José Leitão de Barros, importante cineasta de Portugal



jose-leitao-de-barros-foto-da-wikipediaQuero recuperar para a minha série de grandes vultos da Lusofonia aqueles que, especialmente no Brasil e em Portugal, se dedicaram à sétima arte do cinema, e que chegaram a ter uma destacada filmografia que ficou para a posteridade, para desfrutar das imagens dos seus filmes. É por isto que, dedico o presente depoimento a um muito popular cineasta português. Estou a referir-me a José Leitão de Barros (1896-1967). Este artigo dedicado a ele faz o número 69 da série que estou a escrever sobre os grandes vultos da Lusofonia, e o 181 da série de grandes vultos da humanidade iniciada no seu dia com Sócrates, o grande educador grego da antiguidade.

A SUA BIOGRAFIA

De nome completo José Júlio Marques Leitão de Barros, nasceu a 22 de outubro de 1896 em  Lisboa (Santa Isabel) e faleceu na mesma cidade no lugar de São Mamede em 29 de junho de 1967. Foi professor, cineasta, jornalista, dramaturgo e até pintor, campo em que se distinguiu dos da sua geração pelo sentido estético das suas obras e por antecipar, sem bases teóricas, todo um movimento cinematográfico que se dedicou à prática da denominada antropologia visual. É o autor da primeira docuficção portuguesa e segunda etnoficção mundial na história do cinema, tal como em 1930 assinalou Maria do Mar, tendo sido em 1926 o filme Moana de Robert Flaherty a primeira.

Foi professor, cineasta, jornalista, dramaturgo e até pintor, campo em que se distinguiu dos da sua geração pelo sentido estético das suas obras e por antecipar, sem bases teóricas, todo um movimento cinematográfico que se dedicou à prática da denominada antropologia visual.

Filho de Joaquim José de Barros, militar, primeiro-tenente da Armada, do Porto, e da sua mulher, D. Júlia Amélia Marques Leitão, de Lisboa. O seu irmão Carlos Joaquim Marques Leitão de Barros foi também tenente, Cavaleiro e Oficial da Ordem Militar de Avis e Oficial da Ordem de Benemerência, e a sua irmã Teresa Emília Marques Leitão de Barros foi Dama da Ordem Militar de Santiago da Espada.
Frequentou a Faculdade de Ciências e também a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Depois de concluir um curso da Escola Normal Superior de Lisboa, foi professor do ensino secundário (desenho e matemática). Tirou também o curso de Arquitetura na Escola de Belas-Artes. Expôs várias obras de pintura em museus portugueses, em Espanha, no Museu de Arte Contemporânea de Madrid e ainda no Brasil.
jose-leitao-de-barros-fotograma-do-filme-camoesCasou em Oeiras, a 17 de agosto de 1923, com Helena Roque Gameiro, artista plástica e filha do aguarelista Alfredo Roque Gameiro, com quem teve dois filhos, José Manuel e Maria Helena.
Como dramaturgo, peças suas subiram à cena em Lisboa, no Teatro Nacional e noutras salas. Como cenógrafo, responsabilizou-se pela montagem de muitas peças. Como jornalista, dirigiu a revista Notícias Ilustrado (1928-1935) e colaborou, por exemplo, nos jornais O Século, A Capital, e ABC, na revista Contemporânea (1915-1926). Fundou e dirigiu O Domingo Ilustrado (1925-1927), e Século Ilustrado. O seu nome consta da lista de colaboradores da revista de cinema Movimento (1933-1934) e também no Boletim do Sindicato Nacional dos Jornalistas (1941-1945). Foi o principal animador da construção dos estúdios da Tobis Portuguesa, concluídos em 1933 em conjunto com a qual realizou mais tarde, em 1966, o filme “A Ponte Salazar sobre o Rio Tejo em Portugal”.
Celebrizado pela sua carreira cinematográfica, Leitão de Barros deixou também marcas duradouras no jornalismo português. Em 1938, foi protagonista de uma longa entrevista à rainha Dona Amélia em Paris, publicada nas páginas de O Século e O Século Ilustrado. A peça terá sido um instrumento de propaganda para aproximar a rainha viúva do Estado Novo e a monarca aproveitou a oportunidade para gavar algumas das obras do salazarismo. Anos antes, em 1932, quando ainda trabalhava no Notícias Ilustrado, Leitão de Barros protagonizou outro caso célebre, dando cobertura à alegação infantil de que um sósia de António Oliveira Salazar estava representado nos Painéis de São Vicente. A informação foi relatada entusiasticamente pelo suplemento do Diário de Notícias, conferindo uma aura providencial ao ditador. Organizou, a partir de 1934, vários cortejos históricos e marchas populares das Festas da Cidade, atividade que regularmente manteve durante a década seguinte. Foi secretário-geral da Exposição do Mundo Português e responsável pela organização da ‘’Feira Popular’’ de Lisboa em 1943. Foi diretor da Sociedade Nacional de Belas-Artes.jose-leitao-de-barros-foto-do-locus-cinemae
Interessou-se entretanto pelo cinema: Malmequer e Mal de Espanha, em 1918, foram os seus primeiros filmes. Neles se salientam duas tendências: a evocação histórica dos temas e a crónica anedótica. Assimilou, por influência de Rino Lupo, o conceito de filme pictórico, desenvolvido por Louis Feuillade, o do Film Esthétique, e depois algumas das ideias formais do cinema soviético teorizadas por S. M. Eisenstein. Com o documentário Nazaré, realizado em 1927, retomando um tema já explorado pelo francês Roger Lion em 1923, registou aspectos de rude beleza plástica e de aguda observação humana, tal como no filme Lisboa, Crónica Anedótica de uma Capital, realizado em 1930, em que misturou atores conhecidos com a gente da rua, antecipando assim tendências modernas. No mesmo ano, rodou ainda na Nazaré a Maria do Mar. Depois, em 1931, filmou A Severa, o primeiro filme sonoro português. Alá Arriba!, em 1942, escrito por Alfredo Cortês, apresentava os pescadores da Póvoa de Varzim com uma força dramática pouco vulgar. A Bienal de Veneza deu-lhe um dos seus prémios. Seria, a partir dos anos sessenta, um dos cineastas preferidos do regime. Publicou também Elementos de História de Arte e, em livro, Os Corvos (crónicas publicadas no jornal Diário de Notícias).

