Por Joám Manuel Araújo
Entre as novidades de interesse que emergem neste final de 2012 vai-se ocupar este espaço de duas revistas certamente destacáveis: o número 4 de Letras com Vida, do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Européias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, publicada sob a chancela da editora Gradiva; e o número 102 da Agália, a revista de estudos na cultura editada pela Associaçom Galega da Língua (AGAL). Estas duas publicações, partilham o contar com Conselhos Científicos em que estão representadas universidades e instituições de vários países e de diversos continentes; e oferecerem contributos elaborados em Portugal, no Brasil, e na Galiza, para além de nos EUA e outros espaços1.
1. Cultura internacional em Letras com Vida
Miguel Real e Béata Cieszynska dirigem este último número da revista da Universidade de Lisboa, que se apresenta como publicação de Literatura, Cultura e Arte, embora neste volume ultrapassa esses objetivos e merecem salientar-se também outros campos, especialmente o da Filosofia.
De fato, mais de 50 páginas estão ocupadas por um Dossiê temático, coordenado por Renato Epifânio, em que se estudam “21 autores para a Literatura Portuguesa do século XXI”. São os filósofos Amorim Viana, Cunha Seixas, Antero de Quental, Teófilo Braga, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Basílio Teles, Teixeira Rego, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, Raul Proença, António Sérgio, Delfim Santos, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Eudoro de Sousa, Agostinho da Silva, António Quadros, Orlando Vitorino e António Telmo. Em todos os casos se informa de questões centrais sobre a vida, produção e trajetória destes pensadores, analisam-se pontos-fortes da sua produção e oferecem-se excertos da mesma. É muito difícil poder aproveitar melhor tão breve espaço para o que poderia ser assunto de vários volumes. Trabalho de síntese certamente louvável.
Esse magnífico trabalho encontra-se no corpo principal da revista, integrado por 288 páginas. Mas a publicação acompanha-se de um encarte de mais 60 páginas, subordinado ao título “Encontro histórico entre George Steiner e António Lobo Antunes em Cambridge”, datado em 9 de outubro de 2011, e que se oferece em inglês e português. Steiner e Antunes falam de política, de pensamento, de literatura, de crítica, dos clássicos, da atualidade; da vida e também do suicídio…, um diálogo vivo e intenso, que o leitor agradece.
No entanto, o maior número de páginas é dedicado para um vulto das Letras Portuguesas contemporâneas, António Ramos Rosa, que ocupa mais um dossiê, coordenado por António José Borges, e em que Maria Teresa Horta, Gastão Cruz, Robert Bréchon, João Rui de Sousa, Maria Irene Ramalho, José Bento, Fernando Pinto do Amaral, Ana Paula Coutinho Mendes, Maria Alberta Menéres, António Carlos Cortez, Miguel Real, Victor Oliveira Mateus e o próprio Borges se pronunciam sobre o autor. Oferece-se igualmente iconografia de interesse e inéditos do poeta, e uma conversa com ele datada em 20 de agosto de 2011. Uma homenagem que este poeta, ensaísta e mesmo desenhador certamente merece por visar na sua obra “um restabelecimento do homem no universo”, como assinala António José Borges na apresentação, onde o define como “um autor maior” da Literatura Portuguesa (p.168-169), que atingiu importantes prêmios e outros reconhecimentos por esse labor.
A outra figura central da cultura portuguesa, Pinharanda Gomes, é dedicada ampla entrevista, em que fala de política, literatura e pensamento, e mesmo prognostica sobre o futuro. A revista abre-se com outra “entrevista internacional” com Peter Burke, realizada por Beata Ciezynska, José Eduardo Franco e Maurício Ieiri: Burke, reconhecido especialista em História da Cultura refere questões respeitantes à cultura, á ciência, à história e ao futuro destas disciplinas.
Na seção Vozes Consonantes incluem 7 artigos. O primeiro deles, de Sharon Lubkemann Allen, do CLEPUL/Princeton University, intitula-se “O Passado e o Presente da República reprojetados por Liudmila Ulitskaia e Lídia Jorge”. Na continuação Joel R. Gômez, do Grupo de Pesquisa Galabra da Universidade de Santiago de Compostela, refere-se ao relacionamento de Ernesto Guerra da Cal desde universidades de Nova Iorque (New York University e City University of New York) com Jacinto do Prado Coelho, Hernani Cidade e outros professores e pesquisadores da Universidade de Lisboa, e os frutos desse contato em diferentes campos. Onésimo Teotônio de Almeida, da Brown University, polemiza sobre Partes de África, de Helder Macedo; Fernanda Santos, do CLEPUL da Universidade de Lisboa, aplica a idéia de cânone de Harold Bloom para a Literatura Angolana, salientando Manuel Rui e Pepetela; Octávio Santos ocupa-se do “fantástico como gênero dominante na literatura portuguesa”; AnaMaria Delgado, da Universidade de Leipzig, estuda a narrativa de Almeida Faria; Romana Valente Pinho, do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, assina o trabalho “António Sérgio: à margem da Academia”.
