Os cans da Contrarreforma

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aldeias_ordes_contrarreformaeQueria saber Serxio García do topónimo de Cás, na freguesia dos Anjos, pois, como bem aponta, “é um nome curioso”. Por sorte contamos com um excelente trabalho de Antón Palacio Sánchez que, dando umha pequena volta pola história política do cristianismo, o explica rigorosamente. [1] De início há que situar-se na Europa em que a irrupçom do protestantismo de Martinho Lutero estava a abalar todo o antigo statu quo, mas também a reconduzir à via reformista as revoluçons camponesas comunais que os Luther Blissett ficionaram magistralmente no romance Q. Perante essa voragem, o catolicismo reage com violência e convoca o Concílio de Trento, laboratório de desenho das políticas contra-revolucionárias e de controlo social que marcarám os próximos séculos.

Naquelas sessons, concretamente na XV e XVI, participou o prelado Gaspar de Zúñiga y Avellaneda, quem à postre faria possessom do arcebispado de Santiago de Compostela em 11 de fevereiro de 1559. Instruido na nova estratégia rigorista do catolicismo, encarregaria-se de que em todas as freguesias do arcebispado se fundassem confrarias do Santíssimo Sacramento (cujo eco atual som as festas do ramo do Sacramento, que perduram em tantas paróquias) [2] e mesmo convocou um Concílio Provincial Compostelano, redigiu as Nuevas Constituciones de la S.A.M. Iglesia de Santiago e reformou o Breviarium Compostellanum. A polícia das almas acometia entom umha reforma em profundidade. Dentro desse frenesim contrarreformista, o arcebispado também realizou umha importante política de retoponimizaçom, modificando nomes de lugar que na sua ignorância soavam a impios, por hagiotopónimos como o de “Los Ángeles”, advocaçom mariana mui na mado entom.

Pois bem, nesse contexto político-religioso a aldeia de Cás era a que dava nome a toda a freguesia, chamada polo menos até o 22 de setembro de 1531 de Sam Mamede de Cás. [3] Entom a suspeita trentina (umha paróquia de cans?) transformou-na na mais religiosa e castelhana San Mamed de los Ángeles, do mesmo jeito que mudárom as Santa Maria de Perro de Boimorto e Briom por sendas Santa María de los Ángeles. Como o neotopónimo já nasceu em castelhano, haverá que esperar séculos, até à oficializaçom da língua galega, para vê-lo escrito como o atual San Mamede dos Anxos (Anjos ou Ângelos conforme à ortografia histórica do galego), ainda que na fala já se deveu de galeguizar antes. Conforme escreve o irmandinho Eugénio Carré Aldao ao tratar desta paróquia:

San Amede (Mamed) dos Ánxeles, anexo de Calvente.–En gallego suena también Anxos y Anxos es el apelativo, siendo más típico en esta forma, pues la de Ánxeles es ya castellanizada.” [4]

E continua a descrever a freguesia:

“Encuéntrase en la confluencia del río Maruzo con el Tambre. Extiéndese la feligresía sobre una altura a la derecha del río principal, con terreno bastante quebrado y de clima templado y sano.

Sus aldeas son Bran o Vran, Cabanas, Cachopal, Calvente, Cas, Pedralba y Sar, la mayor Cabanas, con 90 habitantes, y grupos menores. Las viviendas ascienden a 83, de ellas 36 de un piso y 47 de dos, y los albergues a 4. los habitantes que ocupan las casas llegan a 397 de hecho y 478 de derecho, estando sin habitar dos edificios por su empleo. Hay una escuela nacional.

Cuenta el término con buenos pastos y arbolado, sobre todo castaños.

Hubo un tiempo en que fué iglesia propia.

Esta parroquia es más importante por su población que la feligresía matriz, que sólo suma 145 habitantes de hecho y de derecho.” [5]

A aldeia de Cás era a que dava nome a toda a freguesia, chamada polo menos até o 22 de setembro de 1531 de Sam Mamede de Cás. [3] Entom a suspeita trentina (umha paróquia de cans?) transformou-na na mais religiosa e castelhana San Mamed de los Ángeles, do mesmo jeito que mudárom as Santa Maria de Perro de Boimorto e Briom por sendas Santa María de los Ángeles.

Em Portugal também há localidades chamas Anjos nos Açores e em Braga. O sucesso do hagiotopónimo cruzou o Atlântico, e se hoje umha das mais importantes cidades do mundo se chama Los Ángeles algo terá a ver com a galegagem. O aventureiro Felipe de Neve pugera-lhe de nome original à futura capital da Califórnia Nova Senhora da Raínha dos Anjos, e o Xurxo Souto comenta-nos que “o fundador de San Francisco e Os Ánxeles chamábase Benito Cambón, era natural da aldea de Seaia de Malpica. Recuperou a sua biografía Adrián Abella”. Umhas origens coloniais, por certo, que ultimamente estám a ser revisadas nas duas cidades, reivindicando as populaçons originárias.

