A Agália inicia nova etapa com muitas mudanças e como “Revista de estudos na cultura”

Partilhar

Por Joám Manuel Araújo

A Agália, revista editada pela Associação Galega da Língua desde 1985, regressa ao mercado nas últimas semanas de 20111. Inicia agora nova etapa, com importantes mudanças que atingem os seus objetivos, e visa nova posição, com maior projeção no campo científico.

Assim se comprova apenas se colhe a publicação nas mãos: trata-se de um volume com menos páginas; a aparência da capa, apesar de manter o estilo do anterior diretor, o Professor Doutor Carlos Quiroga (de fato, é por ele realizada) é mais sóbria, espelhando-se nela, como depois se verifica, só o título dos estudos que inclui e os seus autores; e define-se como “Revista de estudos na cultura”. Além disso é o número 101 [veja-se na Imperdível], simples, não duplo como os dos últimos anos. Isto é assim porque a revista muda a periodicidade: deixa de ser trimestral para passar a semestral.

Na contracapa apenas os créditos da revista, salientando-se o seu sítio web (www.agalia.net) e confirmando a periodicidade de dois números anuais, anunciando que se apresentarão no mercado em junho e em dezembro.

Equipa diretiva de nove países

Após este primeiro impacte, o leitor depara ao abrir a revista com uma nova Direção, e os conselhos de Redação e Científico muito renovados.

O novo diretor é o Professor Doutor Roberto López-Iglésias Samartim, docente na Universidade da Corunha e pesquisador do Grupo Galabra da Universidade de Santiago de Compostela (USC). É bem conhecido, como colaborador de longa data e com importantes contributos de teor científico e literário nas páginas da Agália desde há anos. Todos os membros dos dois conselhos antes assinalados pertencem a universidades, que se indicam em cada caso.

O Conselho de Redação está integrado por 14 conceituados professores e investigadores, dos quais 6 exercem na Galiza (4 na USC e 2 na da Corunha); 3 em Portugal (2 em centros de Lisboa, e 1 na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro [UTAD]); outros 3 no Brasil (nas universidades federais de Goiás, Rio de Janeiro e Bahia), 1 na Universidade de Cabo Verde e outro na de Buscaresti.

O Conselho Científico conformam-no 23 especialistas, dez deles profissionais nas três universidades galegas (6 na de Santiago de Compostela, 2 na da Corunha e mais 2 na de Vigo); 5 em Portugal (3 em centros de Lisboa, e nas universidades do Minho e UTAD), 4 no Brasil (nas universidades federais do Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina, e na estadual de Campinas); e nas universidades Eduardo Mondlane (Moçambique), Brown (EUA), Göttingen (Alemanha) e Autônoma de Madrid (Espanha).

Estamos assim perante uma equipa de 38 pessoas pertencentes a 21 universidades de nove países.

Ainda nesta mesma página se encontram os créditos da publicação, e informa-se de estar indexada na dialnet e na CAPES do Governo do Brasil2.

Vontade de ser “internacional” e “de referência”

Após o “Sumário”, o leitor encontra uma “Nota da Redação” (pp. 5-7), assinada pelo diretor, que apresenta a nova etapa e os trabalhos deste número.

Afirma Roberto Samartim: “Podemos ser [carregado dele], queremos ser, uma publicação científica internacional de referência nos Estudos da Cultura, capaz de acolher e divulgar duas vezes por ano conhecimento novo em galego-português sobre os múltiplos âmbitos da investigação que interessam a este campo das Ciências Sociais e Humanas”.

Acrescenta na continuação que a nova etapa visa ser “um projeto editorial e científico que advoga pola autonomia e a sustentabilidade e que acompanha todos os processos exigidos polos organismos avaliadores internacionais para garantir a qualidade científica dos trabalhos que publica (nomeadamente, que não unicamente, a avaliação dupla por pares anônimos)”.

No final desta apresentação Samartim resume como “sinais de identidade”, que se propõem para esta publicação, os de “diversidade de assuntos e perspetivas, interesse das achegas para os campos de estudo específicos e profundidade e rigor na análise dos objetos de estudo focados”, para além da “possibilidade de verificação dos processos científicos e editoriais polas entidades avaliadoras internacionais”3.

