Víctor Freixanes: “Carvalho Calero é a crónica do galeguismo do século XX”



A grande massa de betão da igreja paroquial de São João Evangelista vai dando as horas na manhã soalheira duma sexta-feira de julho. Víctor Freixanes (Ponte Vedra, 1951), presidente da Real Academia Galega, espera no seu escritório da faculdade de Ciências da Comunicação, onde leciona para novas promoções de jornalistas como professor de Indústrias Culturais e Criativas. Papéis, telefonemas e uma apressada agenda respiram durante uns instantes para receber o Portal Galego da Língua e dedicar-nos uma conversa sobre as Letras Galegas, o futuro do idioma, os afetos dum país.

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Carvalho Calero acabou de ser escolhido como figura homenageada para as Letras Galegas de 2020. Esta era uma reivindacação contínua de diversos movimentos sociais que, anos depois, é satisfeita. Como avalias esta resolução por parte da Academia?

Há tempo que a Academia é ciente de que a figura de Carvalho Calero não podia ser adiada nem marginalizada. Não deixa de ser uma injustiça histórica que não se reconheça o compromisso, o trabalho e a vida que este homem dedicou à cultura, à literatura, à língua galega… Mesmo com obras como a História da Literatura ou como a sua própria significação como primeiro catedrático de Língua e Literatura Galega na USC em 1972. Foi professor de muitos de nós, a mim leccionou-me Língua e Literatura Galegas… É certo que havia uma história detrás de desencontros, digamos assim, entre uns setores da Academia e o próprio Carvalho Calero e as suas posições arredor da língua na última etapa da sua vida. Eu acho que a nova sensibilidade da Academia está em que isso é um capítulo que forma parte da história e da pluralidade democrática dum país. E, portanto, o currículo e a memória histórica de Carvalho Calero não a vamos discutir. Havia que encará-lo com clareza, com transparência, com naturalidade e, também, aproveitando, não o oculto, que esse ano se cumprem 110 anos do seu nascimento e 30 desde a sua morte. São esses números redondos que dão pé a dedicar-lhe o ano a Carvalho Calero, que ademais também coincide com a reclamação que fizemos já ao Concelho de Ferrol para que restaurem a sua casa, de quem já vimos boa disposição. É uma oportunidade, era algo que até eu tinha que assumir.

“A Academia é ciente, desde há tempo, de que a figura de Carvalho Calero não podia ser adiada nem marginalizada”

Foste aluno dele? Como era ele como professor?

Era um professor… distante. Assim o via eu. Distante… mas muito respeitoso. Tanto que era distante. Entendes? Não sei se também era tímido, porque essas cousas… nunca sabes. Nós éramos rapazes e ele era um senhor com toda a respeitabilidade detrás. Para mim, foi a primeira pessoa que me sistematiza o galego em chave língua culta, língua a estudar… Porque uma cousa é esse galego ventureiro, esse galego que todos temos de orelha de crianças… E mais no meu caso, que sou urbanita. Eu sou uma criança duma vila como Ponte Vedra, não sou um neno de aldeia como Neira Vilas e o seu Balbino. E muitos outros companheiros da minha turma como.. Dobarro, que vinha do Ferrol. Carvalho aí era uma pessoa que nos dava informação muito sistematizada. Tanto é assim que eu dediquei-lhe muito tempo a essa matéria porque ia descobrindo da sua mão as diferentes fases da nossa história e da nossa literatura. No fundo, acho que a literatura não deixa de ser outro jeito de contar a história dum país. Também nós dedicávamos muito esforço, porque era uma época em que estávamos muito sensibilizados pelo tema da identidade e da cultura da língua galega.

“Da mão de Carvalho descobri as diferentes fases da nossa história e da nossa literatura”

Não sei quando foram publicados os primeiros textos do Instituto da Língua Galega mas eu fui aluno de Carvalho no ano 1970 ou 1971, e trabalhávamos com a sua Gramática Elemental do Galego Común. Licenciei-me por volta de 1972 ou 1973 e lembro que na altura ele estava tirando a Cátedra em Madrid, e nós celebramos muito a cátedra porque era a primeira vez que havia esse reconhecimento oficial da língua galega: uma cátedra formal na universidade.

Então… Era um homem distante com os alunos e muito respeitoso com os alunos… E muito metódico também! Ele levava a matéria com uma precisão e um programa absolutamente previsível e documentado. Às vezes excessivo, porque eu lembro que nos examinávamos até das distintas edições de gramáticas ou dicionários galegos que havia ao longo da história. Também era o material que havia… Depois foi autor de várias cousas que eu editei e reeditei em Galáxia. Essa Prosa Galega 1, Prosa Galega 2, Prosa Galega 3… Que também era um jeito de recuperar, porque havia uma espécie de deformação da visão da literatura galega como muito poética. Rosalía de Castro, Curros Enríquez, Pondal… Ele ia por um caminho de recuperação dos primeiros textos, Fernández de Neira e cousas desse estilo. E a nós interessava-nos muito porque não sabíamos nada [ri]. Na altura a desinformação era total e ele era o único professor que nos orientava. Porque depois havia rapazes novos que se incorporavam nesse momento como Antón Santamarina, por exemplo, mas Santamarina era um rapaz que começava a leccionar aulas e nós fôramos os seus primeiros alunos. Ele leccionava Linguística Geral ou Gramática Histórica. Ramom Lourenço dava Crítica Literária, por exemplo.

“Havia uma deformação da visão da literatura galega como muito poética… E Carvalho procurava uma recuperação dos primeiros textos em prosa”

De facto, o outro dia fui ao Parlamento da Galiza para ver o material dele que há ali, de cara a fazermos alguma publicação de certa relevância e distinta. No Parlamento está toda a biblioteca particular de Carvalho: uma crónica muito bonita, porque a nossa biblioteca também é uma radiografia da nossa história. Em diferentes épocas da nossa vida, vemos que cousas nos interessavam e como íamos comprando livros… Eu às vezes paro diante da minha biblioteca, que é uma imensidade e uma espécie de armazém impresentável, mas posso ver fases: a etapa do marxismo-leninismo, a etapa do sindicalismo, a etapa do feminismo… São todas diferentes etapas que formam parte da nossa identidade. E com Carvalho igual, mas ele tem tudo muito organizado, muito limpo, todo o contrário à minha [ri]. Ali há muitos autógrafos dele, que eu saiba não há inéditos, e também há muita correspondência, que também há na [fundação] Penzol, porque Carvalho foi durante muitos anos o filólogo, o gramático e o linguista de Galáxia. Até que se produz o distanciamento, Carvalho Calero é Galáxia. Nas primeiras fotografias de Galáxia dos Conselhos de Administração, assembleias… Sempre aparece Carvalho. Há um livro editado por Galáxia, ademais, que eu recomendo, que é a correspondência entre Carvalho e Fernández del Riego.

“Até que se produz o distanciamento, Carvalho Calero é Galáxia”

De facto, em outras entrevistas oferecidas por antigos alunos ou discípulos de Carvalho, eles afirmam que esse distanciamento de Fernández del Riego foi uma questão que lhe causou grande dor.

Sim… Porém, vou dizer uma cousa. Não sei se foi um distanciamento. Seguramente o foi. Pronto, igual que agora. Estamos todos na mesma causa mas depois saltam faíscas. E houve faíscas históricas entre Isaac Díaz Pardo e Luís Seoane, que eram os dous criadores do Laboratório de Formas e de Sargadelos. E houve faíscas muito gordas. E isso forma parte um pouco da vida. Os amigos às vezes discutem… Porém, com Ricardo Carvalho Calero é muito curioso. A primeira vez na que há constância na Academia de que há uma proposta para que Carvalho Calero seja homenageado no Dia das Letras Galegas é em 2005, e a proposta de Jose Luís Franco Grande e Francisco Fernández del Riego. A segunda vez foi no ano seguinte, a proposta minha e de Francisco Fernández del Riego, que o propomos para debate numas reuniões prévias consultivas, antes de entrar em pleno. Antes não era como agora, que está muito mais regulamentado. Agora deve haver uma proposta documentada com méritos e ser assinada por, no mínimo, três académicos… Porém, quando eu entrei, havia propostas que eram feitas ali, ou alguma chegada de fora à qual alguém podia aderir… E depois fica constância nas actas e nos debates. Por isso o sabemos, porque não há nenhum outro documento.

