Por Joám Manuel Araújo
“Neste projeto sempre coube todo o mundo, até o discordante. A única condição sempre foi não fecharmos portas e fazermos…”
(Vítor Manuel Lourenço Peres)
Este livro, de muito recente edição, pgl_10. A nossa língua na rede, a nossa língua no mundo 1, é apresentado como “autêntica obra coral” e “pequena homenagem ao Portal Galego da Língua nos seus primeiros 10 anos na rede”. Respondendo a esses objetivos, há de acrescentarem-se outros, entre eles o de supor uma avaliação da trajetória desse projeto que, na Internet, foi “criando comunidade graças à interação entre usuários e usuárias”, e com uma atitude aberta, como assinalam Vítor Manuel Lourenço Peres e Gerardo Uz (pp. 13 e 61; Lourenço no texto acima escolhido como epígrafe).
Juntam-se mais de 30 contributos, assinados por pessoas maiormente da Galiza, mas também de Portugal, Brasil e País Basco. Docentes das três universidades galegas, para além de estudantado, e outros especialistas, de várias gerações, partilham umas páginas elaboradas com perspectiva positiva e construtiva a respeito de (p. 11) “um espaço que depois de 10 anos é capaz de chegar a mais de 50.000 pessoas todos os meses”, como é o Portal Galego da Língua (PGL; pgl.gal), salienta Lourenço Peres. Os artigos estão distribuídos num “Prefácio” e 10 “blocos”.
O “Prefácio” intitula-se “Navegando pelas ondas da Lusofonia”. Aí, Vítor Manuel Lourenço Peres (pp. 9-15) principia e finaliza com significativas citações do poema “Vaguidades”, de Rosalia de Castro. Revisita, em síntese, alguns dos principais acontecimentos que conformam a atual comunidade do PGL após essa trajetória dos seus primeiros dez anos.
O bloco 1, “Mais do que um web”, recolhe trabalhos de José Manuel Outeiro (“A pré-história do PGL e o efeito 2000 na AGAL”, pp. 19-24), o Professor da Universidade de Vigo Carlos Garrido (“PGL: a minha primeira impressom”, pp. 25-27) e o atual presidente da Associaçom Galega da Língua Miguel R. Penas (“A marca PGL”, pp. 29-32). Estes três produtores são dos principais responsáveis da existência do PGL e os seus trabalhos têm valor de testemunho histórico. A sua idéia foi possibilitar (p. 27) “a emergência da gozosa realidade informativa, formativa e de entretenimento que hoje constitui o Portal Galego da Língua, ponto de encontro e referência insoslaiável para todas aquelas pessoas que, na Galiza e nos quatro pontos cardeais da Lusofonia e do mundo, se interessam pola perspectiva galega do bem patrimonial mais universal, mais ecumênico, que a Galiza criou e ainda conserva: a língua galego-portuguesa”.
O bloco 2, “O projeto e a AGAL”, inclui textos de três ex-presidentes da Associaçom Galega da Língua: Bernardo Penabade (“Editorial”, pp. 35-39), Alexandre Banhos (“Um breve resumo duma etapa apaixonante”, pp. 41-47) e Valentim R. Fagim (“XX1 é para comunicar”, pp. 49-52). Salientam o ponto de partida “modesto” e como (p. 38) “por via electrónica recebemos sugestons críticas, parabéns, insultos, brincadeiras… solicitou-se-nos material bibliográfico, pediu-se-nos assessoramento lingüístico, solicitou-se o corrector ortográfico… Por fim, recebemos automaticamente as convocatórias de outros colectivos sociais”, e as progressivas transformações que nas suas etapas como dirigentes se foram atingindo e consolidando.
No Bloco 3, “Língua e informação”, encontramos trabalhos do jornalista Gerardo Uz (“Abrindo caminhos na net”, pp. 55-63), do escritor e Professor da Universidade de Santiago de Compostela Carlos Quiroga (“Potenciando a Literatura –no PórticodaGLória”, pp. 65-68) e do Professor da Universidade da Corunha Celso Alvarez Cáccamo (“Língua em rede”, pp. 69-73). O símil entre o PGL e talvez a mais grande expressão artística da Galiza (o Pórtico da Glória da catedral de Santiago) enfatiza o grande valor que se concede ao PGL como projeto da Galiza contemporânea; e exprime-se a (p. 71) “inconfessável convicção de que o caminho face à lusografia (para o que nos reste de galego social) é imparável, e de que, portanto, só um inútil flibusteirismo obstrucionista poderia demorar esse destino temporariamente”.
No Bloco 4, “De portas abertas”, contribuem três correspondentes do PGL no exterior: José Manuel Almeida (“Além de Portugal”, pp. 77-80, em que traduz as siglas PGL como “Portal Geral da Lusofonia”); José Carlos da Silva (“O Brasil para nós”, pp. 81-84, quem salienta as oportunidades que oferecem o PGL e as redes sociais em língua portuguesa, com uma audiência de mais de 250 milhões de “lusofalantes”) e Andoni Herrera (“Euskal Herria e a galeguidade”, pp. 85-90, quem inicia e finaliza o seu artigo com citações basco-galegas de Xabier Amuriza).
