J. M. A. – Dedica-se este recanto bibliótafo para comentar mais um contributo sobre Jenaro Marinhas del Valle, o mais recente de todos1: um estudo de Henrique Rabuñal, que estuda o relacionamento de Jenaro Marinhas del Valle com o teatro, e reune e difunde vários textos de teor teórico que esclarecem o pensamento do autor de A Revolta sobre o que é o teatro, a sua funcionalidade, e o desenvolvimento do mesmo na sua própria produçom e na Galiza, incluindo referências ao exterior.
Este volume, que chegou ao mercado no último mês do ano 2009, é mais um título que se deve acrescentar a outros seis comentados com antecedência2. Todos eles contribuem para um melhor conhecimento de Jenaro Marinhas del Valle e suponhem a reivindicaçom de tam singular produtor galego. Tem como valor acrescentado este livro o de estar publicado por umha instituiçom como a Universidade da Corunha (em que Rabuñal também leccionou há algum tempo), e numha colecçom especializada de teatro3, o que representa sem dúvida um contributo muito valioso para ajudar a consolidar este autor como um clássico do teatro galego, e figura principal do mesmo no século XX, umha posiçom que lhe é atribuída já por diferentes especialistas (entre os quais Rabuñal também se situa entre os principais), mas cujo reconhecimento encontra ainda resistências, sobretodo duas: a dos opositores à sua defesa do Reintegracionismo da língua da Galiza na árvore comum lusófona; e ao Nacionalismo Galego organizado politicamente, em que Marinhas participou muito activamente em vida.
Após a “Presentación” inicial (pp. 9-10), Rabuñal divide este trabalho em nove capítulos: “Cronoloxía de Jenaro Marinhas del Valle” (pp. 11-16), “Retrato do home” (pp. 17-22); “Os textos teatrais” (pp. 23-32), “Teatro e poética teatral (pp. 33-44), “Valoración do teatro de Jenaro Marinhas del Valle” (pp. 45-49), “Finda: Marinhas del Valle, leal e erguido” (pp. 51-60), “Bibliografia” (pp. 61-74), “Jenaro Marinhas del Valle na rede” (p. 75), e finalmente “Reprodución de textos de Marinhas del Valle” (pp. 77-217).
Na apresentaçom inicial informa Rabuñal de ter-lhe sido encomendado este livro com ensejo das comemoraçons do centenário do nascimento de Marinhas del Valle. Nele inclui a Marinhas entre os (p. 9) “grandes autores” e conclui que (p. 10) “entrar em Marinhas del Valle é como entrar num país”.
A “Cronoloxía” principia em 25 de Novembro de 1908, data do nascimento de Marinhas, e detem-se na continuaçom nos anos 1921, 1932-1936, 1940, 1952, 1964-1970, 1974-1979, 1981-1982, 1984-1992, 1994-2001 e 2006-2009. Em seis páginas referencia os que julga de principais acontecimentos biográficos e da produçom de Marinhas, bem como de estudiosos que se ocupárom dele.
No “Retrato do home”, em que inclui (p.18) umha fotografia de Jenaro Marinhas assinada por Miguel Castro, fala dos seus antecedentes familiares; da biblioteca da casa, em que privilegiadamente se formou; e de testemunhos do autor investigado, sendo fonte principal dos mesmos os seus próprios depoimentos e a sua obra editada.
Estuda na continuaçom os textos teatrais publicados em vida, e os póstumos, que apresenta de maneira cronológica, com dataçons desde 1952, em que se publicou A Serpe, até ao ano 2006, em que se conhecêrom os últimos textos, inéditos e publicados póstumos, na Obra Dramática Completa.
A concepçom que tinha Marinhas do teatro em geral e da sua própria produçom em particular é objecto de análise no seguinte capítulo. Aqui valoriza Rabuñal que (p. 33) “A súa obra [de Marinhas] como escritor é a propia de quen cre que o humano é o antónimo da ignorancia, do asoballamento, da inanición. Marinhas como escritor intentou todas as modalidades”, e detém-se na análise do afirmado por Marinhas sobre o teatro, e o seu teatro, em diferentes instantes (conferências, estudos e mesmo nas didascálias dos seus textos teatrais) e que se encontram publicados.
A respeito da valorizaçom do teatro de Marinhas, inclui opinions e críticas assinadas por Carballo Calero, Manuel Lourenzo e Francisco Pillado, Joel R. Gômez, o próprio Rabuñal, Pedro P. Riobó, Laura Tato, Pablo González Mariñas, Alexandrina Fernández e Lino Braxe, Manuel Vieites e Cilha Lourenço Módia.