“A primeira vez que Carvalho Calero é proposto na Academia para ser homenageado no Dia das Letras Galegas é no 2005, com Franco Grande e Fernández del Riego”

E essa proposta minha para dedicar as Letras a Carvalho foi por Fernández del Riego. E a de Franco Grande também. Paco del Riego pediu-nos a ambos. Ele ademais quase se enfadou comigo quando lhe disse: “Paco, olha, há que ter cuidado porque abrimos um melão”. Ele insistia muito no de Carvalho Calero. Dizia que não queria morrer sem ver Carvalho Calero como figura homenageada no Dia das Letras Galegas. E claro, eu dizia-lhe aquilo, não o oculto, porque eu na altura ademais era director de Galáxia.

Galaxia?

Vamos ver, Galaxia… Porque a Academia não tem certos problemas, mas uma editora sim. Em que ortografia publicamos a Carvalho? Claro, esse é um tema importante. Paco tirava importância e dizia que não fizéramos caso, que só fora uma última época, que foram caralhadas… E não, não, não são caralhadas. Afinal, da vida das pessoas, elas vão mudando de posição e isso não é uma caralhada. Portanto, nós temos que saber em que ortografia publicar Carvalho. E se publicamos Carvalho em ortografia reintegrada… abrimos um problema na escola. Quer dizer, abrimos um problema que igual não é grave ou igual sim. Nós temos que ser cientes do que fazemos. Não somos umas crianças nem uns irresponsáveis. E eu falava como diretor de Galáxia. Depois passou o tempo, reformei-me e agora há outro diretor. Agora, nós quando decidimos o de Carvaho, que a mim também me preocupava muito este tema, também lhe perguntei à família. E disse “olha, sem me meter na vossa vida… quero que saibais que há muitas editoras que vão fazer essa pergunta”. E Maria Vitória disse que isso era um problema das editoras, que eles não se iam meter aí, disse que as editoras podiam quer editar na norma oficial quer editar nas propostas ortográficas de Carvalho. E aí ficou.

“Fernández del Riego tirava importância à escolha ortográfica de Carvalho, dizia que só fora uma última época, mas não são parvadas. Na altura, se publicássemos a obra de Carvalho em reintegrado… abriríamos um problema na escola”

A família apoia que seja feito em reintegrado, não?

Sim, sim… Não se opõe, nem a uma, nem a outra. Nem que se faça na oficial, nem que se faça em reintegrado. E isso são decissões que deve tomar a própria editora. Se eu edito ScórpioScórpio está escrito originalmente numa ortografia que deve ser respeitada. Essa é a minha opinião, como editor. E estou a falar a nível particular. E se for a História da Literatura Galega… publicá-la na oficial. Depois há cousas de Carvalho que têm muito interesse e outras pelas que passou o tempo. Isso também forma parte da história.

Dizes que a primeira vez que foi proposto foi em 2005 por Franco Grande e Fernández del Riego, mas não foi até 2019 que foi para diante…

Bom, mas isso passou-lhe a muitos.

Que pensas que impediu em passados anos dedicar as Letras a Carvalho?

Bom, pois é que de fundo…

Haveria medo a ‘abrir esse melão’?

Claro, eu penso que sim, e depois também havia histórias pessoais, nas que não vou entrar porque cada um fala da feira como a viveu e como a sofreu. O próprio Carvalho também a sofreu. Ou seja, sempre que há um conflito há pelo menos dous ou três afetados. E isso estava aí. Há sensibilidades muito diferentes. O que acontece é que a Academia também vai mudando à medida em que se vai incorporando gente nova que tem, temos, outra perspetiva das cousas. E depois o tempo permite também abordar com muita mais tranquilidade cousas que foram vividas intensamente, porque tu és muito nova mas eu que vivi a guerra ortográfica há trinta anos… aquilo era um incêndio.

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Agora não vivemos isso?

Não. Vivíamos cousas nos institutos… patéticas. E há gente ferida dessa guerra. Quer dizer, houve gente que levou o que era uma discusão académica e intelectual às aulas. E então havia alunos que recebiam dum professor uma proposta ortográfica, na aula do lado o professor de galego leccionava outra… Na aula do lado, outra… Depois entre eles discutiam… E os alunos e alunas, que eram crianças de 14 anos, tomavam isso como se fosse brincadeira, e os pais… penso que era um problema de novatos.

Chamou muito a atenção que na notícia das Letras Galegas para 2020 o nome de Carvalho fosse escrito na normativa oficial, não com V e LH.

E entre parênteses pusemos o nome em reintegrado.

Depois.

Não, foi no primeiro momento, mas o sistema informático da Academia não permite introduzir parênteses [ri].

Aí têm um problema.

Não, bom, agora resolvemos isso: entre colchetes… E agora está corrigido.

Que destaca da sua figura e da sua obra? Quer a nível individual quer como presidente da Academia, como vai ser abordado o ideário linguístico de Carvalho?

Bem, vamos ver… A Academia tem dous momentos, além doutro tipo de atividades como são o Portal das Palabras ou a Primavera das Letras, que está pensado para escolas de primária a iniciativa dos professores. Destes dous momentos um é a celebração do Dia das Letras, com a intervenção formal dos académicos ao redor da figura de Carvalho. Então escolheremos três académicos que abordem a figura de Carvalho Calero desde diferentes perspetivas. E depois, em segundo lugar, haverá um simpósio académico onde haverá distintas vozes sobre a sua figura e onde todas as vozes que tenham algo que dizer, podam dizê-lo. Se têm que estar três dias, serão três dias, mas todo o mundo com uma posição documentada e consistente, terá espaço para poder dizê-lo com a madurez que permite hoje uma sociedade, incluso uma sociedade galego-falante, que pode abordar estes temas com uma tranquilidade, documentação e conhecimentos que não existiam há trinta anos.

“Todo o mundo com uma posição documentada e consistente terá espaço e voz no simpósio académico de Carvalho Calero”

Então isso também vai permitir que a figura de Carvalho Calero seja abordada dessa perspetiva, mas não é a única perspetiva de Carvalho. E isso também é importante. A Academia não aborda Carvaho Calero pelo tema da proposta ortográfica, senão que homenageia a sua figura histórica. Carvalho Calero é, de forma semelhante a António Fráguas, a crónica do galeguismo do século XX. Carvalho Calero viveu desde o período pré-Guerra Civil e República, porque é um homem muito comprometido com a República, o galeguismo do momento, o Seminário de Estudos Galegos e o Partido Galeguista… participa inclusive com Lois Tobio na redação do anteprojeto do Estatuto de Autonomia que promove o Seminário… Quer dizer, há uma série de atividades objetivas de Carvalho. E depois, na guerra, ele é uma vítima da repressão, com todas as consequências. É uma situação muito grave que eu penso que o afetou emocional e psicologicamente, afetaria a qualquer pessoa.

Depois, é um homem do que chamaríamos o exílio interior. Pratica um bocado -como aconteceu ao próprio Antonio Fraguas e Fernández del Riego- a clandestinidade. Ele viveu exercendo de professor às escondidas para manter a sua família. Foi uma situação muito dura. Teve a sorte de ser acolhido por António Fernández no [instituto] Fingoi, e aí está atuando já o grupo Galaxia, os que foram os fundadores de Galaxia. E ele não pode exercer como professor e é contratado como gerente! Ali chegaram também para serem professores pessoas como Ferrín ou o próprio Bernardino Graña. E nesse momento começa a trabalhar com Fernández del Riego –porque eram amigos íntimos– na História da Literatura Galega Contemporánea. E nesse livro de correspondência entre os dous é impressionante ver como trabalham, com que constância, com que método, com que teimosia… É um retrato dos dous, como procuram os livros, como os vão pedir… Claro, porque agora tudo está na Internet e há umas bibliotecas muito boas, mas daquela não havia nada. Encontrar um original de Proezas de Galicia de Fernández Neira ou encontrar uns documentos do que podia ser o galego patriótico da guerra contra os franceses, ou os primeiros textos em língua galega dos Precursores… Aí também estava Penzol, que estava comprando muito livro e dotando o que depois seria a partir de 1963 a biblioteca da Associação Penzol, e todos estavam aí puxando e construindo…

Ou seja, sou consciente de que Carvalho era o historiador da literatura e o gramático, porque foi a quem lhe encarregaram a Gramática do Galego Comum, de Galáxia, porque antes não havia nada, era uma seleção. E com esse material, Carvalho é quem nos dá aulas a nós na faculdade.

Além do trabalho académico sobre a literatura e a gramática, há trabalhos dele vigentes ainda agora, como as suas análises e diagnósticos sobre a situação sociolinguística do país.

