Revolução contra corrupção na Índia

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Por José Paz Rodrigues
(Didata e Pedagogo Tagoreano)

Depois de 12 dias em greve de fome, o líder gandhiano da Índia Anne Hazare voltou a comer. Uma vez que soube que o parlamento de Nova Deli dava início ao debate da lei para combater em toda a República indiana a corrupção galopante, instalada em todos os níveis do governo e mesmo entre funcionários de diferentes categorias e em todos os estados do país. O tema central dos “indignados” de toda a Índia, que são muitos, é o dos escândalos da corrupção reinante. Foram muitos os que se manifestaram contra tão grave problema arredor do seu líder, e em todas as grandes cidades indianas, nomeadamente Deli, Kolkata, Mumbai e Chennai. Este grave problema salpicou inclusive ao atual primeiro-ministro Singh, com uma excelente reputação até o momento, que vem de atirar pola borda ao olhar para outro lado e não impedir que o seu ministro de telecomunicações aceitasse quantias astronómicas de dinheiro como suborno, e chegasse a entrar no cárcere por isto.

Confesso que, apesar de passar desde 2002 mais de três meses por ano no estado indiano de Bengala ocidental, não conhecia que a corrupção estivesse tão estendida e generalizada na Índia, país que, pese a tudo, amo e admiro, e em que sempre me sinto à vontade e feliz. E aonde voltarei no dia 5 de outubro para regressar em 30 de março do próximo ano. O meu desconhecimento deste tema pola minha parte foi de certeza devido a não ter necessidade de realizar trâmites burocráticos nas minhas estadias periódicas neste belo país, que eu considero o país da paz. Polo que, igual que o seu governo atual, estou profundamente surpreendido do que está a acontecer nos últimos tempos, onde milhões de cidadãos, de forma espontânea protestam de maneira pacífica em ruas e praças contra a elevada e generalizada corrupção, que desde há bastantes anos ali está instalada.

Eu não sabia, por exemplo, e isto comunicou-mo o meu amigo Álvaro Enterría, que, em cooperação com um indiano, gere uma livraria e editora na cidade sacra de Benarés, que até agora, depois de mais de trinta anos, nenhum governo da Índia se atreveu a promulgar uma lei para lutar contra a corrupção. Lei sobre a que já existe desde há muito tempo um projeto. Aos indianos, e com o líder popular Hazare à cabeça, acabou-se-lhes a paciência, da qual têm aos montes. Estão muito cansos de que para resolver problemas burocráticos de qualquer tipo tenham que subornar o funcionário de serviço. Para abrir uma loja, conseguir o serviço de água ou de luz para a sua vivenda, para que se lhe passe o bilhete de identidade, a carta de condução ou o passaporte. Já para não falar de querer montar uma fábrica ou uma empresa. O que neste caso também sucede no vizinho país do Bangladesh.

Num recente correio eletrónico, o meu amigo Enterría comentava-me que na Índia dar e receber subornos é algo quotidiano e a polícia cobra por pôr multas, os burocratas por dar licenças e por arranjar um emprego, um bom destino ou uma promoção. Também que os altos burocratas e os políticos, considerados estes os mais corruptos de todos, cobram os seus favores com quantidades proporcionais aos serviços emprestados, e recebem comissões por muitas cousas. Estes escândalos mais recentes de alta corrupção a nível governamental foram a gota que fez transbordar o copo. Milhares de cidadãos com o gorro gandhiano do líder Hazare, portando bandeiras indianas e cartazes em que se lia “Eu também sou Hazare”, manifestavam-se em toda a República sem violência, para apoiar as frases do líder :”Imos lutar pola segunda batalha da independência da Índia”. O fator mais importante a favor deste movimento cidadão, singular e pacífico, esteve no apoio massivo que teve, sem exceção, dos meios de comunicação de massas: jornais, rádios e televisões. Lembrando a sua exemplar lei de liberdade da imprensa, promulgada já no século dezanove.