Coronavirus. Continho para um primeiro de Abril



Corria ainda o século vinte a primeira vez que o Stephen Hawking, os deuses o conservem na sua glória, foi perguntado sobre a hipótese da extinção da espécie humana poder vir da mão dum meteorito. Embora exista uma alta probabilidade disso vir acontecer, precisou o físico britânico, um vírus seria uma hipótese muito pais provável.

Com efeito, se assumirmos ser aproximadamente correto o paradigma segundo o qual mutações aleatórias junto com a sobrevivência dos melhor adaptados seriam os dois vectores principais da evolução das espécies, pareceria evidente que a superpopulação do planeta pudesse vir acelerar este processo de ensaio-erro no tocante às populações de parasitas microbianas. Facto, aliás, que já levamos décadas a observar no caso das espécies parasitárias do gado de granja e as culturas agrícolas.

Ainda dentro deste modelo interpretativo, não resultaria particularmente surpreendente que as três últimas pandemias «exóticas» (e empregamos aqui o termo «exótico» por oposição à gripe ou ao resfriado comuns, embora as cepas nunca sejam as mesmas), tivessem a sua origem nas feiras e mercados populares de grandes urbes chinesas, onde densidades nunca vistas de humanos e outros animais convivem juntos, com um controlo sanitário bastante deficiente.

Agora bem, e é esta uma questão para um epidemiólogo, se a superpopulação poderia vir trazer o ocaso da nossa espécie, poderia ser também que ela contribui-se para nos salvar da extinção total?

Para explicar o paradoxo, consideremos por um momento como se desenvolve a resistência duma colónia microbiana aos antibióticos.
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Pode ser suficiente com que um só dos milhões de micróbios que compõem a colónia seja resistente ao antibiótico, para que uma nova colónia, cujos indivíduos seriam já todos resistentes, seja regenerada. Já que falamos nisso, o mesmo acontece com o cancro e a quimioterapia.

A priori, podemos pensar que quanto mais extensa e diversa for uma população, mais provável será que existam nela indivíduos resistentes.

Imaginemos agora que esses micróbios fôssemos nós, os humanos, e o antibiótico viesse sendo um vírus letal (bem mais letal do que o COVID-19). Verificaria-se o mesmo princípio? De ser assim, isso não impediria a morte da imensa maioria dos indivíduos, e, porém, a espécie como tal, seria salva.

Reflexão que, em conjunção com a imagem cá em baixo que monstra a concentração atmosférica de NO2 antes e depois do confinamento induzido pela pandemia, poderia conduzir-nos a uma outra pergunta impertinente: por acaso, não é que seremos nós a verdadeira pandemia?coronaabril-miromoman

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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