidade galega residente em Portugal, que no enclave de Lisboa se evidencia na figura de Alfredo Pedro Guisado, procedente da mesma, quem atingiu destaque em campos como os da Política e da Cultura, sendo membro da Assembléia da República e do grupo literário liderado por Fernando Pessoa. Num escrito na imprensa portuguesa, Guisado defende a respeito de Galiza e Portugal que “A casa é a mesma, separa-a apenas uma parede: o Minho”. Esse Ascenso da comunidade galega espelha-se num imagotipo positivo por parte da sociedade portuguesa, bem diferente do de décadas precedentes. Para a mudança colaboraram pessoas de ambas as partes, como Teófilo Braga, Leite de Vasconcelos, Oliveira Martins e Alexandre Herculano em Portugal, ou Manuel Murguia desde a comunidade galega. Pazos Justo reproduz três documentos, exumados de publicações da altura, o último deles de 1 de março de 1929, em que Antonio Fresco Conde, presidente da lisboeta “Juventud de Galícia”, frisa como dos mais de 50.000 residentes em Portugal de nacionalidade espanhola, 3 de cada 4 eram galegos originários.

2) A professora brasileira Regina Zilberman, da Universidade Federal de Rio Grande do Sul, escreve sobre “Álvaro Cunqueiro e a literatura fantástica”. Centra o seu trabalho na narrativa As crónicas do sochantre (1956), e propõe o seu estudo “à luz de diferentes quadros teóricos que ajudem a compreender a sua complexidade narrativa, da análise da literatura fantástica e do mágico a partir de Todorov ao fundamentos da análise freudiana”.

Segundo Zilberman, “Rompendo com os limites do realismo, Álvaro Cunqueiro, em seu livro, explora as virtualidades dos gêneros literários que suplantam o modelo de representação associado à reprodução fotográfica do mundo visível. Ao adotar um antinaturalismo retrô, já que suas matrizes provêm de sugestões que se estendem do século XIV ao XVIII, o ficcionista galego reinventa a modernidade naquilo que ela deve ao passado e à história. O recurso às potencialidades do fantástico não se extingue nesse ponto, pois faculta ao autor investir em questões políticas nacionais”. A professora brasileira refere a “identificação, proposta por Álvaro Cunqueiro, entre a Bretanha de seu livro e a Galiza de sua experiência. Por criar uma Bretanha imaginária, Cunqueiro pôde falar da Galiza real; por enfatizar a estranheza do universo ficcional, pôde também chamar a atenção para os elementos atemorizantes de seu presente. Graças aos procedimentos suscitados pela literatura fantástica, foi capaz de interpretar os descaminhos de sua pátria, a seu tempo. Legou, assim, uma obra única, cujo diálogo, nascido das virtualidades polifônicas do discurso, mantém uma permanente – e atual – interlocução com o público contemporâneo”.

3) Roberto López-Iglésias Samartim, ensinante na Universidade da Corunha e membro do Grupo Galabra da Universidade de Santiago de Compostela escreve sobre “A Construção do Conhecimento pola Historiografia Literária dum Sistema Deficitário (o caso galego para 1974-1978)”. Estuda os “projetos e estrutura institucional dos grupos que agem no sistema cultural em foco em um período histórico de forte mudança política em que, em boa medida, são construídas as ideias que ainda conformam essa comunidade ibérica no momento atual”. Abrangendo ampla bibliografia, conclui como “o nacionalismo filológico é responsável pola atribuição à língua galega do caráter de única norma sistémica com independência das condições de aplicabilidade do chamado critério filológico e das diferentes propostas político-culturais existentes nesse sentido em cada estádio do processo de construção do Sistema Literário Galego” bem como “a íntima relação existente entre os processos de construção dos campos literário, político e nacional”. Verifica as insuficiências e deficiências dos discursos críticos, apesar de alguns avanços, e reivindica novas metodologias para explicar a evolução diacrónica da configuração de uma rede de relações, a função e a posição relativa dos elementos interdependentes que a constituem num determinado estádio do sistema, ou as relações internas e externas que contribuiriam para entender o funcionamento do sistema. Aponta lacunas nesse conhecimento bem como ausências de análises dos programas e projetos dos grupos que agem no SLG em relação com a estrutura institucional de que se dotam ou em que atuam.

4) Conclusão

Os três trabalhos respeitantes à Galiza referem-se a tempos históricos bem diferenciados. Redigidos em Portugal, no Brasil e na própria Galiza, os três enriquecem o conhecimento e mesmo oferecem propostas inovadoras com metodologias de pesquisa muito interessantes e atuais utilizadas para atingir esse conhecimento.

Para além do valor desses estudos, merece destaque que estejam incluídos numa revista internacional de uma associação presente, através das pessoas que a ela pertencem, em muitos países e instituições –os de língua oficial portuguesa e outros muitos: EUA, Alemanha, Inglaterra, Holanda, Itália, Bulgária, Espanha, Argentina, França… –, o que é de grande relevo. Consegue-se assim uma maior projeção da Galiza, da sua cultura e da sua literatura. E evidencia-se mais uma vez como se pode alcançar essa projeção e internacionalização de forma privilegiada através da comunidade de lusitanistas.