José Luandino Vieira, importante escritor angolano



Quero dedicar o presente depoimento da série ao escritor angolano José Vieira Mateus da Graça, conhecido no seu labor literário como José Luandino Vieira, que é como assina as suas destacadas obras. Nasceu na localidade portuguesa de Vila Nova de Ourém a 4 de maio de 1935, nacionalizando-se angolano no ano 1975, após a independência do país. O presente artigo dedicado a ele faz o número 67 da série que estou a escrever sobre os grandes vultos da Lusofonia, e o 179 da série de grandes vultos da humanidade iniciada no seu dia com Sócrates, o grande educador grego da antiguidade.

A SUA BIOGRAFIA

jose-luandino-vieira-foto-de-jovemJosé Vieira Mateus da Graça, conhecido por José Luandino Vieira, nasceu a 4 de maio de 1935, em Lagoa de Furadouro-Vila Nova de Ourém, tendo ido viver para Angola aos três anos com os pais. Cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional escolheu o nome de Luandino como homenagem a Luanda e contribuiu para o nascimento da República Popular de Angola. Fez os estudos primários e secundários em Luanda, tornando-se depois gerente comercial para garantir o seu sustento.
Acusado de ligações políticas com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) foi preso em 1959 pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), no âmbito do que ficou conhecido como “processo dos 50”. Em 1961 voltou a ser preso pela PIDE, tendo sido condenado a 14 anos de prisão e a medidas de segurança. Em 1964 foi transferido para o campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde), onde passou oito anos, tendo sido libertado em 1972, em regime de residência vigiada, passando a viver em Lisboa.
Entre outros prémios literários, Luandino Vieira ganhou o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (1965), o Prémio Sociedade Cultural de Angola (1961), o da Casa do Império dos Estudantes de Lisboa (1963) e o da Associação de Naturais de Angola (1963). A partir de 1972, e já a residir em Lisboa, Luandino Vieira iniciou a publicação da sua obra, na grande maioria escrita nas prisões por onde passou. Regressou a Luanda em 1975, onde exerceu cargos directivos no MPLA e foi presidente da Radiotelevisão Popular de Angola. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, cuja condição sempre reivindicou, apesar de ter nascido em Portugal, exerceu funções de secretário-geral deste organismo desde a sua fundação a 10 de dezembro de 1975 até 1992.

Acusado de ligações políticas com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) foi preso em 1959 pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), no âmbito do que ficou conhecido como “processo dos 50”. Em 1961 voltou a ser preso pela PIDE, tendo sido condenado a 14 anos de prisão e a medidas de segurança. Em 1964 foi transferido para o campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde), onde passou oito anos, tendo sido libertado em 1972, em regime de residência vigiada, passando a viver em Lisboa.

Entretanto, foi-lhe atribuído em 2006 o Prémio Camões, o maior galardão literário para a língua portuguesa, que recusou “por motivos íntimos e pessoais”, segundo o que alegou num comunicado de imprensa. Sabe-se por entrevistas dadas sobretudo ao Jornal de Letras Artes & Ideias que não aceitou o prémio por se considerar um escritor morto e que como tal o prémio deveria ser entregue a alguém que continuasse a produzir. Tal facto veio-se alterar, pois O livro dos rios é um novo romance de Luandino Vieira (o primeiro de uma trilogia intitulada De rios velhos e guerrilheiros) editado pela Editorial Caminho em Novembro de 2006.
jose-luandino-vieira-capa-livro-0O escritor enquadra-se na denominada “Geração da Cultura”, surgida no final dos anos 50, para prolongar a ação do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (MNIA, 1948) e da Mensagem (1951-52), de que se destacaram, entre outros, António Cardoso, Arnaldo Santos e Henrique Abranches. Mas, pela particularidade e projeção da sua obra, Luandino ultrapassa-a, para se fixar, nas últimas décadas, como uma das maiores figuras de escritor deste século, em língua portuguesa. A parte significativa da sua obra foi escrita nos anos 60, nomeadamente os dois livros mais importantes, Luuanda e Nós, os do Makulusu. O primeiro constituiu uma autêntica revolução literária. O segundo, escrito durante uma semana, conforme indicação do autor, é para ele o texto com o qual mais se identifica em termos pessoais, quase autobiográficos, podendo ler-se como um testemunho vivencial e uma análise do colonialismo a partir de uma visão de dentro da sociedade branca.
A sua obra divide-se em duas fases: a primeira, que agrega as estórias escritas até 1962, ou seja, todas as incluídas em Vidas novas, e que ainda se mantêm nos limites do discurso relativamente clássico, não demasiado afastado em relação à norma do português europeu e do modo narrativo conforme com o modelo do conto curto à Maupassant; a segunda fase, com a duração de dez anos, inaugurada pela escrita de Luuanda, tenderá progressivamente para a destruição da pacatez de leitura, disseminando marcas de angolanização da língua portuguesa, subvertendo a norma comunicativa do português-padrão de Lisboa, adoptando gírias, neologizações, tipicismos e outros recursos, também sintácticos, orais e tradicionais africanos, para construir uma língua literária propícia ao imediato reconhecimento da sua diferença, tal como assinalou acertadamente o professor José Luís Pires Laranjeira na sua obra Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Vol. 64, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p.121).