Bom, eu penso que há muitas cousas, na minha visão pessoal, que o tempo passou por elas. Inclusive quanto ao critério literário, hoje seria abordado doutra maneira; mesmo a sensibilidade de Carvalho sobre diversos autores como Eduardo Blanco Amor é discutível, mas opinável, porque todo o mundo tem direito a ter uma opinião e isso não desmerece a sua figura… Ora, para mim, e agora falo a título pessoal e não como presidente da Academia, porque a Academia tem umas posições que são de todos e eu devo respeitar e defender… Para mim Carvalho abre um debate que é o da posição da língua galega na família histórica do que chamaríamos o romance hispánico occidental, que é Portugal e Galiza, Brasil… Este é um universo que acho uma riqueza, certamente.

Nós estivemos agora em Rio de Janeiro e fomos recebidos pelo presidente e toda a Academia de Letras, com Nélida Piñón… E ela disse uma frase muito bonita, disse “eu sou uma nena de aldeia, e uma nena de aldeia galega, e quando falava galego ali e logo quando cheguei à literatura portuguesa descobri a língua galega da minha infância, era como viajar pelas profundidades íntimas da língua portuguesa”. É uma história bonita, porque ali também saiu um tema no que insistimos muito, porque agora a filologia portuguesa com o tema do galego não acaba de entender que o português é filho daquele galego medieval. Então há uma corrente moderna filológica portuguesa que fala do português arcaico. Quer dizer, Mendinho, Pedro da Ponte, Bernardo Bonaval, Airas Nunes… escreveram em português arcaico. Que demo é o português arcaico!? Porquê? Porque não são capazes de reconhecer que a sua identidade linguística-nacional…

“Em Portugal não são capazes de reconhecer que o português é filho daquele galego medieval, têm um discurso obsoleto”

Claro, porque esse relato atenta contra o seu discurso nacional.

Sim, mas esse discurso nacional está obsoleto! Essa ideia de que nós somos uma nação… às vezes, as nações são construções históricas que podem ser alimentadas doutras muitas cousas. A Venezuela é uma nação, Argentina é uma nação… e falam uma língua vinda doutro sítio. Podiam falar outra cousa, podiam falar mapuche, sim, mas não falam mapuche. E os portugueses falam e desenvolveram aquela língua original. E nós, na nossa intervenção, insistimos muito em situar historicamente o galego nesse discurso. Os brasileiro entendem muito bem isto, mas entre os portugueses há de tudo… E o que não se conhece, não se ama. Então nós, para enfrentar estes temas, devemos criar espaços de relação, conhecimento e comunicação. Eu trouxe à Galiza pola primeira vez, quando dirigia o grupo Anaya, o Cardoso, Pepetela, Antunes… que nem sabiam que existia este país. Como é possível que a gente ainda pense que a Galiza é uma espécie de território perdido de quatro aldeias ao norte de Trás-os-Montes… Como é possível? Nós somos um país moderno, um país que faz cinema, que faz literatura e que faz música e que tem que estar situado na Europa do século XXI. Nós não somos um recanto folclórico nem uma reserva. Esse discurso é importante defende-lo com firmeza, e a partir de que se criem relações… depois a própria vida vai criando dinâmicas entre as pessoas, os grupos e os interesses que estão em jogo sempre na expressão duma coletividade.

Mas… que oferece Galiza para toda a Lusofonia?

Oferece na medida em que nós sejamos capazes de criar. A ti interessa-che um país ou uma cultura pela sua criatividade, pola capacidade que tem para fazer cousas que interessem. Uma boa cinematografia, uma boa literatura, uma boa ciência, umas boas artes plásticas e cénicas, uma boa música… Não por mudar o código linguístico mudamos o país. Essa é a minha opinião, porque para essas… também mudamos todos para o espanhol, e eu não estou por essas! O que temos que fazer é trabalhar em nós, e aprofundar em nós, e fazer com exigência um produto crítico –e com autocrítica– que seja competitivo nos espaços internacionais, e depois criar –e aqui estamos a falar de política– os circuitos de distribuição, de difusão, de informação, de indústria… para que esse produto seja conhecido no mundo.

Não por mudar o código linguístico mudamos o país.

Quando fui a Portugal com Manolo Lombao para falar com as televisões, para tentar convencer a RTP do Porto de poder estabelecer colaborações entre as televisões da Galiza e Portugal… não conseguimos. Eles no único que pensavam era em Madrid, Madrid e Madrid. O que queriam era falar com Madrid. Era uma conversa distendida com autoridades da RTP. E num momento dissemos “vamos ver, não podemos incorporar os companheiros de Brasil?”. Nesse momento ouvimos dizer: “O Brasil roubou-nos a língua”. Textual. E eu já disse: “Aqui há um problema psicológico muito fodido” [ri]. Quer dizer, a única forma de falar estas cousas é falar em pé de igualdade, e o único jeito de falar em pé de igualdade é ter um produto competitivo, moderno, exigente e capaz de despertar o interesse no mundo. E ter o país atrás de nós. O que não podemos, e este é um aspeto do problema, é construir uma fórmula de tubo de ensaio, uma língua de universidade ou e laboratório, por muito perfeita que pareça, e que depois o falante do Val Minhor, ou o falante da Terra Chã ou o falante de Bertamirães diga… Isso não tem nada a ver comigo.

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Nos anos 70, com os artigos de Rodrigues Lapa ou o manifesto dos 13 de Roma, Carvalho começou a mostrar mais atenção à proposta reintegracionista. Dizes que certas análises de Carvalho ficaram desatualizadas com a passagem do tempo mas…

[Interrompe] Não foi até os anos 80; nos anos 70, quando era o meu professor, nunca falava do tema nas aulas. Foi nos 80 quando mostra essa postura.

Quando começou o ostracismo.

Sim, bom… Houve discrepâncias com o grupo Galáxia, com o próprio Fernández del Riego, Ramón Piñeiro e gente da Academia.

Esta necessidade da que falas de projetar o galego para o exterior cumpre formulá-la também a partir de uma releitura da situação do galego, que mostra uns dados realmente alarmantes. São estes dados uma constatação do fracasso da política linguística das últimas décadas?

Sim, mas isso não é solucionado com um problema ortográfico. Não é um problema ortográfico.

Mas Carvalho, por exemplo, no seu Do galego e da Galiza já prognosticava estas questões…

Mas não só Carvalho! Alonso Montero no famoso Informe Dramático sobre a língua galega diz isso claramente.

Carvalho prognostica a situação que vivemos agora e propõe soluções para a crise linguística inserindo o galego no sistema linguístico da Lusofonia. Então, com isto em mente… o futuro da língua passa pela Lusofonia? Ou, como disse Castelao, a nossa língua floresce em Portugal?

Eu, como disse antes, penso que o futuro do galego passa pelo galego. Eu penso que o futuro do galego passa por uma Galiza moderna que crie produtos culturais e de todo o tipo que situem a Galiza como uma sociedade desenvolvida que despertem interesse. E que ademais as galegas e os galegos estejam participando desse discurso. Esse é um problema político que temos atualmente, porque não conseguimos construir um discurso motivador onde o país se reconheça. Na medida em que isso seja produzido, a Galiza vai adquirir peso específico próprio, porque isso também está em função das criações que tivermos, das que difundires e espalhares. Logicamente, eu sou partidário de abrir espaços de relação com essa família a que pertencemos.

“Um problema político que temos atualmente é que não podemos construir um discurso de ilussão onde o país se reconheça. Logicamente, eu sim sou partidário de abrir espaços de relação com essa família à que pertencemos “

Achas então que é uma estrategia acertada? Porque as instituições…

Que estratégia?

Reconhecer o princípio de irmandade com o português e fomentar…

Sim, sim, mas temos de ter o país atrás de nós, porque temos que explicar ao país a utilidade de tudo isso. E temos ademais que reconhecer que o país tem que se reconhecer nesse idioma, e o idioma de além Minho é uma língua irmã, mas não é a língua que estamos a falar agora.

“A única forma de falar em pé de igualdade com o resto do mundo é ter um produto competitivo, moderno, exigente… e ter o país atrás de nós. Não podemos construir uma língua de laboratório e que depois o falante de Bertamirães não se sinta representado”

Com estes dados de falantes na mão… Pensas sequer que o país se reconhece no galego?

