A ideologia contra o sentidinho



PRELÚDIOfronteiragalizaportugal

Antes de marchar de férias em Junho prometi escrever um artigo. O tema era analisar a conveniência de uma massa crítica de galegos declararmos-nos minoria portuguesa na Espanha.

A verdade é que não consigo. Não consigo. Não sei nem por onde começar. Se calhar é porque o percurso que me levou a essa conceber essa estratégia como possibilidade viável foi demasiado longo e tortuoso para ser explicado em poucas palavras. Se calhar é porque o meu pensamento ainda não teve tempo de se decantar, de se estruturar. Ultimamente parece não decantar-se nunca. É um alvo em movimento. Tenho virado, como diz a cantiguinha, uma metamorfose ambulante. Se calhar, por último, é simplesmente porque é uma parvada, uma má ideia…

Desde que voltei à Galiza desde Rússia há quase um ano estou com vontade de ir embora. De voltar ao exílio, lá onde a doma e castração não me alcance. Sinto-me como Frodo quando volta de destruir o anel no vulcão de Mordor e diz para Sam, a modo de justificativo da sua vontade de navegar para as costas do além com os elfos: Salvamos o Shire, mas não para mim, não para mim. Eu já não sou daqui. Nem de sítio nenhum. Não pertenço. Sou nómada. Eis a minha “identidade”, o que quer que isso venha sendo. Isto nem é uma escolha, é um diagnóstico.

O meu galeguismo sentimental abrolhou na minha primeira infância, influído pelo crego da minha paróquia, teólogo da libertação e ativista do PSG de Beiras. Organizava meetings do partido no local paroquial e rematou por fazer-se expulsar, que diriam os franceses, e casar em Madrid. Mas agora há outro que tal baila. A minha paróquia natal, no Ferrol operário, semelha ser uma sorte de purgatório para cregos dissidentes.

Depois, já o meu galeguismo político deve-lhe muito a A Nosa Terra, que na altura era a folha paroquial do Bloco. Como seria hoje o Nós Diario, mas com uma diferença fulcral, para além do design, o Nós Diario representa fundamentalmente os valores da esquerda pós-moderna, versão espanhola, porquanto A Nosa Terra brigava ainda, desde aquele pretenso materialismo dialético, contra esse pós-modernismo hoje hegemónico.

Bom, o tema é que, em definitiva, hoje superei isso tudo como superei o sarampelo. Superei o sentimentalismo e o identitarismo. Hoje acho que a ideologia é a filha bastarda da religião e que o galeguismo que renasceu durante o franquismo está enganado em quase tudo. Dessa esquerda pós-moderna supersticiosa e totalitária já nem falar, que venho de comer o pequeno-almoço e não quero que me faça mal.

Há uns meses criei um site, sentidinho.eu, para ver de nuclear um novo galeguismo mais parecido com o povo galego. Coronavirus made me do it, mas acho que dei no cravo. Por que é que acho isso? Pois porque nenhum galeguista se interessou pelo tema. Acham descafeinado. Sem sentido. Porém, entre a gente do comum “não politizada” sim que teve uma boa acolhida. Deduzo logo que, se as fábulas de Iriarte destilam qualquer sabedoria, bem poderia ser esse o bom caminho.

Há uns meses criei um site, sentidinho.eu, para ver de nuclear um novo galeguismo mais parecido com o povo galego. Coronavirus made me do it, mas acho que dei no cravo. Por que é que acho isso? Pois porque nenhum galeguista se interessou pelo tema. Acham descafeinado. Sem sentido. Porém, entre a gente do comum “não politizada” sim que teve uma boa acolhida. Deduzo logo que, se as fábulas de Iriarte destilam qualquer sabedoria, bem poderia ser esse o bom caminho.

O povo galego, como toda comunidade rural não adulterada (leiam L’Arrache-cœur), é eminentemente materialista, pragmático, empirista e positivista. A vaquinha pelo que vale. Por isso o fanatismo religioso das esquerdas galega e espanhola não conecta connosco. A mim enganaram-me um tempo, mas…

A forma mais elevada desse materialismo, pragmatismo, empirismo e positivismo, chama-se, por muito que lhes doa a alguns, ciência. Não por acaso foi Portugal, nomeadamente a Academia das Ciências de Lisboa, o precursor disso na Europa, embora seriam os países protestantes quem a desenvolveriam até as suas mais refinadas expressões. No entanto, Portugal era neutralizado pelo Vaticano e a sua carne para canhão reacionária, o Império Castelhano com as suas dinastias sempre forasteiras.

Mas Portugal está, de maneira muito decidida, a retornar ao seu natural e se calhar era tempo para nós, os galegos, voltarmos também a esse ronsel Atlântico do que fomos brutalmente amputados de maneira muito precoce. Ou talvez já estamos traumatizados demais e é já tarde…

REINTEGRATAS

Não sei se este preludio esclareceu alguma cousa ou ainda acrescentou mas confusão a respeito de quais foram as minhas teimas ao longo dos últimos anos a respeito das estratégias reintegracionistas.

Transversalidade. O reintegracionismo deve apresentar-se como um movimento transversal desligado do nacionalismo político e de qualquer outra ideologia (qualquer) pois é portador duma value proposition que é muito positiva e conveniente para o conjunto do povo galego. Não devemos cair na tentação de fazer “pacotes” do tipo “ou tudo ou nada”.

Pragmatismo. A estratégia do reintegracionismo até tempos recentes estava muito ligada ao identitarismo galeguista e consistia em convencer o povo galego de que fala português e, portanto, deve escrever doutra maneira. Esta aproximação missionária resultou ser um lastro ineficiente. Na verdade, qualquer caminho que conduza ao contacto dos galegos com a língua portuguesa é bom. Já for o binormativismo e/ou a introdução do português como língua “estrangeira”. Cumpre priorizar a que for mais viável em cada momento, ou todas a um tempo. Fazendo pedagogia desde a racionalidade pura (incluídos fatores economicistas, embora a alguns lhes produzam urticária) e sem essencialismos.

Diplomacia. Os galegos somos feirantes. Quem regateia desde uma posição de inferioridade tem de ceder alguma cousa para ganhar alguma cousa. Tudo avanço substancial no bom sentido bem-vindo seja. As cousas estão a mudar e tem muito pessoal que está a querer mudar. Se os ofendemos, se os tratamos de inimigos ou de traidores e os pomos contra as cordas, não estaremos a deixar que a mudança de produza. A nossa olhada deve estar sempre no futuro, no horizonte, no que podemos ganhar e em como podemos acelerar e maximizar esse ganho. Devemos, não esquecer, mas sim deixar de estar sempre a reparar, quem disse tal ou quem fez qual. É mais efetivo focar o discurso nos passos positivos, isso é o que vai catalisar a transição. Difundir a ideia implícita de que a tal transição é um facto irreversível e que muitos estão já a aderir, para que ninguém queria ficar fora. Ponte de prata.

