Em 1992 o candidato democrata William J. Clinton derrotava o então presidente George H. W. Bush nas eleições dos EUA e acedia assim à Casa Branca. A sua campanha girara entorno a três eixos fundamentais. Os dois primeiros poderiam-se aplicar perfeitamente ao eterno debate entre isolacionismo e reintegracionismo.
O primeiro e óbvio “mudança ou mais do mesmo”. Resulta evidente que o modelo isolacionista para o galego foi um fracasso absoluto. Desde a sua implementação a queda de falantes prosseguiu de forma acelerada enquanto o paradigma do “gallego facilito” contribui substancialmente para a degradação constante da qualidade duma língua acossada pelo castelhano. Parafraseando Debbie Allen na serie de TV americana Fame, “You want fame? Well, fame costs”. Bom, se quereis língua, a língua também custa. Língua é difícil. Língua fácil é dialeto. Ponto redondo.
Acho que resulta evidente para todos que o modelo reintegracionista contribui para melhorar a qualidade da língua. E não apenas a dos seus utentes, como também a daqueles falantes isolacionistas expostos quotidianamente ao galego reintegrado ou a outras variantes internacionais do português. Então, mudamos de paradigma ou continuamos, de derrota em derrota, até a extinção final?
Já no tocante ao primeiro dos vetores, por uma vez e sem que serva de precedente, sejamos honestos. O modelo reintegracionista não vai deter a queda de falantes. Como também não o vão fazer as políticas linguísticas e educativas. A queda de falantes é um problema de estrutura socioeconómica. Uma língua floresce se houver uma burguesia que a imponha. Não é o caso.
Dito isto, bom, evidentemente, melhor é ter boas políticas linguísticas e educativas do que ter más políticas linguísticas e educativas. Melhor é termos um bom modelo de língua do que ter um mais palheiro (cumpre acrescentar, em qualquer caso, que a atual proposta binormativa da AGAL permite superar o atual impasse dicotómico e aproveitar as vantagens de ambos os modelos).
Mas vaiamos ao que importa. O segundo dos eixos da campanha de Clinton tinha a ver com um slogan atribuído ao politólogo James Carville e que desde então tem virado um dos memes políticos mais populares da história, “é a economia, idiota”.
E muito provável que a maior parte da sociedade galega não se importe muito com a qualidade da língua ou, até, com a própria existência da língua. Mas todos nos importamos com o pão dos nossos filhos. Eis uma preocupação universal.
A identidade tem um valor económico intrínseco. Isto não é um cliché, é uma realidade. Pensemos nas identidades corporativas, no valor intrínseco das marcas. Por exemplo, a marca “Amazon” está hoje valorada em 315 bilhões de dólares (em perspetiva, 3,6 vezes o PIB galego). Não a corporação no seu conjunto, apenas a marca. A marca “Irlanda” inspira simpatia, a marca “Suíça” inspira confiança. Outro exemplo, as denominações de origem. Já a marca “Galiza/Galicia”, por enquanto fracassou como está a fracassar a língua.
A marca “Galiza/Galicia” existe de maneira realmente efetiva como entidade diferenciada apenas em dois âmbitos: a chamada música celta e, até hoje de forma mais ténue, a lusofonia. Apenas nesses contextos é que existimos como nós próprios. Sem falar espanhol e sem pagar portagem em Madrid. Sem sermos uma filial regional da marca “Espanha”. O valor económico desta marca diferenciada, desta presença, não está nem quantificado, nem valorado, nem aproveitado.
No contexto lusófono, apresentar internacionalmente um modelo de língua baseado no castelhano dilui enormemente o valor da nossa marca. Da mesma maneira, enviar dialetólogos sem visão comercial nem internacional a fazer o trabalho de diplomatas e “business developers” resulta claramente ineficaz. São estratégias erradas e ineficientes.
Mas a dimensão da nossa potencial pertença à lusofonia ultrapassa a mera questão do valor da marca enquanto identidade corporativa do nosso país. O modelo do galego internacional, do galego sendo português e não apenas “língua irmã” do português, fornece um pretexto privilegiado para termos uma presença permanente em, e uma interlocução direta com, as diferentes instituições da lusofonia, sejam estas culturais, políticas ou comerciais. O caso mais evidente, mas não o único, é a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) à que já me tenho referido no passado como “a nossa Commonwealth”. Um lugar onde todos querem ter representação. Países tão diversos como Ucrânia ou Luxemburgo têm solicitado o status de observador porque entendem que, numa economia global, a presença neste tipo de organismos fornece inúmeras oportunidades de relacionamento e de negócio. Nos poderíamos estar ai como membros de pleno direito. Mas não estamos, por que?
Em conclusão, o modelo reintegracionista fornece a potencialidade de expandir os nossos horizontes e de melhorar as condições de vida objetivas, materiais e imateriais, de todos os galegos e galegas, independentemente das tendências políticas ou da língua que fale cada um. Na verdade, seria bom até para Espanha no seu conjunto. Não é, portanto, um apriorismo sectário nem ideológico. Não é propriedade de ninguém. É uma estratégia transversal que possui um valor intrínseco para todas e todos (incluso aqueles para quem a ideia possa resultar aberrante).
Pela contra, o que sim constitui um apriorismo ideológico é a negação ou a infravalorização das potencialidades desta proposta. Seria realmente insensato neste cenário global tão competitivo estarmos a perder de ganhar por causa do fanatismo ou o medo dalguns.
Acho que, entre os políticos galegos de relevo, um dos que melhor entende o potencial da proposta reintegracionista é precisamente o atual presidente da Junta da Galiza, Sr. Alberto Nunes Feijóo. Em coerência, estão-se a dar alguns tímidos passos, mas, como indicamos acima, as meias tintas vão ser insuficientes. Se quisermos otimizar os rendimentos vai cumprir uma ação mais decidida, mais valente. Temos que aproveitar que ainda existe uma massa crítica suficiente de falantes de galego. Pode ser agora ou nunca. Conservemos as dornas mas construamos também caravelas (e recrutemos capitãs e capitães que as saibam bem navegar). Voltemos ser pioneiros na exploração transoceânica. É quem somos, quem sempre fomos, e os tempos são chegados.
