para assembleia do dia 30/11/2019 e como reflexão
Que se fale de binormativismo e de defender o binormativismo na Galiza, como avanço, acho que é algo muito positivo. Não só isso; no ano de 2007, a candidatura que eu presidia para o Conselho da AGAL levava no seu programa uma referência a isso, que enquadrávamos no que se chamava ganharmos a centralidade social.
Eis um excerto do programa, onde isso aparecia
Combater a discriminaçom do reintegracionismo, aumentando a consciência da necessidade de assumir socialmente a “liberdade normativa individual” e o rejeitamento à discriminaçom por razom de ortografia ou norma lingüística, como um factor negativo para a normalizaçom da língua, numha sociedade que iria assi cara a um certo binormativismo, na medida em que a presença do reintegracionismo fosse maior.
Então, porque critico a campanha binormativista vigorante da AGAL.
Não a crítico por fazer referência ao binormativismo. Nem polos sete pontos da proposta binormativista, que é perfeitamente inteligível no presente que vivemos
PROPOSTAS BINORMATIVISTAS POLO NOVO CONSENSO
1. A Ortografia Galega Moderna Confluente com o Português no Mundo (Através Editora, 2017) recolhe as diferentes normas ortográficas defendidas polo reintegracionismo que reivindica a AGAL para o galego internacional (ou português da Galiza).
2. A coexistência de duas opções gráficas na Galiza, a reintegracionista referida no parágrafo anterior e a autonomista defendida pola Real Academia Galega, é fruto de umha realidade social complexa. A AGAL propõe dar estatuto legal a ambas as propostas normativas, criando um novo consenso ao redor de dinâmicas comuns em prol da língua benéficas para a sociedade.
3. A AGAL propõe modificar o currículo de Língua Galega e Literatura no ensino Primário, Secundário e no Bacharelato para assegurar a competência básica em simultâneo nas duas normas.
4. A AGAL defende estender a todos os centros de ensino as matérias de “língua estrangeira portuguesa” para reforçar a aprendizagem do nosso idioma.
5. A AGAL propõe que se reconheça o direito das/dos cidadã(o)s a utilizarem o galego com os poderes públicos, independentemente da norma gráfica, assim como o direito das/dos funcionárias/os públicas/os a usarem a norma que desejarem desde que também seja respeitado o direito das/dos cidadã(o)s a serem informados num modelo conhecido de língua.
6. A AGAL pensa que deve fomentar-se o uso de duas versões (galego RAG e galego internacional ou português) em sites emanados das instituições, indo além de casos pontuais como acontece na atualidade (DOGA, página web de turismo da Xunta, etc.).
7. A AGAL julga positivo o reconhecimento da realidade editorial e cultural galega de maneira a que o uso da norma confluente com o português tenha possibilidade de aceder em igualdade às verbas orçamentárias destinadas a promover a língua.
Critico-a por uma razão mais profunda. Por toda a parafernália que a acompanha, que está dando lugar a uns desenvolvimentos onde se diz que todo o que se faz por todo o lado é muito bom; tanto tem que isso seja a partir do isolacionismo mais ferrenho… Pois tudo soma para o galego. Eis uma mostra: Eduardo Maragoto explicando que não é contrário à normativa “oficial” (Tantas luitas e impugnações que provocou esse “oficial” batoteiro por parte do reintegracionismo!), e à qual acha mesmo muitas bondades.
No ano de 1983, o sociolinguista Lluís Aracil estava convidado pola Junta de Galiza a umas jornadas sobre normalização. O jornal La Voz de Galicia aproveitou para o entrevistar e a pergunta que lhe faziam era sobre qual era o futuro do galego e como via o projeto de normalização linguística.
Ele respondeu categórico: “O futuro do galego é o mesmo que o do analfabetismo, desaparecer.” Dizia:
– Vocês na Galiza desenvolvem uma política que está destinada à desaparição da língua, de jeito estupefaciente, fazendo que se faz, mas todo o desenho está feito para desaparecer o galego, partindo do modelo de língua afastado das variantes vivas internacionais e submetido à língua que se pretende substituir (o castelhano), nos espaços alargados que ela ocupa (normalização) […] – Venho de ver que há muitas pessoas trabalhando e vivendo de que isso seja um sucesso. Se a isso se somam os processos a que cedo assistiremos de mudança da sociedade tradicional para uma sociedade urbana, o sucesso está mais que garantido, para o objetivo que percebo.