A SOLUÇÃO FINAL

Desculpem a frivolidade retranqueira. Mas tencionava sublinhar o facto de que esta proposta não é para agora. É para quando achemos que tudo está perdido. Se calhar a próxima geração.

Está baseada no pragmatismo extremo, não há ideologia de qualquer tipo nem tenciona construir uma identidade nem um estado. Trata-se simplesmente de instar aos organismos internacionais a que obriguem o Reino da Espanha a respeitar os direitos humanos. Neste caso os nossos.

A solução está baseada no pragmatismo extremo, não há ideologia de qualquer tipo nem tenciona construir uma identidade nem um estado. Trata-se simplesmente de instar aos organismos internacionais a que obriguem o Reino da Espanha a respeitar os direitos humanos. Neste caso os nossos.

Para mais, é uma proposta extremamente arriscada e audaciosa que racha com toda a tradição galeguista e reintegracionista. Numa primeira leitura, vai até parecer delírio. Se alguns optarmos por esse percurso numa determinada altura, seremos nós a ser considerados inimigos e traidores. Por todos. Não tenhamos dúvida. O escárnio e repressão poderiam ser brutais.

Não faz falta dizer que, vier acontecer o que vier acontecer, também deve ser sempre escrupulosamente pacífica. Gandhiana.

Cumpre acrescentar aliás que, se alguma vez a proposta chega a ser apresentada internacionalmente, teria que ser absolutamente coerente, sem nuances e sem fissuras. Tem de ser e parecer genuína e legítima e não uma simples tática maquiavélica para avançarmos um projeto “nacional” para a Galiza.

De facto, a Galiza e “os galegos” ficam fora da equação completamente. Já não se trata de convencê-los e de levá-los ao rego. Não é uma projeto para todos. Não é um projeto para a Galiza. É um projeto de sobrevivência duma minoria num entorno hostil.

Na verdade, nem sequer estaria geograficamente restringido às quatro províncias galegas. Qualquer um poderia aderir. A adscrição ao censo seria puramente voluntária, por auto-identificação.

Como avancei acima, a ideia seria juntar uma massa crítica, uns poucos milhares, e declararmo-nos minoria (étnica) portuguesa no Reino da Espanha.

O termo “étnica”, sou consciente, é incómodo e absurdo mas provavelmente (provavelmente) tenha de ser assim para sermos perfeitamente coerentes e podermos invocar os precedentes legais internacionais.

Os factos são claros e, fora do contexto político espanhol, indisputáveis: Somos cidadãos do Reino da Espanha, nascidos nesse reino, falamos português (muitos desde o berço), todos ou quase todos os nossos ancestrais também nasceram nesse reino e também falaram português desde o berço. Podemos remontar-nos a tempos históricos muito anteriores à criação desse reino, sejam quais for os critérios historicistas empregues para estabelecer a data da constituição do Reino da Espanha como estado.

Assim sendo, onde estão os nossos direitos como minoria portuguesa na Espanha?

Já não seria um problema regional espanhol, como é agora, ultrapassaria essa condição de “conflito interno” para virar uma questão de dimensão internacional.

Fazendo bem as cousas, e cumpre sermos muito cautelosos e atuar com inteligência, ainda sendo muitos poucos podemos conseguir infantários, escolas, liceus, uma universidade, meios de comunicação…

Sem convencer ninguém, sem ir contra ninguém e sem desafiarmos o status quo político e institucional. Sem esperar a que baixe do céu o Espírito Santo da “consciência nacional”. Amanhã mesmo.

O que achais?

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
Edelmiro Momám

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  • Miguel-Anxo Varela

    Eu concordo ao 100%

  • Paulo Fernandes Mirás

    Tenho falado nalgum vídeo sobre essa transversalidade tão necessária, pois a língua é de todos e para todos, indiferentemente da ideologia. São horas de lutar pela língua desde todos os ângulos.

  • Not a Troll

    Parabéns Miro. Eu estou a morar e trabalhar fora do pais e neste momento, se olhar para a Galiza de longe, partilho 100% o escrito.

    Tenho refletido de quando em vez no estado da Galiza e da nossa língua e realmente acho que caminhamos cara uma minorização total ao jeito irlandês ou, na melhor das hipóteses, ao jeito do Pais de Gales ou da Valência espanhola.

    Há tempo que tirei à conclusão de que o melhor remédio é umha sorte de “autodeterminação interna” dos galegofalantes, umha “distinção” a respeito do resto de galegos de nós que mantemos a nossa língua -e quiçã com ela certo sentimento nacional ou o que for- e desejamos deixá-la para os nossos descendentes. E a partir daí organizar-se e reconstruir o pais com instituções de nosso.

    O primeiro exemplo e a primeira pedra acho que são as escolas semente que muita gente corajosa está a erguer ao longo do pais. Eu tenho as minhas reservas com o projeto e acho que certas cousas deviam ser feitas doutra maneira mas, mesmo assim, procuro dar dinheiro via quota AGAL ou quando é requerido para projetos específicos, porque é isso melhor do que o nada. Esse “espírito semente” devia ser implementado em muitos outros ámbitos da nossa vida: o familiar, o vizinhal, o profissional, o cultural, etc… e tecermos uma rede para nos proteger.

    E acho nomeadamente importantes essas 3 notas de transversalidade, diplomacia e pragmatismo às quais apontas: se figermos um projeto galego pensado para nós, os galegofalantes, e aberto ao resto de galegos podemos restaurar muito pais e deixar de sentir-nos, muitas vezes, estrangeiros na própria terra. Nós não vamos ver o final do caminho mas podemos deixá-lo encetado para quem vinher atrás de nós.

    O de sermos “minoria étnica portuguesa” pode ser estudado como estratégia, mas esse precisamente é o velho medo espanhol (e castelhano) a respeito da Galiza.

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      Muito interessante, bem agradável e acho que no melhor dos caminhos.


      uma cousa que fica totalmente ausente de qualquer pesquisa histórica a
      se fazer por estes nossos lares, e é a duríssima guerra sofrida polo
      nosso povo, chamada de Doma e Castração, (na que andamos), fomos domados
      e capados e isso é algo do que não gostam os que nos submeteram, o de
      sermos cientes.
      Mas além disso há outra questão nessa guerra
      terrorista que sofremos. Não foi por sermos na Galiza defensores da
      legitimidade da rainha Joana, isso era algo que também castelhanos
      defensavam.
      Qual era a aspiração do povo galego e as suas elites na altura, fora de Compostela, que cousa era a que se reclamava…
      Pois
      muito simples a unificação do reino com o de Portugal…Isso era contra
      o que fazia guerra Castela. E isso vai contra a nossa visão de galegos
      hodiernos, que é a afirmação de sermos um subconjunto do estado espanha,
      não inteligível fora dos marcos administrativos e territoriais impostos
      por Castela. Cousa que não toca nem mexe o nacionalismo, a pesar dum
      Castelão ser o santo padrão ideológico.
      Por isso afirmarmos sermos
      falantes do português (e portugueses mesmo) é a mais poderosa alavanca
      de mover os pesados penedos que cingem nosso cortelho

  • Venâncio

    “O que achais?”