 

 

O conteúdo: seis estudos

Essa novidade a respeito dos objetivos e perspectivas materializa-se com a inclusão de só seis estudos. Desaparecem os contributos literários, as recensões, e as notícias e documentação, para além da fotografia e outras características da revista que se mantinham de regra desde os inícios. A maior exigência científica impõe-se, o que sem dúvida surpreenderá os fieis que acompanharam a revista nestes 25 anos de percurso.

Dos seis trabalhos escolhidos para iniciar este novo tempo, quatro procedem do Brasil, um de Portugal e o outro da Galiza. Em todos eles se informa das datas de receção, admissão e aprovação para publicação, o que é mais outra novidade. Esses trabalhos são estes:

1.-“Biblioteca escolar e Escola: Uma relação evidente?” (pp. 9-34), de Verôrica Maria de Araújo Pontes, da Universidade do Estado de Rio Grande do Norte. Um trabalho do campo das Ciências da Educação, alicerçado numa pesquisa em bibliotecas escolares públicas de Natal, com entrevistas a alunado, a docentes e a pessoal auxiliar, e em que se conclui como a biblioteca escolar permanece “isolada e sem envolvimento com a prática educativa, tornando-se assim um local de acúmulo de informações, não um local de conhecimento, de veiculação do saber, um centro de referência de informação no contexto escolar”, como a própria autora esclarece.

2.-“Astrologia e Manuscritos Medievais Judaicos: Interfaces” (pp. 35-55), de Alexia Teles Duchowny, da Universidade Federal de Minas Gerais. Neste artigo informa-se da existência de mais de 40.000 manuscritos medievais escritos em caracteres hebraicos em diferentes línguas. A autora, que se doutorou com um estudo sobre esta temática, refere os principais reinados ibéricos no que diz respeito a essa produção, e salienta o interesse dos trabalhos astrológicos, concluindo que a troca de idéias entre judeus, cristãos e árabes nesse âmbito “favoreceu o desenvolvimento da ciência ocidental e o estímulo de desenvolvimento das línguas vernáculas européias como veículos de criação e divulgação científica, em detrimento do latim”. Frisa o muito desse material ainda inédito, e que precisa ser melhor estudado.

3.- “Ora, Que História É Eça?” (pp. 57-80), de João Filipe Barbosa Borges, da Universidade Federal de Viçosa. Este especialista brasileiro estuda as relações entre a Literatura e a História a partir da leitura do romance A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós. Coloca também em diálogo esse produto literário queirosiano com outros campos, como os dos Estudos Literários e Lingüísticos. Insiste em assuntos como a diferente posição de Eça de Queirós pela evolução da sua escrita, questionando critérios como o de “Verdade” e, como ele próprio assinala “em que medida se pode transpor a realidade pluridimensional do mundo, para a realidade unidimensional que é a escrita?”.

4.- “Fernando Pessoa: o Cientista de Depois de Amanhã” (pp. 83-97), de Caio Gagliardi, da Universidade de São Paulo. Este artigo, como o próprio autor resume, “propõe uma abordagem do poema ‘Análise’ (1911), de Fernando Pessoa, visando demonstrar como o texto engendra, sob o disfarce lírico-amoroso, e através da sua aproximação do Livro do desassossego, uma das mais altas sínteses do pensamento desdobrado e da poética da inteligência que singularizam o lirismo reflexivo do seu autor”. Assinalar apenas que o poema estudado pertence à produção publicada póstuma de Pessoa, que Caio Gagliardi trata “com certa independência” com relação ao espaço tradicional em que foi inserido pela crítica especializada.

5.-“Um paradoxo do tempo pós-moderno” (pp. 99-108), de Celeste Natário, da Universidade do Porto. Este contributo, segundo valoriza na apresentação dos conteúdos da revista o diretor da Agália (p. 7) “pondera a condição pós-moderna (ao igual que antes o fizera o estruturalismo, o existencialismo ou a escola de Francoforte) e coloca o pensamento de Leonardo Coimbra como uma possível via de saída, construtiva e positiva, para o paradoxo de o ser humano no tempo pós-moderno ser objeto e não ser (ou quase não ser) sujeito”. Trabalho do campo da Filosofia, Celeste Natário coloca em diálogo esse pensador português com outros, e foca um assunto clássico e de atualidade, para constatar “uma história do homem onde a luta pela liberdade e pela felicidade, numa trajectória de esforço contínuo, ocorre num penoso esforço de emancipação”.