Oferece este volume na continuaçom um texto com o mesmo título –“Marinhas del Valle leal e erguido” – que o incluído, também em 2009, nas Actas do Congresso Jenaro Marinhas del Valle editadas pola Associaçom Galega da Língua, com breves variaçons e acrescentando apenas uns versos sobre a amizade que se publicárom no Caderno de Notas. Entre os elementos deste contributo, memora Rabuñal o encontro com Marinhas em Dezembro de 1998, com ensejo de umha homenagem na Corunha organizada pola Asociación Sócio-Pedagóxica Galega e mais pola Agrupación Cultural Alexandre Bóveda, com o apoio da Universidade da Corunha, e afirma (p. 59):
Aquel día de decembro de 1998 vímolo lúcido e lúdico, extrañamente ausente e presente a un tempo, amigo do zume novo e do verbo antigo, domador de noventa anos e de tres decenas de pezas teatrais, de corenta narracións, de moitos poemas e de numerosos ensaios, fóra do mundo e instalado na súa cerna definitiva, leal, leal, leal moitas veces e erguido, soportando os aplausos e as simpatías de quen ten memoria. Marinhas vivirá para sempre no corazón da nosa patria e tarde ou cedo ocupará o lugar sobranceiro que por méritos lle corresponde. Levaba razón Luís Seoane cando definía a biografía de Marinhas cos adxectivos categóricos de “recatada e fecunda” a prol de Galiza.
Na “Bibliografia” diferencia por um lado “Bibliografia de Jenaro Marinhas del Valle” e, dentro dela ocupa-se em epígrafes de Libros e Outras Publicacións (e entre estas diferencia Teatro, Narrativa, Poesia, e Ensaios e Artigos); e por outro lado encontra-se a que denomina “Bibliografia Secundaria”, na qual observa Bibliografias, Entrevistas, Libros, e finalmente Ensaios, recensons e artigos.
De Marinhas del Valle na rede oferece duas referências: as da sua inclusom na Biblioteca Virtual Galega da Universidade da Corunha, e mais a Biografia que se lhe dedica no Portal Galego da Língua.
Finalmente, na reproduçom de textos de Marinhas del Valle inclui 23: “‘Nota’ a Monifates”, publicado em 1964 em Grial; “‘Prólogo’ a A Revolta e outras farsas”, segundo a ediçom de Galaxia em 1965; “‘Nota’ a A Obriga”, também de 1965 e extractada do mesmo volume de Galaxia; “‘Nota’ a Pequena Farsa dos Amores Desencontrados”, publicada em 1968 em Grial; “‘Dedicatoria’ a Loucura e Morte de Peregrino”, difundida em 1972 em Grial; “‘Nota’ a Dúas Pezas de Teatro Inerte” igualmente divulgada em Grial, em 1974; “‘Primordio’ a O Bosque”, de 1977, o seu último trabalho nessa revista do Grupo Galaxia; “As raíces”, publicado em 1981 na Corunha, num Caderno do Espectáculo da Companhia Luís Seoane; o “‘Preámbulo’ de Exiliados”, texto difundido em 1986 numha revista da Associaçom de Escritores en Língua Galega, mas que oferece segundo a versom recolhida na Obra Dramática Completa editada em 2006; “‘Introduçom’ a O Mantido”, publicada na Agália, em 1987; “Lembrança de Carré com excertos sobre teatro”, publicado na Agália em 1988; “Chegado o meu turno”, mais outro texto difundido na Agália, igualmente de 1988; “Da personagem teatral”, também publicado nesse mesmo ano na revista da Associaçom Galega da Língua; “Jenaro Marinhas del Valle: Testemunha de umha lealdade”, que é a quarta ediçom4 da entrevista com esse mesmo título, assinada por Rabunhal Corgo e Monterroso Devesa e editada por vez primeira na Agália, em 1989; “‘Notícia preliminar’ a Ramo Cativo”, de 1990, incluída nessa obra, na editora Sotelo Blanco; “‘Cenografia’ en Home Frouxo”, texto procedente de um caderno de monólogos editado pola Escola Dramática Galega, em 1990, “O Real em cena. Notas a esmo”, também de 1990, trabalho que apareceu na Agália, ao igual que o seguinte, intitulado “Lugris, Oratória e Teatro”; “A língua do escritor”, que Marinhas publicou em 1991 igualmente na Agália; “Carta a Francisco Pillado en A Gaiola”, publicada em 1995 na Revista Galega de Teatro; “Unha nota a Teatro Inerte”, publicada na Agália, em 1997; “Importáncia do público na revelaçom teatral”, que é o discurso proferido por Marinhas com ensejo da sua entrada na Real Academia Galega, editado inicialmente em 1979, mas que aqui se oferece segundo a versom, na normativa da Associaçom Galega da Língua, editada em 1998 na ocasiom das homenagens que recebeu este ano na Corunha; e finalmente “Monólogo a pano baixo”, texto prefacial que escrevu Marinhas para o volume Teatro à medida e pronto para si, editado pola Associaçom Galega da Língua em 1998.