Mas não é por um problema ortográfico! Não se reconhece no galego porque, e isso leva-nos a outra questão, há muita impostura no galego. As classes dirigentes e os setores dirigentes da sociedade galega predicam uma cousa e fazem outra. Eu não posso ir a determinado galego, que não vou dizer quem, e esse político com uma alta responsabilidade, sai do gabinete e com a sua secretária, com o seu chefe de gabinete… fala em castelhano. Isso a sociedade vê-o. Então isto é uma grande impostura, é uma representação. E nós temos que conseguir que a sociedade viva a língua e seja ciente da própria coerência das classes dirigentes também.

Esse “viver a língua” é muito abstrato; parece que interpelas a emocionalidade e…

Não, e também à utilidade económica e…

E a utilidade económica do galego passa pola Lusofonia?

Hum… Sim, sim ou não.

Uma das teses de Carvalho era que não seria possível convencer através da ligação emocional, mas com motivos práticos…

Não sei, não acredito nisso… Volto ao de antes, o galego é o galego, o galego não é o português. O galego não é o brasileiro nem é o angolano. Então, essa afirmação tem que partir de em que medida podemos nós assumir ou refletir sobre modificações. Bom, temos que valorar isto com a cabeça fria e saber a que nos arriscamos se introduzimos modificações desse tipo, que têm que ver com a indústria da cultura e da comunicação e, sobretudo, com a capacidade dos cidadãos e cidadãs para se reconhecerem nessas fórmulas. A mim assusta-me muito porque, igual que na política, trabalhamos num tubo de ensaio e pensamos que como nós somos muito inteligentes o resto das pessoas têm que dizer amém. E não, porque as pessoas vão por outro lado.

“O galego é o galego, o galego não é o português nem o brasileiro nem o angolano”

Carvalho Calero era sócio de honra da AGAL, que propõe o modelo binormativista. Qual é a tua impressão sobre esta proposta?

Eu penso que a fórmula binormativista não é acertada, porque uma língua é uma norma. E já sei que se fala do luxemburguês e do norueguês, que são dous casos muito específicos e penso que não têm que ver com o galego. Segundo, nós, sobretudo, para as escolas e o sistema educativo, para os contratos, a Administração pública, para os contratos, os notários e os tribunais… Isso temos que tê-lo muito claro, tem que haver uma única norma.

Antes falavas duma preocupação de tipo emocional, ligada com “viver a língua”, e agora expressas uma preocupação de carácter muito mais prático.

Não, não, sigo estando na questão prática!

Então, fazendo um exercício de imaginação, partindo duma hipótese… Se instaurássemos o binormativismo, qual achas que seria a melhor forma de instaurá-lo? Seria melhor aplicá-lo como segunda língua estrangeira através do português, dentro do próprio currículo de galego…?

Não, eu não estou pelo binormativismo. Não. Não. Estou por uma norma única e oficial.

Mas imagina…

Não, não, espera, porque eu isto já o falei. Eu sim estou porque o português entre no sistema educativo como uma referência… que saibam que existe uma língua irmã distinta que está muito próxima da nossa e que nos permite uma projeção também internacional, através dela, no sentido prático: o português. É o que digo eu, por exemplo, em relação à revista Grial. Em Grial temos duas línguas: o galego e o português.

Então estarias a favor de introduzir o português na educação, como dita a Lei Paz Andrade?

Sim, eu apoio a Lei Paz Andrade. O galego, na matéria de galego, e agora, se quereis estudar português, estudais português.

E introduzir a aprendizagem da ortografia portuguesa dentro do currículo de Língua e Literatura Galegas?

Eu estou de acordo com conhecer o português e estudar o português e que a gente descubra que a língua galega e a língua portuguesa são línguas irmãs e que com muito pouco esforço -que foi o meu discurso de entrada na Academia- tu podes incorporar-te a uns espaços linguísticos e culturais enormes, sem deixar de ser galegos.

“A língua galega e portuguesa são línguas irmãs, e com pouco esforço podes incorporar-te a uns espaços linguísticos e culturais enormes, sem deixar de ser galego”

Pelo que dizes… Achas que há um risco com a proposta reintegracionista ou com o binormativismo de perder identidade ou autonomia própria como galegos? É por isso que insistes em que ‘o galego é o galego’?

Sim. E ademais tem um custo que pode significar perder.

No teu discurso de entrada na Academia falavas das lendas populares da Trabe de Ouro e da “paxariña de Armenteira” como uma representação da tensão histórica perante a encruzilhada vital que a nova modernidade nos enfrenta. [A “paxariña de Armenteira” é exemplo da tentação de se deixar levar perante a insegurança de não saber, “melhor deixar as cousas como estão e não arriscar”, perante o risco, a preparação, o estudo e o conhecimento que exige a Trabe de Ouro.] No teu discurso falas de que “o futuro é um projeto em construção, implica vontade de querer construí-lo”. Continuar a insistir nesse modelo de ‘o galego é o galego’ não será a “paxariña de Armenteira”?

Não sei. Eu não faria essa comparação. Para centrar bem a minha posição, que é o que me interessa: o galego é o galego, e o galego são os falantes da língua galega, e os falantes de língua galega têm que se reconhecer no seu idioma, tanto no uso como no prestígio e na autoestima. A língua é um capítulo mais da capacidade de expressão e criação que tem um país no âmbito da economia, no âmbito da empresa, no âmbito da cultura, etcétera. Na medida em que este país se desenvolva e entre na modernidade, nos desafios do século XXI, este país vai ser capaz de gerar produtos que interessem no mundo. E isso é identidade própria. Nós não precisamos do castelhano para viajar pelo mundo nem precisamos de Lisboa para viajar pelo mundo. Entre outras cousas porque Lisboa não acaba de entender-nos nada bem, igual que Madrid. Brasil, repito, é outra história, há outra sensibilidade. Porque Lisboa e Madrid têm o complexo de império, não são capazes de superar que, claro, “roubam-nos a língua”. Vamos ver, vós não sois proprietários da língua. E os angolanos há tempo que se desentenderam desta visão, já nem aceitam os acordos.

Brasil tem melhor disposição mas ao mesmo tempo não precisa de mais ninguém. É tão imenso que, culturalmente, não precisa de importar nada.

Porque tem uma criatividade imensa. Há países imensos que não acabam de ter capacidade de entrar no mundo. É rico, mas há países muito ricos que estão mortos culturalmente falando. É um país formidável, com uma música e uma cultura impressionante… E para nós, no nosso imaginário coletivo, no da nossa geração, os portugueses eram os senhorinhos que vinham a Ponte Vedra com um chapéu preto, sentados nas escadas… E quando dizíamos que algo era uma ‘portuguesada’ já sabíamos a que se referiam, igual que quando eles diziam que algo era uma ‘galegada’… Até que aparece Vinícius de Moraes e até que aparece a bossa nova… E isso também é Portugal! Ou até que de repente o pai de Antonio Fraguas vai a Niterói (Brasil) trabalhar nos caminhos de ferro e descobre que a sua língua de Cotobade é útil, não o isola. Os imaginários vão mudando. E é nesse tipo de relações que vão mudando o imaginário coletivo que temos que trabalhar.

“Os imaginários vão mudando, como o pai de Antonio Fraguas quando vai trabalhar nos caminhos de ferro a Niterói e descobre que a sua língua de Cotobade é útil”

Agora, meter o binormativismo agora no sistema eu penso que seria, na minha opinião, pedagógica, estratégica e politicamente falando, um disparate. Bem-intencionado, mas um disparate.

Tens muita preocupação por como a gente identifica e interioriza a língua. Há também gente nova que está a dar o passo para o galego, mas não só, porque passam do castelhano para o galego reintegrado. Interiorizam a língua, e interiorizam-na inscrita na Lusofonia. Esta gente… como contas com esta gente nova na estratégia que defendes?

Que utilizem o português e que não abandonem o galego. Tenho um filho aí: o meu filho escreve como escreves tu.

Essa é a tua ideia?

A minha ideia é que não devemos viver acomplexados pelo castelhano nem viver acomplexados pelo português. Volto ao de antes, o galego é o galego, e o galego tem que construir, mesmo para, chegado o momento, poder modificá-lo, tem que construir a sua própria identidade, a partir da autoestima e a partir dum produto moderno, competitivo na criatividade. E depois de chegarmos aí, podemos abordar diferentes passos, porque isto não é eterno. As cousas não são assim para sempre. Se calhar, dentro de dez anos ou dentro de cinco anos estamos falando de que já podemos enfrentar mais cousas. Deixemos que o debate continue. E que possamos ter o debate como o estamos a ter eu e tu agora.