6.-“Camilo José Cela e um suposto vocabulário do baralhete” (pp. 109-120), de Jorge Rodrigues Gomes. Este conceituado especialista no estudo das falas gremiais, com pesquisas sobre o tema na Agália, e autor o livro Falas Secretas. Estudo das gírias gremiais galego-portuguesas e ibéricas, editado em 2008 pela Associaçom Galega da Língua (trata-se do seu estudo académico de Doutoramento, defendido na Universidade de Vigo), visa demonstrar como está errado um trabalho de Camilo José Cela (escritor premiado com o Nobel de Literatura) publicado no jornal madrileno ABC em 1999 e recolhido postumamente em livro, ao atribuir um vocabulário à gíria gremial dos afiadores ambulantes galegos, denominada baralhete. Esse vocabulário estava conformado por 25 palavras, que Cela assinalava serem inéditas, por não figurar em compilações desse criptolepto gremial. Jorge Rodrigues Gomes analisa, com minúcia e pormenor, palavra por palavra, para concluir que 21 são vozes galegas, algumas dialetais e outras modificadas; duas são castelhanas, e as outras duas de origem desconhecida, mas oferecendo alguma hipótese ao respeito. Esclarece outros elementos de interesse para compreender este trabalho de Camilo José Cela, e conclui que esse vocabulário “deveria ter sido apresentado, simplesmente, como um conjunto de vozes galegas dialetais, algumhas delas, com certeza, originais”.

A revista divulga nas páginas finais (+5) as suas “Normas de edição”.

Conclusão

Encontramo-nos perante uma publicação nova, que apenas concorda com a secção de “Estudos” 4 (e talvez a de “Notas”) das suas anteriores etapas, pelo espaço que dedica ao trabalho de pesquisa e pelo teor do mesmo. A avaliação externa dos trabalhos por dois especialistas representa importante novidade e contribui para um maior rigor e exigência metodológica para a escolha e a publicação de trabalhos.

Chegar a estar inserida entre as publicações científicas de referência internacional, como se propõe, representará porventura benefícios para a revista e para o movimento do Reintegracionismo galego. É por isso que os leitores que se sentiam à vontade com a linha anterior, e que notarão a ausência dos contributos literários, ou das notícias e as referências à trajetória associativa5, deverão dar um voto de confiança e costumar-se para assumir este que se julga de um caminho certo para prestigiar a revista no campo científico internacional, como parece ser o objetivo central assinalado nesta altura por parte da associação que a edita.

Compostela, dezembro de 2011.

 

Notas:

1 Agália, Revista de Estudos na Cultura editada pela Associaçom Galega da Língua (AGAL), nº 101, 1º semestre de 2010, 120+5 páginas..

2 Vale a pena referenciar como a Agália, sem qualquer apoio oficial, atingiu a máxima qualificação na classificação de publicações científicas no Brasil, atribuída pela entidade governalmental CAPES. Roberto Samartim frisou na recente assembléia da AGAL, como objetivo central para a atual equipa diretiva, o de atingir no meio prazo a mesma posição nas listagens de publicações científicas de referência na Europa, o que por sua vez contribuirá para o aumento do número de trabalhos científicos submetidos por pessoal investigador da Galiza e de Portugal. Destacou também Samartim como em 2011 se receberam na redação da Agália 68 trabalhos, e fecharam-se 4 números: este já publicado e 3 mais; e até ao 1 de abril de 2012 recebe contributos para o número 105.

3 A participação no campo científico internacional exige o acompanhamento das regras que vigoram nesse espaço. Para isso foi necessário fazer mudanças na tipologia que a publicação tinha anteriormente. Samartim lembrou na recente assembléia da AGAL (celebrada em Compostela neste mês de dezembro) que foi decisão de uma assembléia anterior retirar os conteúdos literários/artísticos e informativos/associativos, estes últimos já veiculados através do PGL, para publicar unicamente aqueles trabalhos científicos que contassem com duas avaliações positivas de investigadoras/es especialistas no âmbito de conhecimento focado pelo artigo submetido.

4 Sob esta perspectiva, este número 101 ultrapassa em páginas a média da parte científica dos anteriores, pois nos duplos ocupava por volta de 110-115 páginas.

5 O diretor, Roberto Samartim, insistiu na recente assembléia da AGAL em que a nova etapa responde à aposta pela intervenção da AGAL no campo científico internacional, aposta refrendada pela Assembléia Geral da Associação em 2010, por unanimidade das pessoas presentes