Seria, a partir dos anos sessenta, um dos cineastas preferidos do regime. Em 1935 foi feito Comendador da Ordem Militar de Santiago da espada e em 1941 Grande-Oficial da Ordem Militar de Cristo.

A 4 de setembro de 1935 foi feito Comendador da Ordem Militar de Santiago da espada e a 4 de março de 1941 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Cristo.
Uma vasta obra e fervilhantes décadas de produção marcaram a vida deste homem, desde a aquarela ao cinema, passando pelo ensino e a arquitetura. Aos 70 anos, viria a falecer de um tumor retroperitoneal, na sua cidade, em 1967, estando sepultado no Cemitério dos Prazeres.
Nota: É interessante a leitura e consulta dos depoimentos sobre a vida e obra de Leitão de Barros, entrando nas seguintes ligações: infopedia.pt, sapo.pt, expresso.pt,
este artigo do professor da Universidade de Compostela José M.ª Folgar de la Calle sobre o filme Inês de Castro, aqui dados sobre o filme Inês de Castro, e aqui dados do filme Camões.

FICHAS DOS FILMES

0.-O Homem dos Olhos Tortos.
Duração: 93 minutos. Ano 1918. Edição vídeo em 2020.

1.-Lisbôa. Crónica anedótica.
Duração: 88 minutos. Ano 1930. Edição vídeo em 2011.

2.-Maria do Mar.
Duração: 78 minutos. Ano 1930.

3.-A Severa.
Duração: 114 minutos. Ano 1931. Edição vídeo em 2013.

4.-Alá-Arriba! (fragmento).
Duração: 5 minutos. Ano 1942. Edição vídeo em 2017.

5.-Inês de Castro.
Duração: 98 minutos. Ano 1944. Edição vídeo em 2019.

6.-Camões.
Duração: 111 minutos. Ano 1946. Edição vídeo em 2014.

7.-Vendaval Maravilhoso.
Duração: 139 minutos. Ano 1949. ediçãovídeo em 2020.

FILMOGRAFIA BÁSICA

José Leitão de Barros chegou a realizar entre 1918 e 1966 uns 26 filmes. A listagem dos mesmos é a seguinte:
1.-Mal de Espanha (1918).
2.-O Homem dos Olhos Tortos (1918) (inacabado).
3.-Malmequer (1918).
4.-Sidónio Pais-Proclamação do Presidente da República (1918).
5.-Nazaré, Praia de Pescadores (1929).
6.-Festas da Cúria (1927).
7.-Lisboa (1930).
8.-Maria do Mar (1930).
9.-A Severa (1931).
10.-As Pupilas do Senhor Reitor (1935).
11.-Bocage (1936).
12.-As Três Grácias (1936).
13.-Maria Papoila (1937).
14.-Legião Portuguesa (1937).
15.-Mocidade Portuguesa (1937).
16.-Varanda dos Rouxinóis (1939).
17.-A Pesca do Atum (1939).
18.-Alá-Arriba! (1942).
19.-A Póvoa de Varzim (1942).
20.-Inês de Castro (1944).
21.-Camões (1946).
22.-Vendaval Maravilhoso (1949).
23.-Comemorações Henriquinas (1960).
24.-A Ponte da Arrábida sobre o Rio Douro (1961).
25.-Escolas de Portugal (1962).
26.-A Ponte Salazar sobre o Rio Tejo (1966).