    Eu, por mim, fartei-me de rir. De felicidade. O texto do Miro vem enriquecer a minha já muito opulenta colecção de castelhanismos, de pseudo-lusismos, de hiper-lusismos.

    Diz esta proposta que a língua da pequena prole é o português. Ná, não sei que nome dar-lhe, mas a língua dos portugueses não é. E, como a língua seria o elemento distintivo (!!) da nova grei, teria de arranjar-se-lhe qualquer outro nome também. Adequado, se possível.

    Mas tenho uma péssíma notícia para o autor.

    A Academia das Ciências de Lisboa (de que, de resto, sou membro) não é a predecessora de nada no cenário europeu, muito menos mundial. É, compreensivelmente, uma cópia da já então potentíssima Académie Française.

    A nossa ACL foi fundada em 1779, num período em que a “ciência” portuguesa estava repassada de francesismo, no melhor sentido. Não se esqueça que a “Encyclopédie” de Diderot (publicada de 1751 a 1772) vinha já conquistado a Europa.

    Moral da história: quando inventares, caro Miro, inventa melhor.

    E um último conselho. Não te metas a este tipo de façanhas. Ele está muito, mas muito, acima das tuas forças. Tudo o que consegues é aumentar ainda mais o “ruído” em que o Reinegracionismo galego anda mergulhado.

    Abraços.

  • Venâncio

    Sr. Miro Moman,

    Espero que não estejamos a deslizar para a incapacidade de contacto.

    • Venâncio

      Mas eu poupo-o ao esforço de responder.

      Existe, sim, um indesmentível fanatismo neste meu interesse, já de decénios, por certo grupo microscópico galego, guiado por charlatães, que gastam muito cuspe falando de “língua”, fazendo sobre ela proposta atrás de proposta, sem que se perceba de que eles falam.

      Há uns 15 anos, certo sociolinguista (Cáccamo? Herrero?) afirmou aqui que eu, neste interesse por vós, denunciava um olhar (limitado, claro) de entomologista, o estudioso de insectos. Se calhar é a isso que chamas “fanatismo”.

    • Miro Moman

      Fernando, tenho muitos projetos entre as mãos. Cousas sérias com implicações para o bem-estar das pessoas. Pandemias e isso…

      Gosto muito de filosofar e de bater o papo, mas, simplesmente não tenho tempo.

      Olha, as línguas são criaturas extremamente promíscuas. Sempre foram e sempre hão ser. O puritanismo é fútil.

      Get over it.

      • Venâncio

        Lê então o cap. 7, “O português, língua promíscua”, do meu livro.

        A obrinha está desde há 10 meses à venda na Galiza.

  • Bing Pit-su

    Sou leitor do PGL há quase 20 anos e nunca antes tinha comentado uma publicação, mas quero fazê-lo hoje para agradecer ao autor que tenha posto por escrito o que muitos pensamos. Sempre li os artigos do Sr. Momám com interesse, e embora nem sempre concorde em tudo, aprecio muito o seu espírito independente. Mas neste caso o que ele fez é um ato de valentia quase suicida: pensar até as últimas consequências o processo de extinção da Galiza e o que ele significa para nós.

    Concordo também com o que observa “Not a Troll” no seu comentário. Como ele, e como o autor do artigo, há anos que moro fora da Galiza: “lá onde a doma e castração não [nos alcança]”, o que ajuda a perceber algumas cousas. E, como eles, tenho constatado que o problema, nesta altura, é como garantir “a sobrevivência duma minoria num entorno hostil”; “autodeterminação interna”, como disse o “Not a Troll”.

    Para quem estiver familiarizado com a situação das minorias étnicas e nacionais na Europa, é evidente que a solução proposta pelo Miro é a mais lógica. Que ela seja uma heresia para os nacionalismos galego, espanhol e português não muda isso.

    E não, provavelmente a língua que falamos e escrevemos não seja “língua de portugueses”, e talvez não seja nunca reconhecida como tal em Portugal. Mas não estamos a falar em ontologia. Estamos é a procurar soluções para podermos viver com uma mínima aparência de normalidade numa sociedade maioritariamente assimilada, talvez de forma irreversível.

    Por sinal, a maioria dos alemães também não reconhece a fala das minorias alemãs da Polónia ou da Roménia como alemão. Richard Wagner, o primeiro marido da Herta Müller e também escritor, tem contado como, quando chegaram à República Federal em 1985, a futura prémio Nobel era frequentemente parabenizada pelo seu bom alemão, como se não fosse a sua língua materna; obviamente, o que eles falavam era uma variante arcaica, dialetal e com forte influência do romeno. Os alemães da Silésia também são percebidos na Alemanha como polacos, pois para além de falarem em muitos casos um alemão deficiente, os seus nomes foram polonizados nos documentos oficiais.

    Porém, os alemães da Silésia e da Roménia têm o status legal de minorias nacionais (como os dinamarqueses em Schleswig-Holstein, os suecos na Finlândia, etc.), com todas as consequências que isso tem para o exercício dos seus direitos. É disso que o Miro está a falar, se percebi bem, e não de se o que falamos os galegos ou os reintegracionistas coincide ou não com o que os portugueses chamam de português.

    • Miro Moman

      Autodeterminação interna é a expressão justa. Obrigado.

      Até agora estivemos no jusqu’ici tout va bien. Mas acho que é o momento de começar a enfrentar a realidade..

    • Miro Moman

      Sim, eu tenho muitos conhecidos e até parentes que fazem parte desses mosaicos.

      Húngaros de Eslováquia, saxões magiarófonos da Romênia, saxões germanófonos da Romênia plantados em Eslováquia, suecos de Finlândia, russos de Ucrânia, etc.

  • Venâncio

    É incrível, mas imensamente visível, o DESINTERESSE com que tu, sistematicamente, reages ao que eu aqui digo.

    Mas não estás sozinho. O actual presidente da AGAL fez o mesmo comigo no Facebook.

    O reintegracionismo galego, que não possui um só linguista, isto é, fundamentalmente um gramático (alguém que expõe o funcionamento dos idiomas), mostra também o maior desprezo por qualquer informação linguística.

    Mas se calhar o parvo sou eu, que vos imagino interessados no tema, quando não sois mais que “activistas”, não se percebendo sequer em quê.

    • Miro Moman

      É que estar a debater sobre o sexo dos anjinhos quando o que está em jogo é o porvir… Honestamente…

      • Venâncio

        Exacto!

        A tua sinceridade é deveras desarmante. O idioma que usas é-te perfeitamente indiferente. Como o “sexo dos anjos”.

        Admite então, duma vez por todas, que, quando falas de “língua”, o fazes na qualidade de charlatão.

