Seis espelhos para o galego-português

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Por Carlos C. Varela

Subestimamos amiúde o poder das ficçons para terem efeitos bem reais e para configurarem as nossas perceçons. Com as línguas acontece-nos o mesmo. Assumimos inconscientemente umha espécie de “princípio de nacionalidade” lingüístico conforme o qual a cada naçom corresponderia umha – e só umha – língua; vemo-nos neste oceano de 5.000 línguas como umha das minoritárias; e pensamos que as fronteiras feitas com tira-linhas existem no terreno com a mesma rotundidade que o Minho ou os Ancares. Mas as palavras, como os pássaros, voam por cima das fronteiras deixando inumeráveis ronséis de isoglossas lingüísticas onde apenas o poder – como lembrava Humpty Dumprty a Alice- di o que é Língua e o que nom.

Quem fala a minha língua? vai, no mínimo, estimular umha nova imaginaçom lingüística nas suas leitoras. Seis filólogos, coordenados por Valentim Fagim e Xemma Fernández, levam-nos a outros tantos contextos sociolinguísticos com semelhanças e dissemelhanças com o nosso. Neles, as categorias com que pensamos as línguas começam a mexer-se: o monolingüismo nacional é quase umha (incompleta) exceçom portuguesa na Europa; as ortografias e até os alfabetos vam e venhem; as línguas nascem e morrem com mais rapidez da prevista; etc.

No artigo sobre o occitano, Carmen Alén descreve a situaçom atual dumha língua que foi companheira de esplendor medieval do galego. Nele podem-se contrastar as políticas lingüísticas do Estado francês e o espanhol, e a dificuldade para sobreviver perante um jacobinismo que na sua oferta – ou chantagem – de “cidadania por identidade” foi sempre a sério, nom como deste lado dos Pirenéus. Da língua como emblema, e nom raiz, dum conflito político fala-nos Jairo Dorado a propósito do servo-croata. A questom moldava é um cruzamento entre a Roménia e a Rússia, o cirílico e o latino, que não pode ser melhor laboratório glotopolítico. Charles King debulha este labirinto.

E chegamos aos casos que sentiremos como sendo mais próximos. A análise de Fernando Venâncio – português habitual nos debates reintegracionistas – sobre a Flandres e o neerlandês pode-se ler como umha hipotética resposta à pregunta “que aconteceria se o reintegracionismo tivesse triunfado na Galiza?”. Apresenta-se-nos, aliás, umha zona da Europa em que há dezenas de dialetos – a 50 km a compreensom mútua torna-se precária – e outras línguas como o frísio, baixo-saxom, limburguês… Os pássaros voam, e em bandadas. No estudo de Miguel Ángel Pradilla sobre o valenciano, muitas terám a sensaçom de estarem a ler umha análise sobre o galego. O próprio autor escreveu sobre a nossa língua um artigo com idêntico título: “Um caso de individuaçom lingüística num contexto de minorizaçom”. Particularidades à margem, conceitos como o de “contraplanificaçom lingüística” som perfeitamente úteis para o nosso caso. Por último, Xaiver Frías Conde dá-nos no seu ensaio sobre o eo-naviego umha demonstraçom, por reduçom ao absurdo, da insustentabilidade do nosso modelo lingüístico.

A.V.V. Quen fala a minha língua?, Santiago de Compostela, Através Editora, 2013.

 

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