O padroeiro da freguesia, por outra parte, também é mui interessante. Na comarca de Ordes, para além dos Anjos, Sam Mamede também é o padrom da Lançá, de Berreio e de Andoio, onde também há o lugar de Samede. Sobre este santo escreveu Ferrín que:

“A alguén se lle ocorreu, pero non defendeu, que Mamede é unha cristianización altomedieval do nome Mafoma (do árabe muhammed ‘o louvado’), Profeta de Deus. Tería moita graza que máis de cen freguesías e santuarios de Galicia e norte de Portugal que levan hoxe o nome de San Mamede estean a renderlle culto, sen sabelo, ao inventor do Islam!” [6]

Só resta por voltar ao princípio e explicar que era o que significava entom Cás. Atinaria o arcebispo ao interpretar aí um zootopónimo canino? Parece ser o caso dos microtopónimos Terreo do Cam, em Visantonha,precisamente perto do Monte do Lobo; assim como o metafórico Espinho do Cam, em Cavaleiro, irmao do que dá nome à algarvia Serra do Espinhaço do Cam. Por último, um dos santuário mundiais da escalada é a montanha Cão Grande, em Santo Tomé e Príncipe. Na Idade Média os cans eram mui apreciados polos nobres, que os usavam nas suas montarias. Tanto os queriam que o infante Dom João, filho do rei de Portugal, dormia na sua cama entre dous cans, presentes do seu irmao o mestre de Avis e de Fernám Peres de Andrade, o construtor da Ponte de Sigoeiro. [7] O primeiro cadelo chamava-se Bravor e o segundo Rabez. Também sabemos que em 1118 a raínha Dona Urraca doara ao mosteiro de Samos um cam chamado Olegário.

Nom parece, em todo caso, que o nome desta paróquia de Oroso se refira aos cadelos. O homónimo Cáns, no Porrinho e famoso polo seu Festival de Cinema, irmao retranqueiro do de Cannes, procede de um antigo Canales (em referência a canais de rego?); e Nicandro Ares julga um outro Cás relacionado com o antropónimo Canis. [8]

Filho desta paróquia de Sam Mamede dos Anjos, foi o grande Manuel del Río Mandayo (1907-1936), ebanista, carpinteiro, gaiteiro e militante socialista quando isso era sinónimo de anticapitalista e revolucionário. Mui convencido da importância da cultura para a emancipaçom obreira, para além de literatura relacionada com a sua profissom também tinha as obras completas de Voltaire ou Eduardo Pondal. Era, como William Morris, um socialista namorado da beleza.

Casado em Ordes com Pilar Naveira Golán, era o responsável local do Partido Socialista e da UGT, quando os franquistas iniciaram o genocídio. Quando estava a descansar na sua casa em companhia da sua mulher e dos seus filhos o tristemente célebre ‘Venturilha’ foi por ele para levá-lo à casa-quartel, onde estava a esperá-lo Pe Pérez. Após torturá-lo metêrom-no num automóvel e passeárom-no na madrugada do 5 de outubro de 1936, enterrando o seu corpo em Boisaca. De nada lhe serviu estar a fazer entom uns trabalhos na casa do alcaide golpista Arturo Pérez Loureiro, quem nom moveu nem um dedo para impedir o assassinato. Manuel Astray Rivas relatou em detalhe aquele crime. [9] Um dos seus filhos, Leandro del Río, deixou manuscrito contra o esquecimento umhas valiosas Memorias del hijo de un paseado. Perante toda aquela barbárie erguera-se a resistência guerrilheira que, segundo Hartmut Heine, também tinha base seguras nos Anjos, na aldeia do Cachopal. [10]

Notas

1. Antón Palacios Sánchez, “Malos, Perros e Cas, topónimos interditos”, Estudos de Lingüística Galega, 2014 (6): 217-231.

2. Do Sacramento das Encrovas, com ramo, Nieves Herrero (As Encrobas. Unha memoria expropiada, Íria Flávia, Novo Século, 1995, p. 23) encontrou documentaçom da sua confraria que se remonta à segunda metade do século XVII; do Sacramento de Mercurim, que também tem ramo, a minha avoa lembra quando o tiveram na sua casa em Perra: “a gente pensava que como nom eramos ricos, nom tocariam os gaiteiros de Soandres, que tinham muita sona. Quando iam de marcha toda a gente foi com eles até à Camposa do Faro e ali bailamos todos, até bailou o meu avô. Depois fomos com eles até o Monte do Salgueiro; subírom ao valo e tocárom, dixêrom que se ouvira em toda a paróquia. A festa do Sacramento era mais longa que a da Santa Luzia, durava dous dias”. Também tinha muita fama o Sacramento de Oroso.

3. Para essa data Antón Palacio encontrou no Arquivo da Catedral de Santiago o regesto mais antigo dos referidos a esta paróquia, redigido no lugar de Meimixe e assinado ainda em San Mamede de Cas. O texto di assim: “Compromiso y sentencia de Jácome Carneiro, vecino de San Mamede dos Ánxeles [os autores dos regestos atualizaram a toponímia dos documentos], en una querella que le había impuesto Gómez de Cardama ante el asistente del arzobispado de Santiago por haberle pegado con un palo en los hombros y por injurias”.

4. Eugenio Carré Aldao, “La Coruña”, em: F. Carreras y Candi, Geografía General del Reino de Galicia, Vol. VII, Tomo 4º, Corunha, Ediciones Gallegas, 1980, p. 653.

5. Xosé Luís Méndez Ferrín, 2007, pp. 53-54.

6. Ibidem.

7. Fernão Lopes, Crónica do Rei D. Fernando I de Portugal, cap. C.

8. Nicandro Ares, “Toponimia do concello de Friol”, “Toponimia do concello de Baleira” e “Toponimia do concello de Rodeiro”, Estudos de toponimia galega, Corunha, RAG, 2013, p. 858.

9. Para a história de Manuel Mandayo del Río ver: Manuel Pazos Gómez 2001 e 2011; Viqueira Noya, 2017, pp. 18-19; e Manuel Astray Rivas, Síndrome del 36. La IV Agrupación del Ejército Guerrillero de Galicia, Sada, Ediciós do Castro, 1992, pp. 91-94.

10. Harmut Heine, A guerrilla antifranquista en Galicia, Vigo, Xerais, 1980, p. 152.