“As cousas não são assim para sempre. Se calhar dentro de dez anos ou cinco estamos a falar de que já podemos enfrentar mais cousas. Deixemos que o debate continue”

Porque é certo que eu também tenho as minhas inseguranças, e as minhas contradições, e eu também sou neofalante de certa forma. Falava-o com Otero Pedrayo quando o entrevistei para Uma dúzia de galegos. Perguntava-lhe por isto e ele disse ‘a modo, rapazes, porque aqui todos somos conversos’. Quer dizer, todos os que conformam o que chamaríamos o sector consciente na política cultural e inteletual galega… nalgum momento demos o passo. Nalgum momento tivemos que tomar posição porque a derivada levava-nos sempre a Madrid, sempre ao castelhano. E naquele momento, quando dás um passo, é o resultado também duma reflexão, duns meios e duns afetos, e também duma riqueza que vais partilhando e vais descobrindo… Neste caso é a música, a literatura, as artes, o cinema, mas também é a vida social, o desenho das marcas comerciais… Tudo isso vai criando uma atmosfera que permite dar o seguinte passo. Eu insisto: a língua galega não é uma língua local, é uma língua que está em condições de dialogar com outras línguas irmãs que nos abrem ao mundo, mas é o galego e tem de ter os falantes atrás. E os experimentos… cuidado com os experimentos.


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  • Ernesto V. Souza

    Interessante em quanto à narrativa do passado…

    Mas, no presente que falta de propostas, de sonhos, de projeto, de energia vital… e isso em gentes que foram e que são… que chegaram e triunfaram…

    Que panorama mais cinzento… e que futuro pode haver?… estacados como estamos nas trincheiras e com lama até a cabeça…

    Os que estão no comando… não vão ser líderes… e isso é preocupante…

  • Miro Moman

    O outro dia visitei o chamado Souto da Retorta. Porém, nesse souto já quase não há castanheiros. O que sim está é O Avó, o eucalipto mais grande da Europa. Sim, porque o o Souto da Retorta é hoje um eucaliptal conhecido também pelo mais coerente nome de Eucaliptal de Chavim.

    Acho que não faz falta explicar a metáfora, ou?

  • Joám Lopes Facal

    Diálogo im-possível de ponte a ponte tendido: o bi-normativismo em demanda de reconhecimento institucional dunha parte, o isolacionismo retroactivo, condenado pola comunicaçom digital incondicionada, de outro. A economia do idioma já elegeu vencedor, mesmo que a impassível torre institucional pretenda nom dar-se por inteirada.
    Num diálogo preliminar sem ponto de encontro à vista som bem-vindas atitudes dialogantes como as de Freixanes (obrigadas ainda a refugiarem-se em cautelosas fórmulas eufemísticas de responsabilidade persoal) como também a sólida e cortês interpelaçom de quem nom nos resignamos à degradaçom do galego a simples língua regional espanhola.
    Dous espantalhos gémeos a esconjurar: o de “o português arcaico” do ignaro nacionalismo lusitano devoto da fabulosa Sagrada Conceiçom Imaculada do português e o do “português da Galiza” que mal oculta o desprezo do galego herdado e sobrevivente, par reflexo do miraculoso “galego internacional”, seja isso o que for. Fora eufemismos defensivos!
    Da ciência e a consciência da RAG pouco podemos esperar a nom ser que o tempo vaia dissolvendo a resistente côdea retrocessiva que a oprime, manufacturada polos Menéndez Pidal e os Constantino Garcia. Queremos filólogos próprios agora que comemoramos a coragem filológica de Carvalho Calero.
    Afortunadamente aí vem um livro de Fernando Venâncio de título provocativo: “Nós os galegos” que explorará com a perícia e a contundência que lhe som próprias as origens do idioma comum que é outra maneira de se referir ao seu futuro. Atençom ao livro, as águas do charco vam ser agitadas para deixar fluir de novo o Minho partilhado como símbolo do galego nutrício que nos justifica.

    • Venâncio

      Caríssimo Joám,

      Prometi a mim próprio nunca mais escrever uma letra neste insigne Portal, depois de ter sido, no Facebook, publicamente enxovalhado pelo presidente da AGAL. Mas a imensa consideração que tenho por ti, mais a deficiente informação acerca do título do meu livro, obrigam-me a esquecer momentaneamente amarguras.

      «Nós os Galegos» foi o espampanante título que a redacção da revista LER escolheu para a entrevista que simpaticamente me fez. Como saberás, essa patetice da ‘galeguidade’ dos portugueses é-me visceralmente estranha. Sou um simples linguista, não sou um lírico. Mais te informo que, se alguém em Portugal alimenta tais desvairos de galeguidade, são os tipos da Extrema-Direita, aliás intelectuamente muito indigente.

      O meu livro, de cerca de 300 páginas, que sairá em Novembro na justamente famosa editora Guerra e Paz (que também edita o meu amigo Marco Neves), vai chamar-se Assim nasceu uma língua / Assi naceu ũa lingua. Sobre as origens do português. Será, como podes imaginar, antes de todo o mais, uma história… do galego.

      • Venâncio

        Joám, aproveito para felicitar-te efusivamente pelo teu parágrafo iniciado por «Dous espantalhos gémeos…». Merece ser encaixilhado a ouro.

      • Luis Trigo

        Meu caro Fernando Venâncio,

        não quero alimentar esta novela que, tal como Vítor Freixanes confirma, é uma crispação que perpassa toda esta discussão cultural galega. Até porque acho que já tive o meu papel negativo para essa novela, peço-lhe imensa desculpa. Por isso também gostava de poder contribuir para diminuir essa crispação.

        É difícil ser tão perentório relativamente à polaridade política do galeguismo ou do patriotismo em Portugal. Veja-se o Zeca Afonso no que concerne a assumir a galeguidade e a posição patriótica portuguesa do PCP.

        É certo que em termos históricos o nacionalismo, o povo, como base das relações de solidariedade numa sociedade foi um avanço quando comparado com o centro que a suserania e o soberano tinham nessas relações. Também é certo que essas relações feudais e senhoriais tiveram impacto na própria narrativa de nacionalidade, tendo até Portugal e Galiza como casos exemplares.

        De facto, é interessante verificar que uma das fontes identitárias da esquerda galega é a dominação sueva do noroeste peninsular, isto é, uma das fontes da sociedade de castas medieval que tem sequelas na sociedade actual. E depois as discussões sobre a preponderância da nobreza sueva ou visigótica… Cheguei a ouvir um conhecido historiador de direita português neste contexto a dizer que a aceitação de um dominador também dependia do dominado – e isto torna-se especialmente verdade quando a dominação se afigura inevitável. E parece que foi este o caso, os senhores suevos pareciam ser mais brandos que os romanos… E claro que haverá marcas culturais comuns destes fenómenos.

        É também certo que o nacionalismo usou muitas simplificações e distorções para se impor. E para além disso inconscientemente corrompeu-se para assumir as configurações da actual visão extractivista dos Estados. A hipercefalia de Lisboa e Madrid são casos exemplares.

        Mas eu compreendo as suas preocupações, um fluxo que alimente o nacionalismo português, ainda por cima considerando o ressurgimento dos fenómenos nacionalistas na Europa, deverá beneficiar sobretudo a extrema-direita portuguesa – e parece que esse ensaio já se deu. E também é certo que em termos do pensamento da mediana e moda da população portuguesa existe apenas Portugal e Espanha. Mas até para aliviar as distorções do nacionalismo português seria importante uma dose elevada de galeguidade e a melhor fonte para tal seriam os próprios galegos. Não é minha intenção ver os galegos como um objecto das nossas próprias carências ou necessidades. Ainda por cima, e como estas discussões revelam, os obstáculos que os próprios galegos defrontam são gigantes…

        Um abraço e força nesse livro!

        • Venâncio

          Meu caro Luís Trigo,

          Para começar pelos suevos e seu “Reino”: existe nisso uma boa dose de lirismo. Eles foram, como Vc diz com muita graça, «mais brandos que os romanos». Mas foram-no porque não podiam ser doutro modo. Jamais existiu um “Reino Suevo”, um constructo com tanta, ou tão pouca, consistência como o castelhaníssimo “Reino das Astúrias”.

          Os “suevos” eram um agregado de famílias de vária origem, uma constelação de caciques ou caudilhos (para servir-nos dos nossos belos castelhanismos), com “cidades capitais” itinerantes, umas vezes Braga, outras Lugo, outras diversas.

          Tiveram, sim, um papel magnífico: terem criado um espaço de paz e tranquilidade, imensamente favorável ao desenvolvimento dum idioma autóctone, o amantíssimo galego, esse que, bastantes séculos mais tarde, em Lisboa, iria parir este filho em que nos escrevemos, com a sua florescência de “ãos” que não lembraria ao diabo.