        Nada contra os charlatães. Importa, sim, que se assumam.

        • Miro Moman

          O que admira Fernando é que leves vinte anos “entre nós” mostrando uma total carência de sensibilidade e empatia e ainda haja pessoal que fale contigo.

          Faz-me este teste se tiveres a amabilidade:

          http://rdos.net/eng/Aspie-quiz.php

        • Miro Moman

          Finalmente, língua é uma categoria arbitrária, uma convenção abstracta. Não é que não me preocupe com a língua, é com os limites arbitrários que um ou outro querem estabelecer que não me preocupo. Não todos podemos partilhar as mesmas obsessões.

          • Venâncio

            Porra, caralho!

            O meu livro “Assim nasceu uma língua” (5.000 exemplares vendidos em Portugal e Galiza) é, da primeira à última das suas 300 páginas, um Hino de Amor à Língua dos galegos. Só o amigo Joám Facal se apercebeu disso.

            E vens tu com essa “falta de empatia”. Vai-te foder, idiota.

  • Miro Moman

    Há ainda outro aspecto no que não quis entrar para dosificar um pouco o shock: Na verdade o facto das quatro províncias espanholas terem ficado com o nome histórico de Galiza/Galícia não deixa de ser anecdótico.

    Hoje o Norte de Portugal é bem mais galego do que a Galiza espanhola.

    Os mesmos que acharão esta afirmação aberrante, não têm problema em falar de “Iparralde” ou dos “Països Catalans”. O qual mostra unicamente até que ponto somos burros os galegos.

  • Venâncio

    Tu não és sério.

    Inventaste essa da Academia das Ciências de Lisboa, eu mostrei como estavas a inventar… e nem uma palavra tua mais a esse respeito.

    És um charlatão de todo o tamanho.

    • Not a Troll

      Fernando: acô na Galiza ninguém lhe deve nada.

      Não temos de nos interessar mais polas opiniões do senhor do que polas de qualquer outra pessoa. Na Galiza, o problema que temos não é que o Miro chame de “português” ao galego num site da internete, que os reintegracionistas não tenhamos percebido que o português moderno foi criado por oposição às falas nortenhas, suspeitas de galegas; ou que tenhamos uma visão errada a respeito de Portugal.

      O problema, Sr. Venâncio, é que estamos a ser desnaturalizados e estamos a perder o jeito de falar, e até de ser da nossa gente, face ao abafante castelhano. Acô só estamos a procurar respostas e soluções para o evitar. Lamento dizer que durante todo o tempo que levo a me interessar por estas cousinhas, só lembro protestos, laios e negatividade de parte do senhor. Considera que é ignorado na Galiza e o reintegracionismo não partilha a sua particular visão do mundo, da Galiza e da nossa lingua? Tough luck, amiguinho.

      Como lhe di o Miro: get over it. E como dizemos na Galiza: não dê mais a vara caro Professor, hai que ir morrendo.

      • Venâncio

        Get a life, Trollinho. Sim, também tenho direito a algum inglês.

        Olha, és um pateta, quem quer que sejas, mulher ou homem, carne e osso ou robot. Reduzires as minhas intervenções a “opiniões” minhas… Francamente, Trolllinha!

        Eu sou um linguista, com uma pena imensa de não ser um neurólogo ou um astrofísico. Linguista, portanto. Coisa que tu não sabes o que é. Porque a ti, reintegracionista galego tipo, a língua, a materialidade do idioma, sempre te interessou a ponta dum chavelho.

        Dizes tu que, da minha parte, só achaste até hoje “protestos, laios, negatividade”…

        É porque desconheces um livrinho que, a vosso respeito, galegos, só diz coisas bonitas. Talvez não saibas, mas, por causa desse mesmo livrinho, existe, hoje, um número crescente de portugueses e brasileiros interessados em vós, e inclusivamente em aprenderem galego, dás-te conta, Trollinho!?

        Dizes também que, na Galiza, ninguém me deve nada… Exacto. Nada. Nadinha. Eu fi-lo sempre, e vou continuar a fazê-lo, por amor à camisola. Mas assim é que a vida vale a pena.

        Get a life too, Trollinha.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito interessante, bem agradável e acho que no melhor dis caminhos.

    Há uma cousa que fica totalmente ausente de qualquer pesquisa histórica a se fazer por estes nossos lares, e é a duríssima guerra sofrida polo nosso povo, chamada de Doma e Castração, fomos domados e capados e isso é algo do que não gostam os que nos submeteram, o de sermos cientes. Mas além disso há outra questão que ontem me lembrava um velho amigo: Qual era a aspiração do povo galego e as suas elites na altura, fora de Compostela, que cousa era a que se reclamava…Pois muito simples a unificação do reino com o de Portugal…Isso era contra o que fazia guerra Castela. E isso diz-me o amigo, vai contra a nossa visão de galegos, que é a afirmação de sermos um subconjunto do estado espanha, não inteligível fora dos marcos administrativos e territoriais impostos por Castela, e que não toca nem mexe o nacionalismo, a pesar dum Castelão ser o santo padrão ideológico.

  • Paul

    Sem querer alimentar guerras, parece-me que a lógica está invertida: os Portugueses é que são Galegos, e não ao contrário.

    A Universidade de Harvard realizou uma grande campanha de testes genéticos na população do Reino da Espanha, para determinar se havia agrupamentos genéticos por regiões ou autonomias. O que descobriram é que os agrupamentos genéticos na península são coincidentes com o processo conhecido como reconquista e que os ibéricos modernos são descendentes dos grupos étnicos do norte da península que repovoaram o sul. Os portugueses não faziam parte dos planos de testes iniciais, mas ao verem os primeiros resultados, decidiram testar alguns portugueses e o resultado foi que… os portugueses são galegos.

    https://i.ibb.co/j4yPfs4/Xen-tica-Portugalegos.png

    Segundo o estudo, os grupos genético-linguísticos da peninsula são:

    – Galego-Portugueses
    – Astur-Leoneses
    – Castelhanos
    – Bascos
    – Aragoneses-Valencianos
    – Catalães-Baleáricos

    O romanço ibérico ocidental nasceu no noroeste peninsular e não na província romana da Lusitania, cuja capital era em Mérida.

    O que aconteceu foi que houve um processo de substituição linguística em que o castelhano começou a ocupar todo o espaço do peninsular, processo que continua até hoje, restando apenas alguns territórios resistentes no norte da península (Astúrias, norte de Aragão, etc), precisamente os locais originais (heimat) dos grupos étnicos que deram origem à reconquista e às línguas. A excepção é o galego, pois a zona centro (condado de Portugal) e sul (condado de Coimbra) dos territórios onde a língua era falada tornou-se independente e livrou-se do projecto do reino (castelhano) de España.

