ALDEIAS DE ORDES

Bravas como espinhas



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Da palabra latina spinam, com o seu par masculino spinum, derivou umha das famílias toponímicas mais frequentes da lusofonia, com grande presença na comarca de Ordes. Nas freguesias de Leira e Gesteda há sendas aldeias chamadas a Espinheira, que tenhem a sua irmá maior em África, na cidade angolana do mesmo nome, e as suas irmás pequenas na microtoponímia de Montaos, onde há um terreno chamado da Espinheira, e em Messia com as Espinheiras. O Espinheiro é umha aldeia de Santaia de Gorgulhos e um microtopónimo em Castelo. Também na toponímia menor há um Espinho em Gorgulhos, que em Portugal dá nome à cidade homónima conhecida pola sua Praia do Espinho, e ainda se repete o topónimo várias vezes, especialmente no distrito de Viseu. Também há os microtopónimos Campo do Espinho em Gesteda e umha Fonte do Espinho, marcando o linde entre Rodis e Monte Maior.

O problema destes topónimos é que spinam/spinum significava ‘espinha, pincho, parte punçante dumha pranta’, mas também ‘coluna vertebral das pessoas ou espinhaço dos animais’. Em galego-português, entom, estes topónimos derivados dessa raíz às vezes som fitotopónimos, isto é, referem-se à flora (à árvore Crataegus monogyne, também à Prunus spinosa, ou a umha vegetaçom espinhenta em geral) ou som metáforas que descrevem a orografia dum terreno com forma semelhante à do espinhaço dum animal, como a mui explícita Serra do Espinhaço do Cão, no Algarve.

I.G.N., vizinha da Espinheira de Gesteda, foi umha das mulheres bravas que na década de 1960 luitou na defesa do monte comunal dos Quintos. Ali, como na luita das Encrovas ou na do monte Engério de Mercurim, as mulheres foram decissivas, polas suas redes de ajuda mútua, de sociabilidade e valentia. Esta vizinha da Espinheira contava-lhe assim à historiadora Araceli Freire como na após-guerra já criavam essas redes de resistência quotidiana:

“para ir ao estraperlo juntavamo-nos à noitinha na Ponte Cavalar, recurriamos kilómetros c’os burrinha ou c’os lotes ao lombo, escondiamo-nos da Guarda Civil, encubriamo-nos umhas às outras, ainda um dia tivem que tirar à Branquinha por umha cuneta para que nom nos pilharam a todas e levaramos umha tunda de paus, como lhe passou aquí a Josefa”1.

Essa experiência na solidariedade clandestina adquirida com o estraperlo foi-lhes mui útil quando em 1963 guardas civis, engenehriso e pessoal de Distrito Forestal pretenderam fazer-se com o monte e roturá-lo. Lembra I.G.N.:

I.G.N., vizinha da Espinheira de Gesteda, foi umha das mulheres bravas que na década de 1960 luitou na defesa do monte comunal dos Quintos. Ali, como na luita das Encrovas ou na do monte Engério de Mercurim, as mulheres foram decissivas, polas suas redes de ajuda mútua, de sociabilidade e valentia. Esta vizinha da Espinheira contava-lhe assim à historiadora Araceli Freire como na após-guerra já criavam essas redes de resistência quotidiana:

“para ir ao estraperlo juntavamo-nos à noitinha na Ponte Cavalar, recurriamos kilómetros c’os burrinha ou c’os lotes ao lombo, escondiamo-nos da Guarda Civil, encubriamo-nos umhas às outras, ainda um dia tivem que tirar à Branquinha por umha cuneta para que nom nos pilharam a todas e levaramos umha tunda de paus, como lhe passou aquí a Josefa”1.

Essa experiência na solidariedade clandestina adquirida com o estraperlo foi-lhes mui útil quando em 1963 guardas civis, engenehriso e pessoal de Distrito Forestal pretenderam fazer-se com o monte e roturá-lo. Lembra I.G.N.:

– E eles?

– Eles que, nada, miravam, solo se metêrom alguns velhos e rapazinhos pequechos, ainda p’a mirar escondêrom-se detrás dos cerrados e das gestas, pero é que os homes nom podiam e alguns tampouco queriam fazer nada, o medo é livre, pero ti crês, como iamos deixar que levaram o que era nosso?, já minha abuela e meu abuelo, esses da foto, tinham um rabancho de mm… miles, bueno centos de cabras e mira o chaleque que leva posto, era de lá”3.

O topónimo Espinheira gerou o apelido que leva, por exemplo, a editora corunhesa Rosa Espinheira Pan, durante anos encarregada do legado de Luís Seoane, pioneiro onde os haja na reivindicaçom das mulheres bravas ordenses, das emigradas e das desterradas do Casal. No I Congresso da Emigraçom Galega, em Buenos Aires, propom junto com Lourenzo Varela a realizaçom dumha homenagem às mulheres galegas, simbolizadas em Rosalia de Castro e Concepción Arenal, mas também Manuela Sánchez, a mulher que morrera cubrindo ao guerrileiro de Deixebre Antonio Nouche Corta. Os mui patriarcais homens do Conselho da Galiza, o governo no exílio, figeram umha forte oposiçom que logrou vencer, argumentando com veemência, o também ordense Francisco Comesaña Rendo.

1 Araceli Freire Cedeira, En defensa de lo suyo. Propiedad forestal y conflitividad social durante el franquismo: los montes vecinales de Cerceda (A Coruña), Universidad de Santiago de Compostela, 2011, p. 99.

2 Ibidem, p. 101.

3 Ibidem, p. 97. Os nomes destas mulheres só aparecem com as iniciais por mor da lei de proteçom de dados.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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