Inéditos do Padre Vieira estudados por Carlos Maduro; a pintura de Joaquim de Carvalho segundo Annabela Rita; e trabalhos literários de Pinharanda Gomes, Victor Oliveira Mateus, Henrique Levy, José Augusto Mourão e Sérgio Nazar David; para além de leituras críticas (assinadas por Mariana Sanfins Villa, João Santos, João Bigote Chorão, António José Borges. Maurício Ieri e Rui Sousa) e notícias sobre acontecimentos e projetos completam esta bela revista-
Merece destaque ainda o seu atractivo grafismo e o bom trabalho com os desenhos e a iconografia.
2. A Galiza e a CPLP em Agália
A Agália sai para o mercado com o número, o 102, o segundo após a renovação que experimentou no ano 2010, atendendo à máxima exigência e rigor do Campo Científico. Juntamente com Roberto L.-I. Samartim, da Universidade da Corunha, soma-se agora na direção Felisa Rodríguez Prado, da Universidade de Santiago de Compostela (os dous pertencem ao Grupo de Pesquisa Galabra, desta Universidade), o que merece assinalar-se como importante novidade. Também a paginação, duplicando agora com mais de 240 páginas as do número precedente. Nesta ocasião inclui 10 trabalhos: 6 de especialistas do Brasil, 3 de Portugal e 1 da Galiza, que são:
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“Crítica de arte e democracia: diálogo com Howard Becker”, de Pedro Dolabela Chagas, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
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“Poesia, Corpo da Potência. Poética e potência a partir de Anselm Kiefer e António Madureira Rodrigues”, de Francisco Saraiva Fino, da Universidade de Évora.
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“Formas de autorrepresentação e mutações contemporâneas da literacia. Construir um bilhete de identidade personalizado”, de Carina Infante do Carmo, da Universidade do Algarve.
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“No meio do caminho havia cadernos: oralidade, língua e literatura na Guiné-Bissau e em Moçambique”, de Robson Dutra, da universidade brasileira de Unigranrio.
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“Alinhagem de Nabuco”, de Claudete Daflon dos Santos, da Universidade Federal Fluminense.
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“Baudelaire em Murilo”, de Ulisses Infante, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
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“Regionalismo e Modernismo no Brasil: diálogos entre velhas pragas e modernos localismos”, de André Tessaro Pelinser, investigador da Universidade Federal de Minas Gerais.
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“Autoria Feminina na revista portuguesa Presença, folha de Arte e Crítica (1927-1940)”, de Rita Gisela Martins de Azevedo, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
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“Jardins, vinhas e mouros no trobar satírico galego-português”, de Paulo Roberto Sodré, da Universidade Federal do Espírito Santo.
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“A bandeira sueva do Reino da Gallaecia revista”, de Tomás Rodríguez Fernández, arqueólogo da “Dirección Xeral de Patrimonio Cultural da Xunta de Galícia”.
Trata-se de estudos “referidos à crítica da arte e da cultura, às ciências da educação, aos estudos literários e à cultura medieval”, segundo esclarece em acertada síntese uma “Nota da Redação” inicial, assinada pola diretoria.
O primeiro dos trabalhos foca as relações entre a obra de arte, o público e o lugar institucional de mediação exercido pola crítica a partir do conceito de “mundo da arte” proposto polo sociólogo Howard Becker. “A partir de um diálogo com este sociólogo norte-americano Howard Becker, analisamos o caráter compulsório da inscrição institucional da crítica, o que mitiga as suas pretensões à universalidade, à objetividade e, acima de tudo, ao distanciamento da atualidade calcado na confiança em seus próprios valores”, esclarece a autora.
