Reciclando o decreto do PP

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Edelmiro Momám – As “Bases para a elaboração do decreto do plurilinguismo no ensino não universitário da Galiza” estão a fazer correr rios de tinta. Por um acaso, todos estes rios, agás os que brotam da própria Junta, fluem contra o projecto de decreto, e van a dar en la mar, que es el morir. A tentação de botar, eu também, a língua a pascer era forte.

Depois recapacitei, não, já está ai o Callón, ou então, não, já está dito tudo quando havia a dizer, ou senão, não, por uma vez que existe unanimidade de pensamento e acção no galeguismo, não vou ser eu o desleal. Porém, se calhar polo meu passado ecologista, se calhar porque mim passa-me como a Wilde que posso resistir tudo não sendo a tentação, sentia no fundo do meu ser assim como um desassossego, um prurido, quase um remorso. Reduzir, Reutilizar, Reciclar. Eis a filosofia dos três erres.

A pergunta que me fazia ao acordar banhado em suor errava polos domínios da ecologia linguística: é que não seria possível reduzir, reutilizar e/ou reciclar as bases do decreto? Não fica outra opção senão jogar tudo no lixo? Gostando como gosto do mar, que, mália a oceânica listagem dos afogados, nunca identifiquei com el morir, acho que vou ousar deixar brotar mais um rio, bom, digamos um regatinho, uma mijadinha pequena.

Antes de mais, e como já foi reconhecido implicitamente em mais duma ocasião polo próprio Sr. Secretário Geral de Política Linguística de corpo presente, não é a sua exactamente uma proposta de decreto nascida do saber académico aplicado segundo os mais estritos princípios do racionalismo científico, senão que esta emana mais bem dum exercício de malabarismo político.

Malabarismo que tencionava, sem muito sucesso polos vistos, conciliar todos os pareceres e expectativas das direitas madrilena e galaica. Porém, nomeadamente aqueles a quem se prometera preservar os seus filhos de toda mácula ou poluição galegas semelham não terem ficado muito contentes. Dito isto, toca dissecção.

Demagogia, oh, perdão, queria dizer demografia

A maioria dos galegos querem um ensino bilingue galego-castelhano. Correcto. A maioria dos galegos estão enormemente interessados em se mexer na política educativa e no currículo escolar. Falso. A ideia era bonita. Ora bem, a sua simples menção faz aumentar de maneira exponencial o risco de infarto no seio da comunidade educativa (directores, professores, pais, filhos e espíritos santos).

Aroint thee, witch, aroint thee. Não era isso, homem, não era isso. O que queria Galicia Bilingue, minoria absoluta, não era os pais decidirem assim democraticamente, nem muito menos ter que estar a brigar nos claustros quais modernos cruzados en nombre de Dios, la Patria y las troncales. O tema era ter um modelo A para las gentes de bien e um modelo B para los galleguistas y la chusma en general. Como en las Vascongadas, pero al revés. Cumpre saber ler entre linhas.

Idealmente, no paraíso das FAES, este modelo segregacionista tinha que estar formulado de tal forma que a maioria dos pais se vissem constrangidos a escolher o modelo A, el de las troncales en cristiano, para assim ir encerrando o galeguismo in the ghetto. Como Galicia es mansiña, poderia funcionar. Porém, semelha que Lorenzo achou que o wrestling é muito mais entertaining. Ou talvez, simplesmente, que a segregação é infinitamente mais cara e estamos em tempos de auteridá y de frijoles. Vemo-nos nos claustros.

Imersão

De imersão nada. Nadinha. Rien de rien. Ni hablar. Ou sim. Finalmente haverá imersão, mas vão decidir os pais em que augas vai ser submergida a sua progênia. Se nas da Lengua ou nas do dialeto. Libertaz, libertaz, libertaz. Que dilema. Se você pensava que era dever da Junta promover o galego (dignidá, dignidá, dignidá), think again. A Junta mostra-se equânime. Tan gallego como el gallego. Tanto monta, monta tanto. No Medúlio já eram bilingues. Alright, alright, but, please, just don’t throw the baby out with the bath water.

Pluringuismo

Vês? Ai estamos de acordo. É sabido que eu sou mais partidário dum modelo de imersão progressiva do que dum modelo de quotas, mas, bom, por enquanto, acepto toro de lidia como animal de compañia. O problema do pluringuismo é que é como tudo, que custa dinheiro.

O tema começou com o alento profundo do diga 33. O corpo docente estremeceu-se. Du calme, vai ser voluntário. Bem pensado, melhor deixa-lo para dentro de oito ou dez anos, a ver se para daquela já morreu o conto da austeridá. Por enquanto, recuemos cara o pérfido e ensimesmado fifty-fifty da imposição, que tão mau era e que, segundo a Voz e o Faro, tanta convulsão social causara.

Bossa nova

Foi o nosso presidente a Portugal e, como todos os presidentes que o precederam, prometeu que os galegos havíamos apreender português, como na Estremadura espanhola. Outro conto. Érase una vez, em tempos remotíssimos (nos anos oitenta), moravam num antigo reino chamado Galiza uns professores que desejavam dar aulas em português e foram obrigados a desistir pola força das leis, e muitos foram expedientados e alguns até expulsos. E, digo eu, se calhar era hora dar libertaz, libertaz, libertaz aos coagidos e de readmitir os expulsos.

Assim já tínhamos plurilinguismo servido sem investir um chavo em formação. Para além de que Feijóo teria-se destarte convertido no primeiro presidente galego em manter a palavra dada a dignitários portugueses e brasileiros.

Por que não deixamos os mestres escolher entre português e inglês? Puf, se calhar já havia ser demasiada liberdade de nuestro señor.

 

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