          [continua]

          • Venâncio

            Devemos muito à Galiza e aos galegos. Somos herdeiros do seu idioma, a maior oferta que algum povo poderia fazer a outro.

            Mas falar duma “galeguidade” portuguesa é (vou ser outra vez simpático) puro lirismo. Seria igual parvoíce eu, alentejano de gema, falar na minha “magrebidade”.

            A própria “lusitanidade” dos portugueses é um constructo cultural, surgido historicamente, no século XVI, quando a herança galega estava esquecida.

            Os povos adoram estas histórias à volta da lareira. Mas nós, Vc, eu e outra malta, temos obrigação de ser um tanto mais exigentes.

            Sabemos que Portugal se formou por motivos essencialmente económicos, quando os senhores da Maia e do Porto se deram conta de que tinham muito mais a ganhar com o comércio a Sul, com mouros e moçárabes, que com aqueles galegos sempre à bulha entre eles. O resto são histórias da carochinha, com uma carrada de heróis e milagres de Ourique.

            [continua]

          • Venâncio

            O que Víctor Freixanes diz a pretexto do “binormativismo” é da maior sensatez. Mas ele não faz alusão ao mais importante (que exponho detidamente no meu livro, e já expus aqui mesmo há meses): o “binormativismo” é um fantasma, e há-de sê-lo por muito tempo.

            E porquê? Porque, sabendo-se o que é a Normativa RAG (julgue-se dela o que se julgar), ninguém sabe o que é aquele “bi”. A verdade é que o Reintegracionismo é incapaz de defini-lo linguisticamente.

            Qual seria, pois, essa “Norma Bi”? Em princípio, seria tudo entre a antiga Norma AGAL (hoje Norma AEG) e o fantasmagórico “luso-brasileiro”, que só existe nalgumas criativas cabeças galegas.

            Quem pode tomar tal proposta a sério?

          • Venâncio

            No Reintegracinismo existe algum ‘know how’ para responder a esse imenso quesito. Bastaria pôr ao trabalho Estravis, Iriarte, Souto Cabo, Corredoira, JL Rodríguez, Quiroga, Garrido e Maurício Castro. Mas haverá coragem para fazê-lo?

          • Luis Trigo

            Ainda por cima tudo se pode transformar numa discussão semântica – o pior é quando fica bizantina. O que é a galeguidade? poderá esse conceito traduzir-se nas suas palavras “Devemos muito à Galiza e aos galegos. Somos herdeiros do seu idioma, a maior oferta que algum povo poderia fazer a outro.” ?
            Em termos emocionais aceito melhor uma galeguidade do que um lusismo, não me consigo pôr fora da religiosidade. Um teísta arranjará sempre uma maneira de enquadrar deuses ou Deus, nem que seja através da identificação com a natureza. Eu nem sequer me consigo identificar como ateu, Deus não faz parte da rede conceptual do meu sistema operativo.

            Um abraço 🙂

          • Venâncio

            Meu caro Luís,

            A nossa herança galega linguística é um dado histórico. A nossa “galeguidade” é um amável delírio.

            Abraço amigo.

          • Luis Trigo

            O “luso-brasileiro” também existe na cabeça de algumas cabeças portuguesas, embora a actividade editorial e de mercado o contradiga.

          • Venâncio

            Exacto. Não há, e nunca haverá, edições “luso-brasileiras”, seja de Harry Potter, seja de instruções de máquinas-de-lavar.

            E não é porque, como certo galego simpático aventou, porque nós sejamos “preguiçosos” para nos lermos uns aos outros. 😉 É porque Português brasileiro e Português europeu se estão a afastar cada dia, e irreversivelmente, e já hoje não admitem uma “versão comum” literária.

            Mas, como Vc provavelmente sabe, este assunto é tabu no Reintegracionismo galego.

  • luiz

    Muito boa entrevista.
    Os meus parabéns à jornalista.
    Isso é entrevistar alguém com responsabilidades públicas de maneira crítica.
    Adorei.
    Devo reconhecer que gratamente surpresso pelo bom fazer profissional.

    • Ernesto V. Souza

      Pois, eu foi o que mais gostei da entrevista… o trabalho da entrevistadora… 😉

  • Eduardo Maragoto

    Obrigado, Víctor; obrigado, Laura. Sem dúvida, estamos perante umha entrevista que abre caminhos:

    “O galego tem que construir, mesmo para, chegado o momento, poder modificá-lo, tem que construir a sua própria identidade, a partir da autoestima e a partir dum produto moderno, competitivo na criatividade. E depois de chegarmos aí, podemos abordar diferentes passos, porque isto não é eterno. As cousas não são assim para sempre. Se calhar, dentro de dez anos ou dentro de cinco anos estamos falando de que já podemos enfrentar mais cousas”

    Concordo em que o galego tem umha identidade que nom deve renunciar a construir e que é a partir dela que se devem estudar passos para a integraçom na Lusofonia. Falta que dediquemos mais tempo a estudar esses passos conjuntamente, com a paciência que for preciso.

    • Miro Moman

      O problema está nesse “de chegarmos ai”, porque nunca havemos chegar ai. Sem burguesia não há língua nem há nação. O galego caminha cara sua extinção porque não existe uma burguesia que o imponha. Portanto, o “povo galego” nunca vai ter autoestima nem valorar a língua. O mesmo dá que se vista com os farrapos do castelhano ou com as roupagens do português.

      A questão para mim é puramente pragmática: aproveitemos agora que ainda temos língua (ou, quando menos, meia língua) para situarmo-nos no mapa global. Económica e culturalmente. A CAG vai beneficiar objetivamente disso, como beneficiamos já quem escolhemos o modelo internacional de língua.

      Não há tempo a perder.

  • Miro Moman
  • Ernesto V. Souza

    eu não sei como dizer… talvez é cousa minha e do meu desânimo… mas se esta falta de vida, de projeto, de energia, de intenções, de propostas ou soluções… é a que manifestam aqueles que foram e são, aqueles que triunfaram e estão no comando nas instituições e poderiam fazer…

    não sei… para mim cada vez é mais absurdo e cinzento tudo… acho que não paga a pena nada, nem o galego, nem o reintegracionismo, nem o português… nem nada arredor…

    é como estar estacados numa trincheira, com a lama até o peito, rodeado de gentes a brigarem entre elas no seu desespero e saber que tens de generais e mandos gentes sem qualquer capacidade ou iniciativa…

    • Miro Moman

      É mesmo assim Ernesto. Eu já há tempo que renunciei ao galego e à Galiza. Para mim o português é já uma solução individual, não coletiva.

      “o céu cai sobre Berlim
      e diz-que não há insurreição
      como individual solução
      busco sempre o melhor assessor”

      Colombo, Os Resentidos, Están Aquí, 1993

      https://www.youtube.com/watch?v=pp5s99UwS1E

      • Ernesto V. Souza

        pois, talvez seja simplesmente isso… reconhecer que é impossível qualquer coletivo político e social… esquecer Galiza, o galego e os galegos, que façam o que lhes pete e tomar distância e qualquer caminho individualmente…

        A ver se temos sorte e compram belgas, ingleses, holandeses e alemães a Galiza inteira, e os indígenas vão se extinguindo…

        • Miro Moman

          Impossível não sei. Teriam que se produzir mudanças profundas que não se enxergam por nenhures. O pior nem é a assimilação cultural, que é relativamente irrelevante. O pior é o afogamento econômico, que faz com que não apenas não haja um presente para nós no país, mas também que não haja um futuro para os nossos filhos. Eis o autêntico drama. Na minha humilde opinião é improvável revertermos esse processo quando quase tudo o que estamos a fazer é errado. A mentalidade é errada, errados também os marcos interpretativos, as ideologias, as estratégias, as tácticas… Tudo. Não sei…

        • Miro Moman

          Mas bom, o outro dia estivem a falar com um rapaz no Morraço e se calhar sim que há gente nova com ideias frescas… Ainda os vejo muito presos do velho, mas não inteiramente…

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      Na Galiza o futuro já passou.
      Freixanes isso não o sabe, mas achegou também o seu esforço a isso

      Isso pode-de ler em negativo ou positivo; mas isto último não o vou a esclarecer, que isto do PGL está cheio de sábios e sabidos

  • Paulo Gamalho

    Parabéns pola entrevista! Dinâmica e bem conduzida.

