LIVROS QUE ABREM GRADES

Um embaixador na Galiza tropical: Xosé Lois García



“Começam os galegos a entender-se
sobre a normalidade linguística, ou ainda
estão a dar pancadas?”
MARTINHO DOS SANTOS, dirigente moçambicano

Luanda, Novembro de 1997. Um chantadino toma a palavra na Assembleia Nacional Popular. É um dos ponentes do I Congresso da Literatura Angolana. Começa saudando o presidente parlamentar, o seu amigo Roberto de Almeida, e o resto de autoridades e políticos. Enceta assim o discurso: “Venho duma nação sem Estado, chamada Galiza, com uma língua própria do bloco linguístico lusófono, mas não vou falar da situação política e colonial do meu país, em homenagem da minha nação. Permitam-me, estimados participantes neste congresso, falar a minha língua que vocês não ignoram. Obrigado.” E continua a ler, sem que ninguém perceba nenhuma diferença, o seu relatório em galego ILG-RAG. Adverte, já de primeiras, de que “nunha España gobernada por unha clase dominante egocentrista e defensora da terríbel historia colonial”, pouco interessa a literatura da África negra. “Sei que esta miña opinión non lle gustará ao Sr. Embaixador de España, aquí presente, mais a verdade está por enriba de calquera xesto protocolario ou compracencia.”

O de Chantada, criado na paróquia de Morlám, chama-se Xosé Lois García, e a pergunta que se estarão a fazer muitos leitores é “por que é tão pouco conhecido este homem entre o reintegracionismo?” Eu soubem dele graças ao Héitor Picalho, quem numa noite no Bar Orellas de Ordes, me contagiou o seu entusiasmo polo nosso embaixador popular na lusofonia, especialmente na África galego-falante. Precisamente de Héitor Picalho é a genial ilustração da capa do Polas diversas xeografías da Lusofonía, livro que, com certeza, há-de ajudar a divulgar o formidável trabalho de Xosé Lois García. Trata-se dum amplíssimo compilatório de conferências, colóquios, prólogos de livros, artigos na imprensa, etc; acompanhado de mais de oitenta fotografias e prologado polo sempre ativo David Otero. É o resultado de décadas de ativismo na lusofonia, de relações internacionais auto-geridas da Galiza com os Países Africanos de Língua Portuguesa (PALOP) e demais.

A temática do livro, sempre com a lusofonia de protagonista, é mui ampla; abrange da poesia política carcerária às crónicas de viagem, passando polas lutas da libertação nacional em África. Destacam os artigos sobre o relacionamento entre o nacionalismo galego e Portugal e, sobretudo, os estudos dedicados a Angola, país do que Xosé Lois García tem um profundo conhecimento. Um conhecimento, há que dizê-lo, pessoal e direto, porque quase todas as pessoas da política e da literatura das que X.L. García fala, são amigas pessoais suas. Quanto aos artigos mais jornalísticos, ressaltam os de intervenção, perante algum desplante de José Saramago ao galego, ou a triste polémica de Gilberto Gil em Compostela em 2004. Noutro artigo, este de 1994, X.L. García criticava profeticamente as traduções do ‘português’ para o galego ‘galego’: “Ao ritmo que imos, algún traductor iluminado traducirá a Fernando Pessoa”, como finalmente aconteceu, com uma premiada tradução…

Polas diversas xeografías da lusofonía vem a ser, por outra parte, uma nova constatação de que o discurso lusófono já é hegemónico, voando por cima das escolhas ortográficas(*). Para qualquer leitora amante do galego suporá um importante reforço simbólico: nas suas páginas aparecem continuamente escrituras e políticas da lusofonia que conhecem e defendem a Galiza e o galego, que nos berram “não estão sozinhas!”. Para a ativista, este livro contém todo um programa de ação: o imenso capital de relações que forjou X.L. García pode dar excelentes resultados mancomunando-o. Polo de pronto, algo que poderia interessar à Através Editora: as obras completas de Agostinho Neto precisam editorial.

Nota

(*) Sobre o avanço do reintegracionismo para além da questão ortográfica: veja-se a reportagem de Rubém Melide sobre “O reintegracionismo latente” no Novas da Galiza nº 134; e o de Mónica G. Devesa, “Busco amante galego-falante”, no nº 136.
GARCÍA, Xosé Lois. Polas diversas xeografías da Lusofonía, Guitiriz, A.C. Xermolos, 2013, 866 págs.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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  • Isabel Rei Samartim

    Que bom! Não conhecia, não. Está visto que os cárceres servem só para os corpos porque as mentes até funcionam ainda mais!

  • Ernesto V. Souza

    Há anos que ele escreve, sempre interessante e com perspectiva. Ultimamente é coluna habitual no Sermos Galiza, não poucas vezes achegando importantes referencias e dicas sobre, livros, feitos, cultura e literatura portuguesa africana.

    Tem muita cousa no seu blogue que merece a pena ler ou dar uma olhada…

    http://www.xoseloisgarcia.com/

    • Isabel Rei Samartim

      Obrigada. Não disse nada do reintegracionismo platónico por não amolar o Carlos. Mas é bem evidente…

      • Ernesto V. Souza

        Pois… por não amolar… mas é provavelmente o caso mais espetacular de dissociação… um dos autores, trajetórias, peso e contatos… que mas me têm feito pensar a respeito…

        Suponho que como tudo é questão de tempo… de haver precursores vivendo no tempo dos epígonos… agora, sem termos muito certinho quais são quais…

        • Isabel Rei Samartim

          É o mesmo que o de Filgueira e cia. mas noutro nível, com outros referentes, ou sub-referentes. Em todos esses casos a consequência lógica vê-se furtada, ou coutada, na prática do próprio indivíduo. Eles não veem, ou não sentem, essa consequência e por isso aparecem difusos aos olhos futuros.

          • Ernesto V. Souza

            Pois… não é o mesmo se perceber um dos derradeiros, dos últimos no meio da desfeita do mundo… que um dos precursores da modernidade e do futuro…

            Acho que isso é o mais grave do isolacionismo cultural esse se ter sentado a morrer.

          • Isabel Rei Samartim

            Sim, é uma rendição (que não uma redenção). Mas é possível que tudo vá unido, inconsequência e rendição, sensação de ser o último e isolamento.

          • Ernesto V. Souza

            Vai unido… tudo e sempre… centralismo e desfeita do país, perda de sentido local e ausência de instituições e de narrativa coletiva, de direitos, referentes desnortados, parciais ou inconstantes, falta de planificação, improvisação, reinvenção constante de ideias comuns mas vagas, empobrecimento, miséria, submissão, marginalidade ou fugida, falta de trabalho e projeto, falta de independência pessoal das mais das pessoas… isolacionismo…

          • Isabel Rei Samartim

            Muita gente que viveu a sua vida como se fosse dirigida por um destino alheio a ela mesma, como se pendurassem de fios como fantoches. Como se nada pudesse a vontade delas sobre elas mesmas. (Já temos tido esta conversa outras vezes. Acabávamos falando da preguiça e da comodidade. E finalmente, [email protected] somos có[email protected], e volta a começar. )