Joám Manuel Araújo
Retratar o Portugal Invisível não é título de um livro concreto, mas síntese de duas publicações editadas nos últimos meses pela Fundação Francisco Manuel dos Santos1, que aqui se vão comentar brevemente por se julgarem de interesse. A primeira delas é XXI. Ter Opinião2, no mercado nos finais do ano 2011; e a segunda, mais recente, Retrato de Portugal. Pordata. Indicadores 20103. É claro que a primeira parte do título que se propõe para este comentário tem relação com o desta última; “Invisível” é adjetivo que procede do texto de apresentação da outra, assinado pelo editor António Barreto, que assinala como uma das missões da Fundação a de “tentar mostrar o invisível”.
Encontramo-nos perante duas publicações que têm como objetivo central divulgar a situação socioeconômica do Portugal atual, colocando em diálogo muitos dos principais indicadores da nação com os seus parceiros na EU, e verificando a trajetória das últimas décadas. No entanto, o modo como se apresentam os dados para atingir a mesma finalidade é bem diferente.
1.-XXI. Ter Opinião
XXI. Ter Opinião é o resultado da colaboração de 28 produtoras/es, muita/os dela/es jornalistas e também professoras/es e especialistas em muito diferentes âmbitos, como a Economia, a Sociologia, a Filosofia, a Saúde, a Física, as Ciências, as Letras, a História, o Direito a e Política; boa parte delas/es bem conhecidas/os por terem servido em responsabilidades públicas de relevo ou ocupar cargos acadêmicos. De todas/os se oferecem dados na p. 208. As 207 anteriores ocupam-se de 17 temas salientados na capa, estes: Crise, Dívida, Banca, Portugueses, Grécia, Europa, Juízes, Tribunais, Hospitais, Capitalismo, Criação, Democracia, Fim, Eleições, Escola, Islão e Números. O volume destaca na capa “Dias inquietos”, apenas duas palavras para reforçar a idéia de instabilidade por causa da crise econômica.
O primeiro trabalho, intitulado “2011-2012: Portugal tem emenda?” é de José Manuel Fernandes, conhecido jornalista português e diretor desta publicação. Nele analisam-se alguns dos acontecimentos marcantes do ano 2011 e frisa-se que este repositório, publicado por vez primeira e que visa ter periodicidade anual, “não pretende limitar-se ao registo do ano que passou, antes prefere partir dele para propor reflexões e debates. […] Por isso partimos de um ponto de vista sobre o que se passou, se está a passar e sabemos que está agendado, para propormos diferentes ângulos de abordagem que só nos preocupamos que sejam plurais e que sejam originais, não que esgotem todas as diferentes perspectivas” com o intuito de “ajudar os leitores a reflectir, a pensar”.
As páginas desta publicação têm uma apresentação muito atrativa, com iconografia, gráficos, imagens e grafismo que contribuem para uma leitura não cansativa e aliciada pelos continuados destaques de mensagens impactantes. Vejam-se alguns a modo de exemplo:
–na p. 13, sob o título “Há cada vez mais pessoas a pedir ajuda para comer”, salienta-se: “Em 2010, o Banco Alimentar Contra a Fome assistiu cerca de 298 mil pessoas, mais 37 mil do que no ano anterior e mais 48 mil do que em 2008. Globalmente, o número de portugueses que pedem ajuda para comer aumentou entre 20% a 30% desde 2008”.
–na p. 70, na análise da função da judicatura, indica-se: “Os juízes não são trabalhadores subordinados. Não se acham em qualquer situação aproximável da dos trabalhadores das empresas privadas ou da Administração Pública. Investidos na titularidade de órgãos de soberania, encontram-se perante o Estado poder numa relação de identificação. Não são empregados do Estado”.
–na p. 87 defende-se que “Aquilo que não se faz nos centros comerciais é política. O centro comercial é quase todo o que uma sociedade moderna almeja, excepto cidade. Não é cidade”.
–na p. 107 lemos: “Foi com o ouro e prata obtidos na expansão marítima que o Ocidente penetrou no Oriente, será com os excedentes de divisas acumuladas que o Oriente se expandirá para Ocidente, quando este está inundado pela dívida que gerou endogenamente”.
–ou na p. 143, ao tratar da cultura, assinala-se: “Recomenda-se uma reflexão estratégica sobre o papel das artes e da cultura na sociedade portuguesa –tanto o Estado como os agentes privados devem procurar soluções que garantam patamares de acesso e fruição da actividade artística e cultural pelos cidadãos”.