  • Santiago Silva

    “Uma língua é uma norma” Então o inglês são duas.. no mínimo.. e o português são também duas línguas? A conclusão é um sonoro “mais do mesmo”. Este país não vai avançar com estas elites.

  • Paulo Fernandes Mirás

    Poderia escrever imensas linhas sobre o que opino disto, no que concordo e no que discordo, mas vou resumir rapidamente, numa oração o que acho eu e que percebo que Freixanes não acaba de ver: O galego não é uma grafia, não é uma norma.

    Obrigado.

    • Venâncio

      Caro Paulo,

      Há dezenas de anos que os reintegracionistas andam dizendo que o Galego (e, por arrasto, o Português) é uma “ortografia”. Poupo-o a dezenas de citações adequadas, muitas delas no PGL. Em suma: não vejo bem a diferença com o que diz Freixanes.

      • Paulo Fernandes Mirás

        Freixanes acha que só é galego o que escrevem e prescrevem na RAG e que qualquer pessoa que escreva com a ortografia portuguesa, está a escrever em português.

        Uma língua não é somente a ortografia, a sintaxe e a morfologia são elementos mais importantes. Eu escrevo com a ortografia portuguesa e não por isso estou a escrever em português, acho que qualquer português ou portuguesa poderia saber que sou galego ou, pelo menos, que não sou português se lê isto.

        Poderia escrever em galego em cirílico e não por isso passaria a ser russo. A ortografia tem a ver com tradição e identidade, a que alguns esquecem e prestos reinventam.

        Eu podo aceitar que escrevam na norma da RAG sem descriminá-los, podem eles não descriminar-me por seguir uma norma diferente sem dizer-me que escrevo noutra língua? Acho que não.

        • Venâncio

          O Sr. está a escrever em Português, com algumas marcas galegas: «podo», «não por isso» e alguma mais.

          Se o Sr, acha que está a escrever em Galego, então Ferrín e Alcalá escrevem em Marciano Arcaico.

          • Venâncio

            É perfeitamente nítido que o grosso dos reintegracionistas se exprimem em algo (não sei que nome dar-lhe) em que as marcas galegas são reduzidas a um mínimo, quando não de todo apagadas.

            Sou vosso amigo, e por isso serei sincero: francamente, vós não sabeis o que quereis. Mas ai de vós, e ai de nós, vossos amigos, se tivermos de dar razão ao Ernesto Souza e ao Miro Moman.

          • Paulo Fernandes Mirás

            Já percebi, caro Venâncio, que os reintegracionistas escrevem num galego aportuguesado, onde os portugueses quase não percebem que são galegos. Contrariamente, os isolacionistas escrevem num galego puro, desse que deixa para se perceber que é galego e nada similar ao português (e muito fácil para que venham desde a Madride a trabalhar cá, uma norma muito cómoda para próprios e estranhos).

            Temos que deixar estas causa, há tantos anos perdida, e aceitar que estamos completamente enganados, a reintegração é uma parvada de descomunais proporções e o isolacionismo é perfeito e os frutos dele crescem hoje em dia, deixando florescer grandes obras literárias em cada recuncho destas terras, inspirando a toda a sociedade.

            O do neo-castelhano agalegado era brincadeira, o contrário do Marciano arcaico que utilizamos alguns. Agora que fala do nosso caro Alcalá, deveria fazer, quando tiver tempo, uma comparativa entre a sua escrita nas primeiras novelas e as novas, para perceber em que mudou o amigo (a escrita e as ideias, como o vento, que um dia move o barco e outros deixa os marinheiros no porto).

            Eu também sou amigo seu, mas nunca comprazi ninguém em palavra nem obra, vai ter de suportar-me como sou, um bocado “revirado” como dizia minha avó. Eu não renuncio ao galego por escrever deste modo, ainda que algum português ou algum galego poda pensar que sim. O primeiro passo foi recuperar o galego que meus pais decidiram não ensinar-me, o segundo aprender e o terceiro decidir e ir ajeitando o que levo na mochila. Infelizmente, não pus o ouvido o suficiente como para ter aprendido o que os velhos me transmitiam, fico com pouco, mas sempre contente e com os olhos abertos. Leo o que escreve e tomo nota, Venâncio, não se preocupe por mim, sempre ando perdido, mas acho que cada vez menos. 🙂

          • Venâncio

            Caro Paulo,

            Não sei se sabe, mas o próprio Xavier Alcalá tem feito algumas experiências ortográficas de teor reintegracionista, em que vaza o seu galego de sempre. Mas, como não recebe eco de parte nenhuma, temo que tenha desistido.

            Se realmente o galego de Alcalá é hoje menos lídimo do que foi aquando de «A nosa cinza», coisa é que me escapou, mas admito. Não é bom sinal. É, mesmo, se verdadeiro, um péssimo sinal.

            Mas, por favor, Paulo, poupe-me à sua ironia. «O isolacionismo é perfeito e os frutos dele crescem hoje em dia, deixando florescer grandes obras literárias em cada recuncho destas terras, inspirando a toda a sociedade.» A ironia é, frequentemente, o recurso dos fracos, e eu desejo sinceramente que Vc não o seja.

            Que ninguém duvide: na Galiza, o galego, o melhor galego, é hoje um acto heróico, e nem todos somos capazes de tanta heroicidade.

            Mas, de novo por favor, poupe-me (agora fala o linguista) a essa sugestão já um tanto maníaca do teor castelhanista da Normativa RAG. Certo, existe nela uma margem desnecessária de castelhano, e eu lamento que o propalado “aproveitamento” do léxico português avance com tanta lentidão, e até resistências.

            Mas lembro-lhe que a Normativa RAG exclui, e não raro explicitamente proíbe, CENTENAS de castelhanismos correntíssimos no português de cada dia, sobretudo no léxico, mas também na fraseologia.

            E, caramba, nunca vos vejo a ter a seriedade de reconhecê-lo.

          • Paulo Fernandes Mirás

            Caro Fernando, a ironia e a retranca são recursos galeguíssimos que, se nos visita, apreciará pela abundância nos nossos discursos diários.

            A norma da RAG, para quem estudou o que foi o galego e o que é o português atualmente (escrita), resulta mais que evidente uma enorme pegada do castelhano (reconhecida pelo ILG como medio de fácil aprendizagem para as crianças, escusa perfeita, já que somos espanhóis e temos de saber castelhano).

            Parabenizo à RAG pelo grande favor de purgar o castelhano das nossas letras, ainda que insuficientemente, mesmo superando a limpeza do português nalgums aspectos. Não tudo o que figeram foi mal feito! Até a pior pessoa faz algo bem de vez em quando.

            E obrigado pelas achegas, acho que, ainda que ninguém o reconheça, seguramente fiquem connosco para futuros trabalhos e conversas. Não se laie, acho que muitos aqui têm demonstrado que as suas palavras não ficam no ar, sempre há quem as guarda no peto.

          • José Ramom Pichel

            O reintegracionismo não está representado em nenhum organismo galego que decide as políticas culturais e linguísticas da Galiza, que sim tem competências na matéria na Comunidade Autónoma.

          • Venâncio

            Meu caro Pichel,

            Como sabes, sou um singelo historiador do idioma. Compreendo essas vossas desvantagens políticas, autenticamente insuperáveis nos tempos mais próximos.

            O que eu nunca acho é, da vossa parte, uma proposta linguística que signifique um verdadeiro avanço rumo a um Galego enriquecedor, atraente, viável no médio prazo, que a sociedade galega, até a castelhano-falante, reconheça como uma vantagem, ainda que só o dominasse passivamente.

            Um começo muito palpável disso existiu um dia, a versão original da Norma Agal. Foi um erro histórico do camandro que não a tenhais desenvolvido, e antes deturpado e por fim abandonado.

            Sobra-vos o discurso, Perdão, a léria da «unidade da língua», hoje mania única galega e do pior reaccionarismo português. Ela nunca existiu,e nunca existirá, essa «unidade da língua portuguesa», invenção de reaccionários portugueses dos anos 80, todos eles hoje ainda figadalmente hispanófilos.

            A «unidade da llíngua portuguesa» é um mantra espanhol, e há-de sê-lo sempre.

            Abre os olhos, querido amigo.

          • José Ramom Pichel

            Não me interessa esse debate da unidade da língua portuguesa. Interessa-me o futuro da nossa língua ao Norte do Minho. A língua da metade da minha família. A língua que quixerom que abandonássemos quem nascemos nos 70, para não fazer-nos passar o que tinham sofrido os nossos familiares quando nenos galego-falantes. E interessa-me o papel que joga nesse futuro, a nossa língua ao sul do rio Minho, que eu sinto profundamente própria, ainda estando eu noutro Estado.