    Os portugueses, como galegos que eram/são, tentaram várias vezes recuperar a parte do seu heimat que tinha “ficado para trás”, o território que continuou com o nome “Galiza”. Mas após a última tentativa (quase bem sucedida) de Fernando I, último rei português da Galiza, os Portugueses viraram definitivamente as costas à península e passaram a olhar para o Atlântico. Esta viragem e consequente rejeição do projeto (castelhano) de unificação peninsular precisava de uma nova mitologia que os afastasse daquela lógica. A nova auto-designação como “Lusitanos” serviu esse propósito.

    A própria Ordem dos Engenheiros de Portugal, na sua revista oficial “Ingenium”, publicou um artigo sobre a história de Portugal onde fica claro que este país é o estado soberano moderno descendente do Reino Suevo da Galiza (mistura de celtas mal romanizados com germânicos mal romanizados) e que a história de Portugal não começa com D. Afonso Henriques nem tem nada que ver (politicamente) com a província do império romano conhecida como Lusitania. Basta procurar por “Portugal e o Reino dos Suevos (409 a 585 AD)”. É a revista número 145 disponível gratuitamente no website deles.

    A estratégia descrita no artigo vai dar origem a uma brutal reacção do nacionalismo castelhano/espanhol e também do nacionalismo galego. Mas uma coisa é certa, se alguma coisa vai “acordar” os portugueses para a “Questão Galega” e voltar a virá-los para a península, com todo o tipo de consequências que daí advirão, é uma estratégia deste género.

    Que grande Caixa de Pandora que vocês se estão a preparar para abrir…

    • Venâncio

      Interessante, Paul. Só um pequeno aditamento.

      Um estudo levado a cabo, nos anos de 1990, pela Universidade de Coimbra (li-o na revista do Expresso) conduziu a esta inesperada descoberta: a maior concentração de material genético feminino berbere em toda a Península acha-se… na Galiza.

      Os geneticistas estavam, pois, perante um imenso enigma. Até que os historiadores lhes recordaram que os “reconquistadores” galegos levaram para a Galiza um enorrne contingente de mulheres meridionais, predominantemente berberes, primeiro como escravas, depois como esposas.

      E, de facto, basta olharmos à nossa volta, na Galiza, para vermos a quantidade de mulheres de cabelo preto, tipo pequeno, em contraste com as minhotas altas e louras, de ascendência germânica.

      Por outras palavras: quando se assesta o microscópio, matiza-se a nossa visão. ‘Galegos’, os portugueses, ma non troppo.

    • Miro Moman

      Caro Paul. Levas razão em tudo quanto explicas. Porém, a proposta é meramente estratégica. Não importa tanto a realidade dos factos quanto criar um caso jurídico assentado nos precedentes. O importante, portanto, é estabelecermos paralelismos com as interpretações convencionais desde tipo de fenômenos. O rigor histórico é secundário.

      O que existe hoje é um estado português. Então, a única maneira de dar uma dimensão internacional ao conflito é declararmo-nos nós portugueses. Afirmar que é eles que são galegos, embora historicamente verídico, não adiantaria nada.

  • Venâncio

    Eis a minha discreta colaboração na “internacionalização” do “caso jurídico” do mitólogo, perdão, do tudólogo Miro.

    https://www.facebook.com/fmvenancio/posts/2971763886206017?comment_id=2971778449537894&notif_id=1594574099800366&notif_t=feed_comment

    • Miro Moman

      É triste a vida do troll…

      E mais triste ainda é ser absolutamente incapaz de compreender, até sem concordar, a perspectiva do outrem.

      É a solidão absoluta.

      Tenho mágoa de ti.

      • Venâncio

        Miro, eu compreendo a tua aflição.

        Desejarias estar à vontade em terreno linguístico, mas ele é para ti um autêntico labirinto. Era o que me sucederia a mim, caso tivesse a pretensão de estar informado em astrofísica.

        Mas olha, existem por aí umas boas “Introduções à linguística” e até, felicidade suprema, uma “Introdução à história do português”, assunto que patentemente te interessa.

        Em suma: é questão de aceitarmos os limites da nossa informação. Os teus, em matéria linguística, são mesmo muito apertados.

        Acontece aos melhores, acredita.

        Fica bem.

        • Ernesto Vazquez Souza

          Fernando, o Miro é químico… doutor em química, e a sua analítica adoita ser dessas combinatórias e experimentais…

          Lembro ainda num blogue seu já velho uma série de experiências para fazer um caldo de grelos quando não dispões de grelos… substituindo os nossos cimões por outros equilíbrios vegetais e de temperos…

          aí ganhou plenamente a minha admiração… imagine agora o que faria com a língua sem galego ou com a Galiza sem galegos…

          • Venâncio

            Ernesto,

            Sabes qual é a má sina do linguista? É tomar à letra tudo quanto lhe aparece na frente. Verifico que foi o meu caso perante o Miro.

            Era, pois, uma intervenção lúdica, a dele. O Christo envolvia monumentos em panos. O Miro emvolve um país inteiro… em fantasias.

            Obrigado por me abrires os olhos. Eu continuo a não ver nada. Mas percebo, agora, que era essa a intenção.

            Abraços.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Nós sempre somos lúdicos e abertos… é como quando fala com o Pichel ou comigo… somos ainda da velha raça… XD

            é como ontem quando Feijó acaparava os focos de todas as TVs e média espanhóis baixando as escadas como se fosse a mesmíssima Gloria Sawson no Sunset Boulevard… e tudo para dizer 5 minutos depois que aprendam na Espanha a ser galegos se querem… (que nós votamos à portuguesa…) XD

          • Ernesto Vazquez Souza

            Por acaso… venho de ver o seu diálogo com ele no artigo do Pichel… ele bem que o avisara :

            XD XD XD

            ” Escrevi mais um artigo. Poderia vir ser publicado hoje neste portal. Recomendo seja lido com galeguice: relativismo e sentido do humor. Do contrário poderia resultar pernicioso para a saúde.

            Saúde pois!”

          • Miro Moman

            Fazendo o balanço dos seus 30 anos a maçar nos reintegratas, qual foi o seu maior logro? Que a AGAL aderisse ao AO. Tempo de mudar de estratégia?

          • Ernesto Vazquez Souza

            Já… eu bem que trato de o fazer entrar em razão… mas não acho jeito…

            Afinal convenci-me que o que dele venha é bom. Sabe muitas cousas, tem razão nalgumas que se podem aproveitar e fala muito bem.

            E afinal, que lhe queres… fazermos que outros entrem nas nossas guerras de castros, druidas e clãs… com sentidinho, sabendo de quem vem sendo quem…e relativismo por diante… é pedir de mais…

            Saúde

        • Miro Moman

          Fernando, a linguística é ideologia, não ciência, portanto, não me interessa.

          Mas a questão não é essa. O triste destes debates é que uma pessoa interessante e valiosa como tu decida esbanjar a sua vida na frustração, a toxicidade e a destrutividade em troques de contribuir em positivo.

          Eu posso dizer muitas asneiras, mas a minha intenção é sempre a de achegar soluções aos problemas.