INÊS DE CASTRO, RAINHA GALEGA QUE REINOU DEPOIS DE MORRER

jose-leitao-de-barros-cartaz-do-filme-ines-de-castroPara galegos e galegas é muito interessante o filme realizado em 1944 por Leitão de Barros, intitulado Inês de Castro, em que se apresenta uma galega, pela qual se apaixonou o rei Pedro I de Portugal, tema que trouxe ao monarca numerosos problemas com a sua família. O sepulcro de ambos, Pedro e Inês, está no mosteiro cisterciense de Alcobaça, uma linda localidade portuguesa, que vale muito a pena visitar se se viaja ao vizinho país, e de passagem podemos conhecer algo da nossa história, e lembrar a famosa frase que ficou para a posteridade “Inês de Castro, rainha galega que reinou depois de morrer”.

Os dados deste filme são os seguintes:
Título original: Inês de Castro.
Realizador: José Leitão de Barros (Espanha-Portugal, 1944, 92 minutos, branco e preto).
Ajudante de realização: Manuel Augusto Garcia Viñolas.
Roteiro: Poema de Afonso Lopes Vieira, segundo uma história de Ricardo del Mazo.
Música: José Muñoz Molleda.
Fotografia: Heinrich Gärtner.
Produtora: Faro Produções Cinematográficas e Filmes Lumiar (Madrid e Lisboa).
Intérpretes: Alicia Palacios (Inês de Castro), António Vilar (Pedro I de Portugal), M.ª Dolores Pradera (Constança), Gregorio Beorlegui (Pedro Coelho), Raul Carvalho (Diego Lopes Pacheco), Antonia Planas (Lorença), Ramón Martorí (Álvaro Castro), Antonio Casas (Fernando Castro), Juan Villaret (Martim, o bobo), Alfredo Ruas (Álvares Gonçalves), Erico Braga (Afonso IV), Ricardo Mazo (Ayres), Aníbal Vela (um nobre) e Concha López Silva (Dona Segunda).
Argumento: Para estabelecer uma aliança entre Portugal e Castela, é promovido o casamento entre o infante Pedro, futuro rei Pedro I de Portugal (filho e herdeiro de Afonso IV, rei português), e Constança Manuel, ex rainha consorte de Castela. No seu deslocamento a Portugal, Constança leva de dama de companhia a galega Inês de Castro, pertencente a uma poderosa e importante família da Galiza, aparentada com os primeiros reis de Castela. Pela formosura de Inês, Pedro apaixona-se por ela, que até termina por ser madrinha do único filho do casal, e surpreende-se por causa da paixão de Pedro. Ambos chegam a amar-se profundamente e os conselheiros e nobres da corte obrigam ao rei Afonso a separar aquela mulher do seu filho, que acaba por ser enclausurada num convento contra a vontade de Pedro. Constança falece e Pedro une-se a Inês, com quem vive um escândalo público e tem com ela três filhos. Os cortesãos protestam perante o rei por estes amores, e conseguem a sentença de morte de Inês, a quem eles mesmos dão morte. Ao subir Pedro ao trono, vai à procura dos cortesãos assassinos e condena-os à morte, desenterra o cadáver de Inês, senta-o no trono e proclama-a rainha de Portugal, assegurando que casou com ela em vida, tema que manteve em secreto. Obriga a toda a corte desfilar perante o cadáver da sua amada, com umas honras fúnebres cheias de dignidade, colocando o seu corpo no sepulcro que mandou construir no mosteiro de Alcobaça, onde também foi ele soterrado faz agora uns 684 anos.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Visualizamos os filmes citados antes, e depois desenvolvemos um cinema fórum, para analisar o fundo (mensagem) deles, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a José Leitão de Barros, importante cineasta português. Nela, além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, vídeos, DVDs e monografias.
Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino um Ciclo Cinematográfico, escolhendo para projetar (com apresentação inicial de cada um e colóquio posterior entre os alunos e docentes espectadores) aqueles filmes mais interessantes de Leitão de Barros. Entre eles não devem faltar os seguintes: As pupilas do Senhor Reitor (1935), Bocage (1936), Alá-Arriba! (1942), Inês de Castro (1944), Camões (1946), Vendaval Maravilhoso (1949) e Escolas de Portugal (1962).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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