São estes apenas 5 exemplos dos muitos que se poderiam escolher para dar conta do teor desta publicação, em que emergem e se combinam dados, análise, reflexão, informação e opinião; história e atualidade; e onde se nota bem a mão de um jornalista movendo os fios para atingir um produto interessante e valioso; e não só para Portugal e os portugueses, pois muitos dos temas tratados, pela focagem que se lhes dá, têm um alcance que ultrapassa as fronteiras. O objectivo marcado com certeza que se consegue no primeiro número deste anuário, e esperemos que a série continue muitos anos.
2.-Retrato de Portugal. Pordata. Indicadores 2010.
Retrato de Portugal. Pordata. Indicadores 2010 é um volume de pequeno formato, que inclui uma sucessão de dados apresentados em gráficos, de regra dois por página, sem qualquer comentário nem valorização, apenas uma breve apresentação no início de cada seção. Oferecem-se indicadores de 12 âmbitos de interesse: População (a que mais espaço se dedica); Habitação, Conforto e Rendimentos Familiares; Educação; Saúde, Cultura; Justiça e Segurança; Empresas; Emprego e Mercado de Trabalho; Proteção Social; Contas Nacionais; Ciência e Tecnologia; e Ambiente, Energia e Território.
Oferece-se destaque para os valorizados como os principais dados, com estudo da evolução no último meio século e mesmo algumas referências ao ano 2011, com o intuito de assinalar “números que contam a nossa história mais recente”, segundo se afirma ao abrir o pequeno volume. Vejamos também alguns exemplos:
–na página 7 indica-se que a população portuguesa cresceu suavemente, de menos de 9.000.000 no ano 1971 a 10.637.346 em 2010, e uma leve tendência ao descenso em 2011 até 10.561.614 habitantes, com um 15,2% de jovens, o 66,8% em idade ativa e o 18% de idosos em 2010 (com descenso dos dois primeiros indicadores e incremento do último em 2011).
–na p. 22, dedicada a Educação, afirma-se haver 161.576 docentes no ensino básico e secundário em 2010, quatro vezes mais que em 1961; e que as despesas do Estado com Educação situam-se no 5,0% do PIB, quando em 1972 era apenas o 1,5%.
–na p. 51, a respeito das “Contas Nacionais”, indica-se ser o PIB de 172.669.600 mil euros, e o PIB per cápita (preços constantes) de 15.238,5€.
Na contracapa ressalta-se o sítio web WWW.PORDATA.PT como o indicado para “tudo o que precisa de saber sobre Portugal, seus municípios e a Europa”, fazendo assim publicidade de um dos produtos principais promovidos por esta Fundação e em que tem especial interesse.
Conclusão.
Encontra-se o leitor perante duas publicações de teor bem diferente, mas com um mesmo e único objetivo: divulgar dados, indicadores, informações e opiniões que a Fundação Francisco Manuel dos Santos julga de interesse para conhecer a sociedade portuguesa atual, opinar da sua situação, e procurar soluções para ultrapassar a crise e alicerçar e construir um melhor futuro.
Existem, com certeza, outras fundações, entidades e instituições, com uma finalidade semelhante. É bem sabido que os mesmos dados podem ter leituras diferentes, dependendo de quem os interprete e para que fim. No entanto, ser um ator da atualidade e oferecer elementos para o diálogo é importante. A Fundação utiliza assim o seu património para influir na opinião pública e intervir diretamente, para dar visibilidade a elementos de relevo que convém conhecer e tomar de conta, e que é bom aproximar e fazê-los familiares para a comunidade que os origina, para a qual se orientam de preferência.
Notas:
1 Esta Fundação (www.ffms.pt) tem a ver com uma das grandes corporações empresariais portuguesas, cotada na bolsa na Euronext Lisboa, a Jerónimo Martins. Esta multinacional, que conta com milhares de empregados e está presente em vários países, tem os seus alicerces num emigrante galego, o tal Jerónimo Martins, que iniciou diversos negócios no século XVIII em Lisboa e fundou em 1792 a loja que origina o império atual.
2 Fernandes, José Manuel (diretor), (2011). XXI. Ter Opinião, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santoa, 208 páginas (5 euros, embora se oferecesse de graça em diversas instituições no final do ano).
3 AA. VV., (Junho 2012), Retrato de Portugal. Pordata. Indicadores 2010, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santoa, 63 páginas (oferecida de graça juntamente com publicações periódicas, v. gr. o Jornal de Letras, Artes e Idéias de julho).


