Tagore apoiou a nossa Segunda República

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Por José Paz Rodrigues

(Didata e Pedagogo Tagoreano)

Neste passado 14 de abril cumpríram-se os 80 anos da proclamaçom da Segunda República em Espanha. Até há muito pouco eu nom sabia que Robindronath Tagore apoiara a Segunda República e o seu governo legítimo. Apesar de levar toda uma vida, desde que tinha eu 16 anos, lendo Tagore e investigando sobre as suas múltiplas facetas de escritor em todos os géneros literários, músico, pintor, filósofo, jornalista, reformador social e, especialmente, educador. As únicas referências que conhecia da sua vinculaçom com a nossa República eram as de que vários dos seus livros traduzidos por Zenóbia Camprubí e Juan Ramón Jiménez iam nas bibliotecas ambulantes das “Missões Pedagógicas” republicanas, alguns dos quais tenho na minha biblioteca, com o carimbo do Padroado de Missões.

Também, de que na sua última conferência, antes de falecer em agosto de 1941, que foi publicada com o título de “Crise da civilizaçom”, faz uma referência destacada da República espanhola, criticando o governo britânico que se lavou as mãos e nom apoiou o legítimo governo de Azaña, quando o golpe de estado franquista que provocou uma guerra, da qual ainda hoje temos sequelas. No mesmo artigo-conferência fala positivamente dos cidadãos britânicos que formaram parte das Brigadas Internacionais de apoio à República. Os quais, acertadamente, segundo Tagore, salvaram a honra do Reino Unido ao apoiar um governo legítimo, eleito polos cidadãos espanhóis.

Agora, muito recentemente, venho de inteirar-me de que o apoio de Tagore à nossa República fora muito mais alá. No passado mês de janeiro, na Biblioteca-Museu de Tagore em Santiniketon, que leva o nome bengali de “Robindro-Bhavon”, terminei de recopilar os múltiplos artigos educativos tagoreanos para um próximo livro a publicar numa editora catalã, dirigida por um neto dum indiano. Entom tive uma ideia muito feliz e decidim iniciar uma nova investigaçom no arquivo do museu, consultando a correspondência epistolar de Tagore com infinidade de personalidades de todo o mundo, o que fiz, até que voltei para Galiza a finais de março. E encontrei, depois de fazer a escolha prévia oportuna, verdadeiras jóias. Existem milheiros de cartas, todas elas digitalizadas, enviadas por Robindronath, e outras muitas que lhe mandavam a ele de todos os pontos do planeta, a muitas das quais nom podia responder por falta material de tempo.

Entre a escolha que fiz, ademais das que existem com grandes educadores europeus e americanos e os seus tradutores e admiradores mais importantes, estive a ver as acolhidas sob as epígrafes de América Latina e “Spain” (Espanha). E aqui foi onde encontrei um verdadeiro tesouro. Do qual, que eu saiba, nunca se falou nem escreveu. A minha descoberta foi apaixonante e encheu-me de alegria. Pois meu pai e minha mãe eram profundamente republicanos, o que souberam manter em silêncio, para nom ter problemas, no lar onde eu medrei na minha aldeia da Corna. As cartas e documentos, das quais consegui cópia, som extraordinárias. Com data de 30 de março de 1937, desde a cidade de Allahabad, no estado de Uttar Pradesh, muito perto de Benarés, S. Sajjad Zaheer, secretário do Comité indiano de apoio à República, envia a Tagore uma carta solicitando-lhe que aceite ser o Presidente do Comité, acompanhando um depoimento em que se justifica porque a República deve ser apoiada, em momento tam grave pola agressom fascista a que está sendo submetida. Assinalando que nas cidades de Allahabad, Calcutá e Bombaim existem pessoas muito importantes a favor do governo republicano e contra o fascismo, e entre elas Nehru, que era natural precisamente de Allahabad. Na volta do correio, em carta datada em 5 de abril de 1937, quase com certeza desde Santiniketon, o secretário de Tagore responde que Robindronath tem reservas em aceitar a Presidência do Comité da Índia e da Liga contra o fascismo e a guerra em Espanha. Pois as suas muitas ocupações nom lhe permitem poder implicar-se, como seria o seu desejo, nas actividades do Comité. Porém, finalmente nos documentos correspondentes figura como presidente. E como Secretário-Geral do mencionado Comité aparece Soumyendronath Tagore, sobrinho-neto de Tagore, por ser neto do seu irmão mais velho Dwijendronath.

Posteriormente este seu sobrinho-neto, muito ativo, publica em Calcutá um interessantíssimo caderno monográfico dedicado a Espanha nesta altura. Em que figuram os integrantes do Comité, as fotos de Romain Rolland e Tagore, os depoimentos de ambos (o de Tagore sob o título de “À consciência da Humanidade”) e uma muito detalhada informaçom, elaborada polo coordenador, sobre o conflito bélico da guerra civil e as barbaridades cometidas polos golpistas. Mais tarde também me inteirei, consultando esta correspondência tagoreana, que Robindronath igualmente presidira aos Comités pola Paz Mundial, que tinham a sua sede em Genebra (Suíça).