Eis um jeito bem bom de explicar a situação sociolinguisticamente falando por Lluís Aracil, pondo os pontos fulcrais, bem esclarecidos, no discurso da língua. Leia-se o primeiro artigo da revista Agália número 17, o Questionário de História contemporánea, por Lluís V. Aracil.
No PGL tem-se convidado a participar, no quadro desta campanha, a vultos do isolacionismo e sempre acabamos achando a mesma melodia. Por exemplo, na excelente entrevista a Vítor Freixanes, pois fica claro que todo o modelo institucional da língua continua no programa estupefaciente de substituição de língua, no qual o devalo do número de falantes, unido à perda da transmissão intergeracional, faz com que o anúncio da voz de um especialista como Lluís Aracil se esteja a cumprir inexoravelmente.
Todo o modelo de língua “oficial” é um construto paralelo e submetido ao castelhano, um verdadeiro canto ao castelhano; de facto, grande parte do que se vende como galego já é castelhano dialetal “em galego”. Como dizia Carvalho Calero: Ou o galego é galego-portuguès ou é galego-castelhano.
E o chamado galego-castelhano é uma alavanca de enorme poder estupefaciente para o apagamento da língua neste país, e a outra cara da moeda (a cara ou a coroa) do programa de apagamento como povo, e de substituição linguística.
Lluís Aracil olhava o modelo de língua como alavanca fulcral do processo, para irmos para um lado ou para outro.
O programa de substituição vai enxergado um modelo de língua regional e dependente e não é por acaso. O reintegracionismo sempre acusou o modelo impulsionado a partir das instituições do Estado (Castela/Espanha) como fulcral para o nosso esmagamento e apagamento… E além do que pudéssemos dizer está a realidade dura em que vivemos para abrirmos os olhos.
Na Galiza vivemos por uma banda a substituição da língua, certificada na perda da transmissão intergeracional; e por outro a perda de língua; quer dizer, a degradação desta nos falantes. Na realidade, qualquer cousa pode ser galego, sempre que for castelhano. O castelhano vai enchendo os valeiros da perda de língua, o que na realidade significa que o valor dela tende a zero: ninguém a sério quer um modelo degredado e inseguro para os seus filhos. Quando a língua não fala do falante e ela não vale nada, se tanto tem ser um Tonechu ou um Quiroga, é que a cousa pinta realmente mal. O modelo de língua na escola, ou como fazer castelhano em galego, é fulcral na degradação e tem os alicerces no modelo de língua fácil que defendia Filgueira Valverde. As normas facilitam esse modelo que Constantino governou mantendo o leme firme para o castelhano. Lembremos o que afirmou Antom Vilar Ponte, um dos fundadores e primeiro impulsionador das Irmandades da Fala: “Quanto mais galego for o galego, mais português ele é.”
Porém, o desenvolvimento do programa do binormativismo leva-nos a um beco sem saída, tipicamente galego: Deus é bom e o demo não é mau. Todos achegam cousas, todos são bem intencionados, respeitemos-nos. No entanto, quando o reintegracionismo tirou algum direito (civil) aos isolacionistas ou os expulsamos fora de algo? Quando? NUNCA.
No outro dia um professor antirreintegracionista beligerante dizia-me que achava ótima a proposta. Porém, se os reconhecemos (como honrados e monteagudos trabalhadores em prol do galego), se reconhecemos que é absolutamente legítima e digna a sua proposta, que também faz sentido para o galego… Que sentido tem propor mudar nada?
Que sentido tem o próprio reintegracionismo se tudo afinal é simples reconhecimento de que possa existir o português no ensino como “língua estrangeira” e se nós aceitamos a legitimidade e bondade de todos os extremos da política linguística a que Espanha nos submete?