          • José Ramom Pichel

            Como historiador da língua que és, tens de reconhecer que a linguística histórica também não é neutra. E tens de lembrar aquele artigo que che tinha dedicado com todo o carinho, para que compreendas e a gente em geral interessada nestes assuntos compreenda, que os dicionários na Galiza e em muitas partes do mundo, às vezes, se fam não para aprender uma língua, mas para…outros assuntos. https://quatroestomagos.wordpress.com/2018/10/05/un-buen-diccionario-gallego-castellano-lejos-de-perjudicar-al-idioma-de-castilla/

          • Venâncio

            [escrevi isto no teu blogue]

            Carísssimo José Ramom,

            Escapou-me de todo este artigo… que me permite supor que, sem sonhá-lo sequer, poderei ser famoso em Kuala Lumpur.

            Graças à parte, lembro-te o que escrevia num livro célebre, em 1862, ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO (família portuguesíssima), durante décadas o grande doutrinador da língua portuguesa:

            «Na leitura do castelhano, se hoje em dia a frequentássemos como cumpria, bem fácil e bem agradavelmente pudéramos nós retemperar ainda hoje o bom falar vernáculo».

            Imaginavas isto?

          • Venâncio

            Um segredo: não contes a nenhum português. 😉

            Todos os grandes escritores portugueses ‒ Gil Vicente, Luís de Camões, Francisco Manuel de Melo, António Vieira, Manuel Bernardes, António Feliciano de Castilho, Aquilino Ribeiro, José Saramago ‒ foram tamém grandes castelhanizadores do português.

            Safam-se Garrett e Eça, casos especiais.

            Já o mostrei em vários artigos, e espero poder escrever sobre isso um livro. O Mundo não é bem aquilo que gostaríamos que fosse.

          • José Ramom Pichel

            A diferença entre a Galiza e Portugal é que na Galiza o castelhano ameaça a sobrevivência da nossa língua, e desde há 30 anos com uma aceleração histórica inédita graças ao Capitalismo de Estado sediado em Madrid. Em Portugal castelhanizou-se a língua mas nunca estivo ameaçada por ele. Na Galiza, sim. Quanto antes compreendas isto, melhor compreenderás como isto também influi na linguística. De resto a mim também me interessa tudo o que apontas.

          • Paulo Fernandes Mirás

            Marciano Arcaico ou Neo-castelhano agalegado, dependendo da órbita.

            Então, eu estou a escrever em Português? Será mesmo que sou português, porque há dous anos que o “estudo”, se podo dizer “estudar”. O único que estou a fazer é ler português e a consultar dicionários de vez em quando.

            Estou a escrever sem tentar utilizar estruturas exóticas nem nada que não tiver ouvido de algum galego. E, ainda utilizando alguma cousa que seja unicamente do português de Portugal ou do Brasil, é por isso menos galego o meu galego? Será, por acaso, que o que estou a fazer é pecado e os que misturam com castelhano têm melhor galego?

            As línguas hibridiçam, mudam, e servem para comunicar-se socialmente. Se eu consigo comunicar-me sem problema algum e a minha língua muda porque cada vez tenho mais colegas de Portugal e do Brasil, qual é o problema? Deveria sentir-me mal? Um traidor? Um desertor do “galego”?

            Se aceitamos o percurso do galego, cada vez mais misturado com o castelhano, e achamos isto normal e mesmo fazemos disto norma, por que é que tenho eu de seguir esse caminho se me cuido de não cair em certos desvios e não evito cair noutros? Deve o indivíduo lutar por evitar o seu destino, ou deve acompanhá-lo? Cada um muda dependendo do seu contexto.

            Sei que não estou à altura de muitos dos que aqui deixam as suas letras, também sei das minhas limitações, mas das batalhas tudo deixa marca para aprender um bocado mais.
            Desculpe a minha ignorância, caro Venâncio, “a gente nova” é o que tem, lenha verde.

          • Venâncio

            Paulo,

            Tem Vc a coragem de sugerir que Ferrín e Alcalá se exprimem num “Neo-castelhano agalegado”?

            Se sim, prova-se que Vc está convencido, como tantos reintegracionistas, de que língua é… ortografia. Os meus parabéns!

          • Venâncio

            Deixe-me ser-lhe sincero: o Reintegracionismo galego é, hoje, um discurso. Cheio de sonhos e contradições, mas nada, nadinha, tendo a ver com a materialidade linguística, seja de que idioma for.

            Posso ser sincero outra vez? Para uma maioria muito significativa dos reintegracionistas galegos, vale que a única língua que verdadeiramente dominam é o espanhol.

            Tudo isto explica o novelo de mal-entendidos em que o nosso querido Reintegracionismo cada dia mais se envolve.

            Talvez que Souza e Moman tenham, diabolicamente, razão.

          • José Ramom Pichel

            Todos os galegos menores de 50 anos dominam o castelhano, que é a única língua que funciona como tal na Galiza. Todos e todas.

          • José Ramom Pichel

            Todos os galegos menores de 50 anos não dominam o galego e não conhecem o português. Também forom educados nas aulas de galego que galego está às mesma distância que português (que desconhecem) e castelhano (que dominam). Portanto, qualquer achegamento do galego ao português é visto como uma separação do castelhano, Daí que se acaba por pedir nas cafetarias “leite templado” em vez de “leite morno”, por exemplo, e muitos casos mais.

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            O outro dia falava com um grupo de catalães já idosos, dum grupo de viagem, e comentavam que após a democracia deram-se ao trabalho de saberem escrever a sua língua…
            No galego se um sabe castelhano já age como se soubesse rscreber o galego, item mais, o castelhano é a norma de correção da sua língua e qualquer cousa que for castelhano pode passar por galego.
            Se nos projetamos assim, pode que o nosso sentimento seja bem bom, mas o futuro já passou.

    • Joám Lopes Facal

      O galego é, simplesmente, um idioma secular que acabou encontrando-se espelhado no português.
      O imenso Martim Sarm(i)ento (1675-1772) foi, polo que eu sei, o primeiro em anotá-lo depois de séculos de desleixo e desprezo.
      O romantismo galego o primeiro movimento patriótico em vindicá-lo.

      • Ernesto V. Souza

        Mas Sarmiento, era um patriota nacionalista español e um anti-português formídável… como foram tantos dos galegos… e levado das suas ideias… é importante destacar, penso eu, que ele não se limitou a resgatar o galego antigo medieval, re-inventou como possibilidade de uso moderno e independente… e afastou-no também ab ovo e ad mala, do português… sentando cátedra e precedente…

        Aí havia um tema de estudo para filólogos desses…

        • Joám Lopes Facal

          E difícil sair da jaula de ferro do Estado que nos determina e da cultura que praticam, Ernesto, quer seja este o do Antigo Regime, o Liberal ou o Pós-franquista.
          Todos eles tingem com tinta indelével a sociedade sobre a que gravitam.
          A língua portuguesa como irmã de porta com porta e horizonte ineludível vem de Carvalho Calero, com alguns precedentes de carácter mormente lírico.

          • Ernesto V. Souza

            A Galiza. a fins do Medievo, a fins do XVIII ou a começos do século XIX tinha de ter sido ou bem um Estado plenamente independente, ou bem ter formado uma unidade com Portugal, ou mesmo formar uma unidade, sob Portugal com Castela… em qualquer uma dessas possibilidades haveria lógica e a língua seria também uma, e estaria feita no decorrer dos séculos…

            A situação na que ficou em ambos os momentos decisivos, com Aragão e Navarra sob Castela, mas sem Portugal… acho que explica as nossas limitações e determinações de horizonte…

            Só nos resta o papel passivo de resistir e persistir, na jaula, até que qualquer uma nova onda da história arrase com todos os horizontes que nos determinam…

          • Joám Lopes Facal

            Catalunha tentou-no várias vezes; eu confio mais na abertura do cenário multinacional, talvez num contexto republicano e europeu propício.

          • Ernesto V. Souza

            pois…. talvez…. mais a Catalunha não tem a nossa história… nem as nossas possibilidades, nem as nossas limitações, nem as nossas determinações… tem as suas próprias…

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Isso é um impossível, só poderia albiscar-se algo se antes a espanha for rota e trucidada…como acabou entendendo Castelão

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Como diz Bourdieu, o estado é o único feus verdadeiro…

        • https://pglingua.org/index.php abanhos

          Era bem mais reintegrante Feijóo. Por isso se Cita menos