A análise das relações entre campos culturais está presente no segundo dos contributos, em que se analisa de maneira contrastiva a obra plástica de Anselm Kiefer e a poesia de António Madureira Rodrigues à luz das teorias de Agamben e Sloterdijk. Neste trabalho, que se acompanha de quatro imagens de produtos de Kiefer, toma-se o corpo como principal ponto de convergência “enquanto espaço-limite de associação entre palavra e processo creativo”.
As ciências da educação têm presença neste volume com o estudo de caso realizado pola doutora Carina Infante do Carmo, quem leciona a disciplina de licenciatura Autobiografia e Histórias de Vida, sobre a relação entre as práticas discursivas atobiográficas em estudantes universitários e o conceito de identificação/ identidade derivado dos processos administrativos próprios do Estado moderno. Afirma que o estudantado vive imerso “num contexto de revolução digital em que as noções estabelecidas de literacia e os modos tradicionais de leitura e autorrepresentação estão a ser desafiados e até postos em causa”
Os estudos literários ocupam metade do presente volume, com importantes achegas sobre diferentes aspetos relativos ao funcionamento da literatura nos PALOP, das literaturas brasileira e portuguesa, e da produção literária medieval galego-portuguesa. Assim, Robson Dutra, partindo na epígrafe inicial de um poema em crioulo em que a guineense Odete Semedo opina sobre a língua e a escrita, e analisando Terra sonâmbula do moçambicano Mia Couto, aborda o processo de configuração de sistemas literários em situações caraterizadas polo (pós-)colonialismo a partir da aproximação aos casos de Moçambique e da Guiné, levando em conta a função desempenhada por elementos como a oralidade ou a “Negritude”.
Os trabalhos de Claudete Daflon dos Santos e de Ulisses Infante colocam o foco na formação de produtores canónicos brasileiros e nas suas relações com os campos culturais europeus; no primeiro caso por meio do estudo da viagem de formação de Joaquim Nabuco à Europa na virada dos séculos XIX-XX; e no segundo caso analisando as presenças de Charles Baudelaire e seu conceito de modernidade na obra de Murilo Mendes, a partir da análise de trabalhos em jornais da década de 1930 pouco valorizados ou mesmo esquecidos.
Por sua parte, André Tessaro Pelinser, avalia a tradição crítico-historiográfica brasileira no que diz respeito à relação entre modernismo e regionalismo. Conclui este trabalho que “No Brasil, o modernismo da forma superou largamente, no plano da legitimação acadêmica, o regionalismo da República Velha, preocupado em representar o descompasso entre o novo e o velho, o mundo urbano e o rural, o cosmopolita e o arcaico na virada do século”.
Rita de Azevedo, faz um levantamento exaustivo da produção feminina na revista Presença. Folha de arte e crítica, editada em Portugal entre 1927 e 1940, Encontramos aí os nomes de Sara Afonso, Maria Helena Vieira da Silva, Alice Gomes, Cecília Meireles, Irene Lisboa (quem assina como João de Falco), Mara, Maria Archer, Rachel Bastos, cujos contributos estuda e situa.
Encerram este volume dous trabalhos sobre cultura medieval. No primeiro deles, Paulo Roberto Sodré investiga elementos tópicos do locus amoenus nas cantigas satíricas galego-portuguesas através do levantamento das menções ao jardim e suas implicações nas cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores Pero Gomez Barroso, Roi Gomez de Briteiros e Estevam da Guarda; e por último, o etno-arqueólogo galego Tomás Rodríguez Fernández estuda a partir dos dados descritivos das fontes originais e uma proposta reintegradora no quadro específico da cultura tradicional galaica da bandeira do reino Suevo, a primeira entidade (proto-)estatal ibérica medieval; detém-se nas cores e nas figuras (dragão, leão, cálice) e aventura uma hipótese sobre o seu significado, diferente de outras teses, após revisitar bibliografia recente (edições e reedições) respeitante a esta questão, de que defende o seu relevo.
Vale a pena destacar da Agália como no final oferece referências da trajetória pesquisadora dos produtores, e fornece o seu contato, elementos sem dúvida positivos.
Nota:
1 Merece salientar-se o esforço destas duas revistas por manter uma periodicidade, e as dificuldades para conseguirem sair ao mercado na data certa. Letras com Vida inclui trabalhos datados no período que refere, o segundo semestre de 2011. No caso da Agália, esclarece-se em cada trabalho a data de receção e de aprovação, dando como publicação “setembro de 2012”. Assim, artigos recebidos e aprovados em 2011 e publicados em 2012 incluem-se nom volume referenciado para o segundo semestre de 2010, sem dúvida uma singularidade.