A sua obra divide-se em duas fases: a primeira, que agrega as estórias escritas até 1962, ou seja, todas as incluídas em Vidas novas, e que ainda se mantêm nos limites do discurso relativamente clássico, não demasiado afastado em relação à norma do português europeu e do modo narrativo conforme com o modelo do conto curto à Maupassant; a segunda fase, com a duração de dez anos, inaugurada pela escrita de Luuanda, tenderá progressivamente para a destruição da pacatez de leitura, disseminando marcas de angolanização da língua portuguesa.

Tal como Guimarães Rosa, começou a usar a designação de estória para as suas narrativas, mais longas que o conto e menos desenvolvidas que a novela ou o romance. A estória é, portanto, diferente da história: misto de mussosso (plural: missosso), fábula ou narrativa moral africana, tradicional, e pequena epopeia popular à moda do grande mestre brasileiro de Minas Gerais. Esse texto luandino caracteriza-se, na sua génese, por surgir num espaço de criação de uma linguagem nova, que parte da apropriação da língua já codificada e estabilizada socialmente (isto é, normatizada pelo uso erudito do colonizador), para desconstruí-la, por vezes ao nível minucioso da fonologia, num trabalho de Sísifo contra a montanha intransponível. A língua literária luandina surge assim na interseção da língua natural portuguesa com a língua natural quimbunda, fornecendo aquela sobretudo o espaço lexical e a estrutura básica, interferindo esta nalguns pontos da sintaxe, introduzindo-se vocábulos crioulizados, aquimbundados, do quimbundo ou mesmo neologismos, além de certas nuances (circunlóquios, tautologias, etc.) prolongarem a oralidade gramatical e expressiva do português.
Luandino Vieira destacou também pelas suas colaborações jornalísticas, publicando artigos e depoimentos em publicações como Mensagem, da casa dos estudantes do Império de Lisboa, nos anos 1950, 1961 e 1963; em O Estudante de Luanda em 1961; em Cultura de Luanda no mesmo ano; no Boletim Cultural de Huambo de Lisboa em 1958; no Jornal de Angola de Luanda, de 1961 a 1963; no Jornal do Corgo de Carmona em 1962; na Vértice de Coimbra em 1973 e, no mesmo ano no Jornal de Luanda.
Nota: Para obter mais informações sobre a vida e a obra de Luandino Vieira é interessante consultar as informações que aparecem aqui, esta entrevista no Público, e também kapulana.com, infopedia, ueangola, no site de antoniomiranda.com, aqui  e em pambazuka.org.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0. Documentários: Um livro de Luandino Vieira, por José Luís Pires Laranjeira.
e Entrevista a Luandino Vieira.
Duração total dos 2: 10 minutos. Anos 2013 e 2014.
Ver aqui.

1. Leituras: José Luandino Vieira: seu livro João Vêncio: os seus amores.(1968).
Duração: 16 minutos. Ano 2014.

2. A escrita reinventada por Luandino Vieira.
Duração: 5 minutos. Ano 2006. Produtora: RTP (autor: Álvaro Manuel Machado, 1978).
Ver aqui.

3.-Luandino Vieira, escritor africano.
Duração: 8 minutos. Ano 2016.