No Bloco 5, “Focagem da Galiza”, assinam Beatriz Bieites (“Criando Gentalhas”, pp. 93-96), sobre organizações que emergeram na Galiza nesta década, e que assinalou o PGL; Suso Samartim (“10 anos de ‘ludo-reintegracionismo’”, pp. 97-106), quem cria o neologismo “mesiversário”, e enfatiza um conceito que junta reintegracionismo e questões lúdicas “tam velho quanto o Portal Galego da Língua”; e Lois Pardo (“Ligando com a tradição”, pp. 107-109), quem põe em destaque o papel pioneiro do PGL para a “promoçom e difussom da identidade sócio-cultural galega”.
No Bloco 6, “Uma Comunidade Internacional” encontramos artigos de três das propostas de maior sucesso entre a comunidade PGL: o “Planeta NH”, lembrado por Carmen Fátima (pp. 113-116); os foros do PGL, memorados por Ernesto Vázquez Souza (pp. 117-122) e os blogues, de que se ocupa Eugénio Outeiro (pp. 123-127), três elementos com diversos valores, informativo e formativo.
No Bloco 7 deparamos com o produtor mais jovem e os dois mais veteranos deste volume. Adriano Quiroga Castinheira, estudante, escreve “A Internet na minha geraçom” (pp. 131-134), em que conclui que “o PGL constitui um arma carregada de futuro contra a opacidade da ignorância”. A ele acompanham o Professor e Lexicógrafo Isaac Alonso Estraviz, quem fala de “O nosso dicionário” (pp. 135-140), material valioso e próximo a ser acrescentado no PGL com mais verbetes; e o político Camilo Nogueira, quem escreve “O idioma de um estado” (pp. 141-145), em que utiliza uma perspectiva histórica, da Idade Média à atualidade.
O Bloco 8, sob o título “Lusofonia e universalismo”, junta o Professor Elias J. Torres, da Universidade de Santiago de Compostela, quem apresenta a Associação Internacional de Lusitanistas (pp. 149-153), que ele preside, agradece o acolhimento que essa sociedade de cientistas tem no PGL e insiste nas “enormes possibilidades que temos como comunidade no mundo”; o também Professor José-Martinho Montero Santalha, da Universidade de Vigo, quem fala da Academia Galega da Língua Portuguesa (pp.155-161), que ele preside, e resume algumas das principais atividades realizadas nos algo mais de 4 anos de existência da mesma, que se viram espelhados no PGL; e Xosé Antom Serem, que se centra nos cursos aPorto (pp. 163-166), que organizam a Associaçom Galega da Língua e Andaime, com o apoio da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, frisando a sua utilidade.
Os blocos 9 e 10 recolhem não contributos originais elaborados para este volume, como todos os citados até aqui, mas seis trabalhos difundidos neste tempo no PGL, selecionados entre os mais representativos da década. Assim no bloco 9 damos com “Três notícias marcantes”: “Investigador descobre o mais antigo texto em galego-português” (pp. 169-170), que recolhe o valioso contributo, reconhecido internacionalmente, do Professor José António Souto Cabo, da Universidade de Santiago de Compostela, notícia datada em maio de 2002; “Hispanistas alemães escolhem a obra de Martinho Montero Santalha Oxalá voltassem tempos idos! melhor romance galego do último quartel do século XX”, (pp. 171-173), em que se refere esse acordo, em novembro de 2005, em que também se destaca essa narrativa de Montero Santalha entre as 20 melhores do Estado Espanhol no período; e “Isaac Alonso Estraviz entrará na RAG fruto de um acordo entre a AGAL e a Real Academia Galega” (pp. 175-176), uma peta de 1 de abril de 2004.
O volume finaliza com três entrevistas: a José António Cidre Bardelás “Medúlio” (pp. 179-191), em 19 de novembro de 2009, apresentando-o como “o primeiro trabalhador profissional ao serviço da AGAL”, à Professora e escritora Raquel Miragaia (pp. 193-201, assinada por Óscar Senra), realizada em abril de 2008, com ocasião da publicação do seu excelente livro de narrativa Em trânsito; e a Xico Bugueiro (pp. 203-209), tesoureiro da associação A Esmorga, quem em setembro de 2010 falava dos centros sociais galegos que apoiavam a “estratégia luso-brasileira”.
Concluindo, encontramo-nos perante um volume que oferece valiosos dados de algumas realidades culturais do século XXI, sobre as quais é difícil encontrar informação na Galiza, e que evidenciam uma heterogeneidade do maior interesse; nucleado em redor de uma proposta singular, que se consolidou como um dos sites mais veteranos da Galiza. O www.pgl.gal prosperou com muitos esforços individuais, e muita generosidade e solidariedade também, como se amostra e evidencia neste recomendável volume.
1 Lourenço Peres Vítor Manuel, et alii, (2012), pgl_10. A nossa língua na rede, a nossa língua no mundo, Santiago de Compostela, Através Editora, 210 páginas.

