Por José Paz Rodrigues (*)
Assinalava Castelao nos seus famosos desenhos, para honrar a todos aqueles assassinados polos fascistas nos anos da guerra, “nom enterram cadávres, enterram semente”. Há uns dias, no passado 17 de agosto, celebramos o “Dia da Galiza Mártir”, pois tal dia como este de 1936 foi assassinado na Caeira pontevedresa o ilustre ourensano Alexandro Bóveda. Que simboliza de alguma maneira a todos aqueles que, de forma bárbara e injusta, lhes quitaram a vida. Esse bem tam prezado que ninguém tem direito a atentar contra ele. Gostaria eu que nom voltassem jamais ao nosso país feitos e guerra como aquela. Na que luitaram irmãos contra irmãos e ainda nestes tempos continuam abertas feridas por ela provocadas.
No passado ano dediquei o meu artigo, nesta assinalada data, a Bóveda. Ourensano exemplar de grande inteligência e sensibilidade, de grande amor pola Nossa Terra, cristão modelar que, antes de ser fusilado, pediu comungar. E, como nunca fizera mal, pensou que aquele juízo sumaríssimo nom ia decretar a sua morte, polo que nom intentou antes fugir para Portugal. Para conhecer a fundo estes feitos recomendo ler esse emocionante livro Vida, paixom e morte de Alexandre Bóveda. Que, junto com o Sempre em Galiza de Castelao, dedicado precisamente a Bóveda, todos os galegos e galegas deveriam ler alguma vez.
Infelizmente, nom só foi Bóveda a quem quitaram a vida os que se levantaram contra o governo republicano legítimo. A lista de galegos ilustres assassinados é tristemente longa e a de vítimas da repressão ainda mais. Estou seguro que mais de um ficará no tinteiro deste meu artigo. Em primeiro lugar, tenho que lembrar o editor Ângelo Casal, do qual acertadamente Castelao chegou a dizer que ele só fizera mais pola Galiza que todos os galeguistas juntos. Editor da revista Nós, logo de marchar de Ourense, onde fora criada por Risco e seus colaboradores, diretor das editoras Nós e Lar e membro das Irmandades da Fala, foi “passeado” na paróquia arçuana de Vilantime e uns dias depois apareceu o seu corpo numa fossa da paróquia de Cacheiras.
O galeguista Víctor Casas e o desenhador Camilo Diaz Valinho, amigo de Casal e pai de Isaac Diaz Pardo, perderam também a sua vida a mãos dos fascistas. No mesmo dia que Bóveda, junto com catorze republicanos, foi assassinado o médico e alcaide de Ferrol, Jaime Quintanilha, o principal mártir que tem o PSOE na Galiza, ainda que pouco se note com os medíocres dirigentes que na atualidade levam este grupo político.
Já em Ourense e província, onde houve uma repressom enorme, pouco conhecida na atualidade pola maioria de cidadãos e, especialmente, polos jovens, eu quero lembrar entre outras, as mortes desapiedadas do mestre e escritor de Vilar d’Avós Jacinto Santiago, de Roberto Blanco Torres, escritor e jornalista da Peroja, reintegracionista como eu, que apareceu numa valeta perto de Entrimo. Também dos mestres, muitos membros do grupo pedagógico vanguardista a “ATEO”, como Elígio Núnez, do qual se encontrou o seu corpo em Vilarinho Frio, de Júlio González, mestre de 25 anos, de Verea, morto em 29 de agosto de 1936 e Amadeu Velho, de 32 anos, mestre de Carvalheda de Ávia e colaborador da revista Nós.
Ourensanos assassinados barbaramente também foram Arturo Noguerol, morto no Ferrol em 12 de setembro do terrível ano, o poeta Manuel Gómez del Valle, fusilado no cemitério de S. Francisco, o condutor de 23 anos, da nossa cidade, Sílvio Torres Diaz e o que era naquela altura alcaide de Ourense, Manuel Suárez. Ao qual, por fim, se lhe fez recentemente a homenagem póstuma, estando muito tempo injustamente esquecido. Antóm Alonso Rios, que fora mestre de Tominho e deputado agrarista galego, salvara-se do assassinato ao mudar de nome e andar mascarado e poder fugir depois à Argentina.
Na zona republicana também houve a sua barbárie. Da qual falaremos outro dia. Mas hoje bem forte quero berrar: que nunca mais voltem tempos como aqueles! De injustiça e barbárie sem limites.
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(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.