          Até quando trolleio, normalmente faço-o com no intuito de provocar o pessoal para pensarmos além dos limites do convencional. Não para descorajar e humilhar.

          Convido-o a repensar de que maneira quer investir o que fique da sua vida.

          Se a tentar neutralizar o reintegracionismo galego com a sua toxicidade (vai fracassar) ou contribuindo em positivo com alguma cousa útil para a humanidade.

          Deixo o “debate’.

          • Venâncio

            Miro, tu falas por slogans, já reparaste? És um fala-barato. Nunca respondes ao que digo. Avanças com nova retórica. É o que chamamos ‘desconversar’. Fica na tua… É aliás tudo o que sabes fazer.

  • Joám Lopes Facal

    Para apurar um bocadinho mais a “solução final”, por que nom aderirmos à nacionalidade cantonesa e dar por bom aquilo de: “en cuestión de desatinos no hay como los gallegos y los chinos”?

    • Ernesto Vazquez Souza

      estratégias chinesas sempre foram boas… a minha mulher diz sempre que começou a perceber que não entendia os galegos depois de passar um ano em Hong-kong e observar os chineses jogando ao baralho… 😉

  • Ernesto Vazquez Souza

    Magnífico Miro, mas nada de dramas e tempo ao tempo… se há que chegar a isso, pois chegaremos na hora certa…

    O Perigo português é carta que vem de fábrica no nosso baralho…

    De qualquer jeito já a partir do momento em que Portugal foram reino, é uma solução que individualmente têm tomado incontáveis galegos… emigração, exílio temporal ou total… já há uma minoria galega quando menos tão grande como a Santa companha que figura no Alba de Glória… e hoje também… portanto assumi-la como proposta coletiva… não parece cousa de tanta dificuldade…

    se o rei de Castela non nos val
    iremos ao de Portugal…

    p.s. eu também ando sem tempo… mas acho que vou escrever algo a respeito da necessidade e vantagem valleinclanesca de escrevermos o português entre nós com castelhanismos galegos e outros itens identitários… 😉

  • Joám Lopes Facal

    Estamos reclusos na civilidade romana, é-nos alheia a ética protestante, e já, a distáncia sideral e inatingível, a mentalidade confuciana, reverencial com o poder e perpétua aspirante à harmonia social.

    • Ernesto Vazquez Souza

      isso é assim… mas nós ainda somos da velha raça… aprenderam-nos e depois experimentamos a base de paus e orelhas cortadas que há que saber com quem sefala e de quem vem sendo, qual a história, o tempo e a vida e que cumpre diferenciar quando se fala com um druida ou outro e quando é um juiz, ou com um abade de pago velho, quando é a um chieftain orgulhoso de espada ligeira e clã ou a um seanchai à deriva a quem nos dirigimos não falamos igual a um paisano que passava por aí que a um petrúcio ocupado na sua leira… 😉

  • José Luís Maceira

    Confesso que eu não acabei de entender bem o sentido da proposta deste artigo. Não sei se me parece uma utopia.
    Eu penso que, algum dia, se o Reintegracionismo quer que a sua mensagem chegue à sociedade, deverá considerar seriamente a necessidade de criar um ILGa ou um Institut d’Estudis Catalans próprio, constituído exclusivamente por técnicos linguistas, socio-linguistas e filólogos.
    É verdade que há muitos nas nossas fileiras (pelo menos tantos como no isolacionismo), e de grandíssima valia. Mas funcionam desorganizados, descombinados, cada um pelo seu lado… e o fruto do seu trabalho dilui-se, não é percebido na sociedade. Com um funcionamento conjunto, como um organismo científico, o Reintegracionismo deixaria de ser visto como um movimento de amadores utópicos e o efeito seria contundente, ao ser percepcionado como uma alternativa linguística real.

    • Ernesto Vazquez Souza

      homem… com dinheiros verias que logo se amanhava…

      • José Luís Maceira

        Francamente… penso que é mais um problema de falta de visão, falta de vontade e choque de egos que de dinheiros.

        • Ernesto Vazquez Souza

          Acho que não. O Institut d’Estudis nunca teria sido nada, nem a ortografia teriam unificado, nem marcado nenhuma linha cultural sem o poder social e político de gente como Prat de la Riba ou sem os Cambós…

          • José Luís Maceira

            Eu tenho uma opinião bem diferente. Não quero maçar mais ninguém, tentarei dizê-la em poucas palavras.
            Eu penso que em tempos já existiu um embrião de ILGa reintegracionista, era a Comissão Linguística da AGAL.Com o tempo podia ter chegado bem mais longe; mas era um exemplo de como, com limitados recursos e muita vontade, excelentes linguistas podiam chegar a produzir trabalhos de alta qualidade.
            Inexplicavelmente (eu não conheci de dentro essa época), não se deu mais revezamento ou continuidade a esse labor de codificação do Corpus da língua.
            Para mim, um erro maiúsculo.
            As consequências da paralisia atual nessa codificação são muitas e evidentes. Só por dizer uma: dificilmente podemos pretender um ‘binormatismo’ se o padrão que queremos apresentar aos galegos para se oficializar ainda está, em boa parte, para se construir, semi-caótico. Porque um padrão não é apenas um sistema ortográfico: o mais importante e difícil é a codificação do que vai dentro dele —a gramática e o léxico.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Bom… bastante de acordo… apenas acho que falamos de cousas diferentes ou de perspetivas…

            Por vezes as cousas são complicadas… e a gente não enxerga para além do seu nariz ou do momento no que se anda… faltou aí generosidade, tolerâncias e mirar longe horizontes abertos e não tão perto e arredor…

            Saúde

          • Joám Lopes Facal

            Estimado José Luís, a Comissom Lingüística da AGAL foi dissolvida na sequência do movimento de fuga ao paraíso pan-lusista decidido em 2016, que condenou à irreleváncia a investigaçom e estudo do galego e consagrou a transferência incondicionada destas matérias ao domínio da RAG.
            Perpetrado o disparate — que provocou a dolorosa cisom da AEG e a de umha mancheia de reputados membros da Comissom — ofereceu-se-lhe um armistício incondicional à RAG logo após como tributo de supremacia gratuitamente concedida.
            Tam arrogante e torpe decisom dividiu a família reintegracionista, brindou-lhe à RAG umha exclusividade glotopolítica imerecida e condenou AGAL a um rol de agência promotora do português padrom que já desempenha com plena competência a AGLP.
            Um péssimo negócio do meu ponto de vista, que este leal aderente à AGAL e à AEG nom pode por menos de lamentar e esquecer.
            Fique em todo o caso esta pequena testemunha.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Para mim que para além do acontecido… a maior das tragédias é ter ido fechando de urgência esses assuntos pendentes… fugir e fugir a debates que eram importantes e que era fundamental ter concluído e bem fechado antes de saltar de fase ou acometer novas empresas …