4.-Luuanda, de José Luandino Vieira.
Duração: 7 minutos. Ano 2017.

5.-Leituras de Luandino Vieira.
Duração: 14 minutos. Ano 2017. Série documental para a TV angolana.

6.-A história da galinha e do ovo (um conto africano de Luandino Vieira).
Duração: 13 minutos. Ano 2014.

7.-Entrevista sobre José Luandino Vieira.
Duração: 7 minutos. Ano 2017.

8.-Luandino Vieira aos papéis com a prisão dos outros.
Duração: 6 minutos. Ano 2015.

9.-A vida verdadeira de Domingos Xavier Luandino Vieira.
Duração: 67 minutos. Ano 2020.

A SUA OBRA LITERÁRIA

a.Contos:
-A cidade e a infância (1957 e 1986).
-Duas histórias de pequenos burgueses (1961).
-Luuanda (1963 e 2004).
-Vidas novas (1968 e 1997).
-Velhas histórias (1974 e 2006).
-No antigamente, na vida (1974 e 2005).
-Macandumba (1978 e 2005).
-Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto e eu (1981 e 1989).
-História da baciazinha de Quitaba (1986).
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b.Romances:
-A vida verdadeira de Domingos Xavier (1961 e 2003).
-João Vêncio. Os seus amores (1979 e 2004).
-Nosso Musseque (2003).
-Nós, os do Makulusu (1974 e 2004).
-O livro dos rios (2006).
-O livro dos guerrilheiros (2012).

c.Literatura Infanto-Juvenil:
-Kapapa: pássaros e peixes (1998).
-À espera do luar (1998).
-A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nubens. Guerra para crianças (2006).

d.Memórias:
-Papéis da prisão (2015).

e.-Tradução:
-A Laranja Mecánica, de Anthony Burgess (1973).

OUTROS LITERATOS OPINAM SOBRE A OBRA DE LUANDINO VIEIRA

jose-luandino-vieira-foto-apresentando-um-livro1.-José Saramago: “A sua obra, importantíssima, foi precursora da literatura angolana e tem raízes na terra e na cultura do país”.

2.-Lídia Jorge: “Luandino Vieira é também um marco revolucionário pelo movimento que criou em Portugal a favor da liberdade de expressão”.

3.-José Eduardo Agualusa: “Luandino Vieira é um nome tão grande da literatura em língua portuguesa que a sua distinção já há muitos anos era esperada”. “A sua obra tem um enorme valor, e este prémio é um reconhecimento da dinâmica das literaturas africanas e do vigor da Língua Portuguesa em África”.

4.-Eduardo Lourenço: “Luandino é um autor que conta na literatura de língua portuguesa e porque foi a certa altura quase um símbolo de rebelião”.

5.-Arlindo Isabel: “Luandino Vieira dedicou toda a sua vida ao povo angolano, expressando, através dos seus escritos, o sofrimento e as alegrias do povo”.

UM DOS SEUS POEMAS (escrito em 1957)

Canção para Luanda:
A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
– Luanda onde está?
Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos
– Xê
mana Rosa peixeira
– Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!
“Ola almoço, ola amoçoéé
matona calapau
ji ferrera ji ferrerééé”
– E você
mana Maria quitandeira
vendendo maboque
os seios-maboque
gritando
saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
“maboque m’boquinha boa
dóce dócinha”
– Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!
Zefa mulata
o corpo vendido
batom nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo seu corpo
– seu corpo-cubata!
Seu corpo vendidojose-luandino-vieira-foto-por-companhia-das-letras
viajado
de noite e de dia.
– Luanda onde está?
Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
– precisa comer!
– Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casas antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
trator derrubou?
Meninos nas ruas
caçambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
– Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
– Luanda onde está?
Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
– os panos pintados
garridos
caídos
mostraram o coração.
– Luanda está aqui!

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Visionamos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema fórum, para analisar o fundo (mensagem) deles, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a José Luandino Vieira, importante escritor angolano e também tradutor. Nela, além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro Fórum, em que intervenham alunos e docentes. De entre os seus livros podemos escolher para ler por todos Luuanda (1ª ed.: 1963 e 2ª ed.: 2004), Velhas histórias (1974 e 2006) ou A cidade e a infância (1957 e 1986).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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