Tudo aponta a que 2020 vai ser o ano de Carvalho Calero. Festa rachada para os reintegratas e óptima ocasião para promover o modelo internacional do galego e, mais em particular, a proposta binormativa da AGAL.
Proposta á que eu adiro sem reservas por representar um avanço considerável com inúmeras vantagens para a nossa língua, a nossa cultura, a nossa sociedade e a nossa economia, mas não isenta, como qualquer outro projeto, de potenciais problemas tanto práticos quanto conceituais.
O principal problema prático sendo como materializar o binormativismo no ensino. Os detratores da proposta levam razão em que a liberdade de cátedra a este respeito poderia induzir confusão e que dividir as matérias por línguas ainda mais resultaria num considerável caos logístico.
Acho que, em previsão de que o ano 2020 devenha, por obra e graça de Carvalho Calero, o ano do galego internacional, a AGAL deve ir tomando boa nota das objeções razoáveis ao modelo binormativo e, em conversa constante com os seus críticos, elaborar um relatório detalhado que inclua possíveis soluções. Sempre realistas e cientes de que nenhum modelo é perfeito.
Já o principal problema conceitual tem a ver com a afeição identitária que boa parte da sociedade galega tem para com o modelo isolacionista. Doença da infância que apenas o tempo e o costume podem curar, mas nunca totalmente.
No excelente artigo no que apresenta a proposta binormativa, o presidente da AGAL, Eduardo Sanches Maragoto, põe como exemplos de binormativismo consolidado e bem sucedido os casos norueguês e luxemburguês. O primeiro constitui, com efeito, um exemplo claro de que o modelo é possível, embora exista uma certa divisão geográfica a respeito das escolhas normativas, que faz com que não se ajuste exatamente aa proposta galega. Já o caso luxemburguês, é e não é a um tempo um exemplo de binormativismo, mas, seja como for, poderia se calhar representar uma terceira via interessante para a Galiza.
Em Luxemburgo existem três línguas oficiais, o luxemburguês, o alemão e o francês. Embora a administração publica evite falar de “oficialidade” e prefira referir-se a estas línguas como “línguas habituais da administração”. Note-se que o português e o inglês, mália não serem consideradas como tais, também são, de facto, línguas habituais da administração. No ensino, como já expliquei algures, para obter o título de bacharel todo estudante deve acreditar um conhecimento suficiente destas três línguas mais o inglês.
Na pratica, o alemão é a língua mais habitual na imprensa enquanto o luxemburguês predomina na oralidade. Este facto leva a alguns linguistas a considerar que o alemão está a operar como padrão escrito do luxemburguês e, de maneira recíproca, o luxemburguês como padrão oral do alemão. Ora bem, legalmente, são línguas distintas e como tais são ensinadas na escola, onde as duas são obrigatórias.
O modelo luxemburguês transladado á Galiza implicaria, portanto, declarar a língua portuguesa oficial na nossa comunidade autónoma e obrigatória no ensino sem por isso estabelecer uma identidade com a língua galega. Um tal modelo é em si próprio problemático mas teria a virtude de resolver a questão identitária ao tempo que demarca, na sua evidente complexidade, mais claramente os limites linguísticos no ensino.
Entendo que esta alternativa poderia resultar aberrante para determinadas sensibilidades, tanto isolacionistas quanto reintegracionistas, e não estou a sugerir que seja, a efeitos práticos, melhor ou pior do que a actual proposta binormativa da AGAL. Trata-se, simplesmente, de mais uma opção a considerar. Para completar o quadro, o esquema anexo tenciona resumir os modelos linguísticos possíveis para o galego.