            Tenho sempre a impressão de que aí temos dessas feridas mal curadas tão perigosas… (daquelas cicatrizes sobrecerradas que tinham de velhas espadeiradas e que sempre terminavam por se abrirem nos esforços e matarem os melhores cavaleiros nos ciclos em prosa, nos romances de cavalaria e nos cantares…)

          • Eduardo Maragoto

            Obrigado polo teu comentário, José Luís. Como bem explicas, a AGAL empreendeu um caminho diferente nos últimos tempos, umha via que poderá parecer surpreendente para umha associaçom que defende umha norma alternativa à oficial para o galego, mas o certo é que, passados 4 anos, como imaginávamos, os resultados dessa decisom parecem-nos mui positivos, também para chegar a possibilitar um eventual futuro binormativista. Para já, a decisom de prescindir do nosso particular ILG-bis reduziu drasticamente as tensões entre -omistas e -ãoístas e multiplicou a ainda modesta incidência da AGAL no conjunto do movimento normalizador, facilitando a interlocuçom e colaboraçom da associaçom com qualquer ator cultural galego, reintegracionista ou nom. A AGAL deixou de ser a academia que defende umha norma fechada para passar a ser a associaçom que defende umha língua galego-portuguesa aberta.
            Porém, devo esclarecer que, embora renunciássemos a ser umha academia da língua, isso nom quer dizer que renunciássemos a propor para ela umha codificaçom: fizemo-lo primeiro com a norma descritiva (nom prescritiva) Ortografia Galega Moderna Confluente com o Português no Mundo, que mais tarde deu origem ao Conjugador Verbal do Dicionário Estraviz e ainda o continuamos a fazer diariamente no consultório linguístico @emgalego, que estes dias alcançou os 10.000 seguidores. Com estes instrumentos orientamos as pessoas para usarem a ortografia reintegrada, abstendo-nos de impor umha forma única às pessoas, como pretendiam as normas (prescritivas) anteriores. Orientar e nom impor é nos dias de hoje mais popular, eficaz e, o que ainda é mais importante, infinitamente mais rápido que ficar à espera do ditame de umha academia/comissom linguística qualquer em relaçom, ponhamos por caso, a qual é a palavra galega que corresponde à espanhola “brote”, como se viu estes dias num debate do twitter. A meu ver, um órgão académico pode ter algum sentido para redigir umhas normas ortográficas iniciais que funcionem simbolicamente como “constituiçom” da língua escrita e garantia da sua unidade, mas a partir daí (sem autoridade para impor os seus critérios) a sua intervençom no devir da língua é tam pequeno, e ao mesmo tempo origem de contínuos atritos, que nom vale a pena continuar a investir esforços nessa via.
            Em relaçom ao binormativismo, a norma descritiva Ortografia Galega Moderna está em melhores condições de passar a fazer parte de um par galego/galego-português que qualquer outra norma prescritiva, porque ela parte da inclusom de todo o reintegracionismo e nom da exclusom de umha parte, como outras que têm sido defendidas. Ao mesmo tempo, ela reconhece claramente que o galego é português e parece-me que só partindo dessa premissa (e nom pondo sobre a mesa normas que se excluem) poderemos pacificar o debate normativo e, ao mesmo tempo, chegar a ser um movimento interessante para o conjunto da sociedade galega. A Ortografia Galega Moderna tem sido criticada por demasiado aberta (semicaótica?). Eu nom o creio, mas em qualquer caso reconheço que ela nom é perfeita nem aspira a sê-lo. No relativo às línguas é difícil alcançar a perfeiçom, de maneira que é melhor conformar-se com o possível.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Eduardo… não “reduziu drasticamente as tensões entre -omistas e -ãoístas” o que fizemos foi reduzir os espaços, lugares de debates e evitar o confronto público…

            A tensão continua aí… e qualquer dia, quando menos interesse estoura…

            O único que conseguistes é botar de fora alguma gente incordiante… para que? para incorporar ao debate gente que há lhe que explicar tudo?

            Eu estou francamente desacougado na AGAL desde o debate que terminou por liquidar a CL. E cada dia gosto menos deste discurso possibilista…

            saúde

          • Eduardo Maragoto

            É o contrário, Ernesto. As tensões reduzírom-se a zero. Eu nom conheço nenhumha desde o ano 2016. Estou a falar de projetos em que colaboramos uns e outros, de ambiente de trabalho. Se conheces algumha tensom relacionada com a normativa que as pessoas usam, comunica-ma, por favor. Outra cousa é o debate teórico. Esse continua, obviamente, mas nom é um empecilho para que se desenvolvam projetos. Porém, devo dizer que, mesmo no relativo a esse debate que continua, ele limita-se a mui poucas pessoas, e em espaços mui determinados como este em que estamos.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Bom… eu tenho uma sensaçação diferente… Mas última vez que digo nada a respeito. Espero de coração que sejas tu quem ande no certo e não eu.

            Aperta

          • José Luís Maceira

            Eduardo, eu admiro bem o imenso valor do trabalho que estás a realizar (AGAL, Youtube, fala de Xálima…) e não tenho direito a criticar nada. Bem sei que é muito mais fácil criticar, da distância, que construir e dirigir.
            Dito isto com o melhor propósito, e depois de ler os últimos comentários —o teu e o do Facal— permaneço no estupor e no desasossego. Na minha mente, só surgem perguntas deste teor:
            –Estás a dizer que, a dia de hoje, não deveria existir mais uma NORMA GALEGA reintegrada, mas apenas uma carcaça ORTOGRÁFICA vazia de constructo linguístico? E que não se pretende mais completá-la com uma gramática e léxico claros? Que é bom deixar, tudo o que não for ortografia, à improvisação de cada quem? E que, entretanto, é bom permanecermos inanes enquanto o ILG-RAG não pára de completar a sua codificação? (porque é que será…?)
            —Estás a dizer que, por causa do (muito improvável) binormatismo, a Comissão da AGAL foi revezada… por um mero Consultório de dúvidas? De quem é composto? Temos modo de saber os seus critérios, não deveriam ser publicados? Será que têm verdadeiramente critérios…ou são improvisados pelo caminho? Já não serve, logo, aquele MODELO LEXICAL GALEGO (magnífico trabalho, a propósito) que arvoravas num vídeo?
            —E é com estas premissas (renúncia a construir uma NORMA GALEGA, reconvertendo-a para uma simples ORToGRAFIA)… que pretendemos conquistar adeptos do galego isolacionista para o Reintegracionismo? Ou convertermos hispanófonos para falantes da nossa língua? Ou despertarmos orgulho nos paleo-falantes para se manterem fiéis à língua? Como havemos de conseguir que estes três coletivos não nos vejam mais como um simples movimento de ativistas linguísticos… sem uma base séria por trás?
            — E estamos a sacrificar isto tudo só por sermos simpáticos aos Monteagudos e Santamarinas… para que (muito improvavelmente) nos permitam estar à beira do seu gabinete? Deveras alguém crê que o Isolacionismo está disposto a aceitar de bom grado a coexistência de um padrão reintegracionista… tendo em conta que a própria existência deles —como Língua AUSBAU—se baseia precisamente no extermínio de qualquer padrão contrário?