Esses 23 textos som, sem dúvida, de grande valor para conhecer o pensamento sobre o teatro de Marinhas del Valle, e resulta um acerto tê-los reunidos, o que facilita a sua consulta e permite mesmo verificar a evoluçom do pensamento do produtor e as tomadas de posiçom ao longo da sua vida. Evidenciam também os muito diferentes instantes em que este produtor analisou o teatro em si e teorizou sobre aspectos dele, e espelham outros elementos da sua ideologia e concepçom da Literatura, da Galiza e do mundo, bem como do seu próprio rol.
Remete Rabuñal para as Actas da homenagem organizada na Corunha no ano 2008 pola Universidade da Corunha, a Cámara Municipal da Corunha, a Asociación Socio-Pedagóxica Galega e mais a Agrupación Cultural Alexandre Bóveda, a primeira grande actividade com ensejo do centenário do nascimento de Marinhas. Umhas Actas que oxalá se publiquem em breve e que resultarám mais um contributo para conhecer e reconhecer um produtor que, para além do teatro, tem relevo pola sua produçom nos campos literário, dos estudos literários, da política, da economia e mesmo do jornalismo na Galiza do século XX.
Seria interessante que este valioso volume se tivesse completado com umha síntese conclusiva, em que Rabuñal valorizasse todos esses elementos, o que enriqueceria ainda mais este livro. Porém, isto nom quer dizer que nom haja conclusons, mas encontram-se espalhadas nas páginas dos diferentes capítulos, por mais que num volume destas características, e estando editado nessa privilegiada colecçom, fosse talvez de esperar que se concretizasse algo mais a respeito da posiçom actual Marinhas, do resultado das luitas em que se empenhou, e de aquelas que outras pessoas travárom no estudo e defesa da sua trajectória e produtos; ao igual que as perspectivas, e o que deve mudar para que também se mova (e em que sentido) Marinhas e o seu processo de canonicidade, em andamento.
Mas nom se deve negar que este precioso livro de Henrique Rabuñal supom um passo para a frente nesse processo de construçom de umha imagem mais certa, de um novo Jenaro Marinhas del Valle, e contribuirá nom só para o melhor conhecimento do seu labor teatral, mas para enquadrar com elementos de maior certeza o resto da sua produçom. Em definitivo, o homem e a trajectória que seguiu em vida, mas que tivo condicionantes de antes e que se prolonga com conseqüências, como se evidencia neste caso, após a morte.
Compostela, Dezembro de 2009.
1 Rabuñal Corgo, Henrique, (2009), O teatro en Jenaro Mariñas del Valle, A Corunha, Universidade da Corunha, Biblioteca-Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor nº 62, 224 páginas. Segundo o cólofon, o livro saiu do prelo em 30 de Novembro. Na ediçom, para além do Departamento de Galego-Portugués, Francés e Lingüística da Universidade da Corunha, apoiárom a Consellería de Cultura e Turismo da Xunta de Galicia, a Axencia Galega de Industrias Culturais e mais o Xacobeo 2010-Galicia.
2 A eles há que unir, com rigor, a Obra Dramática Completa de Marinhas, editada em 2006 por Espiral Maior, ao cuidado de Pablo González Mariñas, Lino Braxe e Alexandrina Fernández.
3 A Biblioteca-Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, que tem como coordenadora científica a Professora Doutora Laura Tato Fontaíña, grande especialista dos estudos teatrais, diferencia seis séries: a “Azul”, em que se inclui este livro de Rabuñal, dedicada a Literatura Teatral Galega, dirixida pola própria professora Tato Fontaíña; a “Branca”, a Outras Literaturas Teatrais, ao cuidado de Carlos Paulo Martínez Pereiro; a “Gris”, a Pensamento e Estética, também sob coordenaçom de Martínez Pereiro; a “Ouro”, a Documenta, de que se responsabiliza Manuel Ferreiro; a “Verde”, a Literatura Teatral em Língua Portuguesa, com orientaçom de Francisco Salinas Portugal; e a “Vermella” a Literatura Teatral em Língua Francesa, com X. Carlos Carrete Díaz como coordenador. Todos os directores das respectivas séries exercem a docência no Departamento de Galego-Português, Francês e Lingüística da Universidade da Corunha.
4 O próprio Rabuñal reeditou esta entrevista num outro libro que dedicou a Marinhas, publicado no ano 2000 pola editora Laiovento. Agora recupera o texto segundo a redacçom original, na normativa da Associaçom Galega da Língua, umha proposta ortográfica a que oferece especial atençom e cuidado neste novo volume.