            ……Meu Deus…!

            Eu pergunto: o quê vai acontecer quando, depois de eles continuarem a nos dar voltas durante anos (fora dalgum caramelinho inócuo tal como o ano Carvalho), nos demos conta do tempo que levamos perdido, com um Corpus linguístico ainda sem codificar? E… no caso (o mais improvável) de o binormatismo correr bem… como é que vai ser ensinado nas escolas, se já se parou de construir o Corpus? De um dia para outro?

            Apenas quero dizer mais uma cousa…
            Se eu fosse isolacionista e quisesse acabar com o Reintegracionismo, exatamente faria isto: 1) tentaria que ele fosse visto apenas como uma tolémia de ativistas (com todo o respeito para o labor do ativismo) vazia de base linguística séria; quanto mais caótica, fraca e improvisada, melhor; 2) O português (lusitano/brasileiro) com certeza, deverá sempre ser estatuído exclusivamente como ‘lingua estrangeira’… e quanto mais lisboeta e distinto, melhor; e 3) Entretanto, continuaremos a dar-lhes voltas uns aninhos… até se darem conta.

          • Eduardo Maragoto

            O nosso Corpus nom precisa de ser construído: é o português. Essa é a razom pola qual somos reintegracionistas, que nom pensamos que seja preciso construir nem modificar o que já está edificado. Esse Corpus está a incorporar traços galegos (somando, nom alterando o português) que precisam de tradiçom de uso e nom de órgãos académicos para ganharem legitimidade. Na seleçom (contínua) dos mesmos têm-se revelado mais úteis contributos descritivos como a Ortografia Galega Moderna, o @emgalego, o Dicionário Estraviz e muitos outros materiais publicados por técnicos, do que grupos fechados de pessoas (p.ex. umha Comissom Linguística) que se arroguem o poder de prescrever o que é bom ou mau galego-português. Se esses grupos tivessem autoridade sobre o conjunto do reintegracionismo, ainda poderíamos discutir a sua pertinência, mas essa autoridade só a tivérom nos primeiros anos 80.

          • Joám Lopes Facal

            O nosso Corpus nom precisa de ser construído: É o português”. Ante tam rotunda afirmaçom eu demandaria do fino discernimento do professor Maragoto que nos aclarasse se o enunciado pertence ao campo fenomenológico, em cuja hipótese deveria aduzir os argumentos pertinentes por parte dos galego falantes, sociolinguistas e historiadores da literatura galega, ou é de índole ontológica, quer dizer, teológica, em cujo caso está dispensado de qualquer argumento porque se apoia na fé da comunidade de crentes.
            Neste último caso, que estimo mais o provável ante a manifesta escalada de fideísmo vestido às vezes de chato disfarce utilitarista, podemos compreender a manifesta aversom aos “grupos fechados de pessoas que se arroguam o poder de descrever o que é bom ou mau galego-português”; quer dizer, gramáticos, linguistas, dialectólogos e demais estudiosos do idioma.
            Ominosa perspectiva que nos trague à memória a cena do califa Omar ante Joám Filipono quando este tentava salvar a Biblioteca de Alexandria: «Se esses livros concordam com o Corám, som inúteis, se discrepam merecem ser destruídos”. Unamuno exprimiu-o ao jeito hispánico: “Que inventem eles”. O ILG neste caso. O sumptuoso caudal do português exime-nos doravante do estudo do nosso desventurado romance. Ameaçadora perspectiva que nos leva a questionar a conveniência de pertencer a umha comunidade de fé que renega da própria origem por obsolescência decretada.
            Afinal, era este o programa oculto do jovial binormativismo?

          • Venâncio

            O sr. Maragoto não entende que a Linguística não “prescreve”, mas “descreve”.

            E eu sei que não entende, pois tentei já explicar-lho amenamente, pelos vistos sem sucesso. Mais: destratou-me publicamente.

            O sr. Maragto não tem noção do que é Léxico, do que é Semântica, do que é Pragmática, do que é Fraseologia, do que é Gramática. Em 99% das vezes em que fala de Língua, quer dizer “Ortografia”.

            Pobre AGAL, minha sempre queruda, que tais condutores arranjou.

          • Venâncio

            «O sumptuoso caudal do português exime-nos doravante do estudo do nosso desventurado romance.».

            Palavras tristíssimas, mas históricas, caríssimo Joám.

          • Venâncio

            Eu tentei, como sabes, fazer a minha parte. Estou feliz pela audiência (quase 6.000 livros vendidos, 4 edições).

            Julguei, na minha ingenuidade, que os actuais cérebros agálicos conseguissem aprender também alguma coisa. Constato que estão enquistados na sua cartilha.

          • Eduardo Maragoto

            É do fenomenológico: basta ler qualquer texto (também este) escrito por ti ou por qualquer dos participantes neste debate. É todo pretenso português. Só deixa de o ser quando o desconheces ou dele te afastas conscientemente. Nom há “cujos”, nem “dizeres”, nem “dispensados”, nem “qualqueres” nesses galego falantes que defendes da voragem lusista. Partir do Corpus português para galeguizá-lo em diferentes graus é a atitude mais habitual nos reintegracionistas que dominam minimamente a língua portuguesa.

          • Venâncio

            Os céus sejam louvados! Finalmente uma voz com o timbre certo nestes descaminhos.

            Jamais dez, mil ou um milhão de activistas conseguirão uma proposta linguística séria.

            Não o conheço, JLM, mas desde já lhe desejo o melhor futuro.

          • José Luís Maceira

            Eu já conheci o Prof. Venâncio aquando da apresentação do seu livro em Compostela, na Couceiro, que comprei e li com muito interesse. Amavelmente dedicou-mo, pelo que lhe estou muito obrigado.
            Naquele momento eu disse-lhe: “Tenha paciência com os galegos, o nosso sarilho é bem complicado…”
            Nessa ocasião eu e o Marco Neves ficámos amigos, mesmo ele veio até â minha farmácia da aldeia (Frades). Ele tem o meu contacto e o meu e-mail, portanto o professor pode pedir-lhos à vontade, que terei todo o prazer em falar (ou escrever) consigo quantas vezes quiser.

          • Venâncio

            Muito obrigado, caríssimo José Luís.

            Eu fiquei muito agradado por o Marco Neves ter estado connosco nessa apresentação na Couceiro. Hei-de pedir-lhe os seus contactos.

            Um abraço amigo.

    • Miro Moman

      Pode ser, más eu, pela contra, vejo-a como a menos utópica das opções. A única que tem quaisquer hipóteses de viabilidade.

  • Paulo Gamalho

    Acho bem. Adiro à proposta. Obrigado, Miro, por fazeres-me pensar em cousas diferentes. Um abraço.