Edelmiro Momám – Recebi o ano novo em Eslováquia. Depois da ceia, os cortes de luz provocados polo forte temporal de chuva e neve fizeram com que me sentisse como na casa. Não pola neve, senão pola carência intermitente de electricidade, tão tradicional nestas datas. Por fim, a luz voltou e alguém ligou a TV.
Botavam o típico programa de fim de ano com os seus humoristas, dançarinas e números musicais. Mas este ano havia uma pequena particularidade. Com efeito, por primeira vez desde o divórcio pacífico das nações eslovaca e checa no 1 de Janeiro de 1993, o espectáculo em questão era uma coprodução checo-eslovaca.
Havia uma parelha de apresentadores. Saiam juntos a cena. Ela, da televisão checa, falava checo. Ele, representando a televisão eslovaca, como é natural, eslovaco. Alternavam-se os números nas duas línguas. Por vezes as duas coexistiam numa mesma intervenção. Como nos velhos tempos.
O checo e o eslovaco são duas línguas eslavas muito similares. Se calhar poderiam ter sido a mesma língua, mas as vicissitudes dos impérios centro-europeus separaram os irmãos checos e moravos dos curmãos eslovacos durante dez séculos, propiciando as divergências entre as distintas variedades linguísticas. Depois de séculos de opressão, o XIX testemunhou o Ressurgimento das culturas e línguas eslavas em ambas as nações. O fim da Primeira Guerra Mundial acarretou o nascimento da República de Checoslováquia em 1917.
Durante o tempo da República (interrompida pola Segunda Guerra Mundial mas depois restaurada) a intercompreensibilidade entre os falantes de eslovaco e de checo era quase total. Um checo podia ir a Bratislava falando checo e um eslovaco não tinha problemas em Praga por falar a sua língua, como é natural. As emissoras de rádio e televisão emitiam nas duas línguas. Um eslovaco não tinha qualquer inconveniente para ler um livro em checo e, na prática em menor medida, também se verificava a asserção recíproca. A semelhança entre as línguas ajudava, mas não teria sido abondo não havendo como havia boa vontade e respeito mútuo.
Do antedito, o leitor sagaz terá deduzido que, por regra geral, os eslovacos não falam checo e os checos não falam eslovaco. Quando menos, não correctamente ou não sem dificuldade. Mas, em ambos casos, todos têm um conhecimento passivo da língua do vizinho, o que permite a coexistência harmónica das duas línguas sem uns nem outros terem que mudar de registo. Assim, a presença de duas línguas nunca foi fonte de conflitos na República de Checoslováquia.
Um caso semelhante temo-lo na Suíça. Também na República Helvética o respeito pola língua do vizinho e o conhecimento, quer activo, quer passivo, de três ou quatro das línguas oficiais, são conceitos chaves para entendermos a harmonia linguística no estado alpino (importante noção esta de conhecimento passivo, já que sem ela não iria ser possível seguramente aprofundar tanto quanto seria desejável na construção europeia).
Em contraste com os modelos respeitosos e simétricos que vimos de descrever de forma sucinta, temos outros, assimétricos, que se fundamentam na supremacia duma língua sobre as outras. Quer, como na França, pola via da negação de qualquer língua distinta daquela do Estado, quer, como no caso belga ou no espanhol, através do estabelecimento duma hierarquia linguística que visa impor a primazia da língua do Estado sobre as outras, que ficam relegadas ao papel secundário e subalterno de “línguas regionais” condenadas à extinção, por supérfluas.
Na Bélgica, o francês, língua da região de Valónia, foi durante muito tempo a língua única da administração pública. Todos os belgas conheciam a língua francesa e, em consequência, o francês era a única “língua comum” de toda a Bélgica. Na região de Flandres falam flamengo ou neerlandês, língua que os francófonos da Bélgica nunca se molestaram em apreender. Esta assimetria tem sido tradicionalmente fonte de conflitos até que, nas últimas décadas, a maioria dos flamengos decidiram progressivamente negar-se a falar francês na sua terra para pôr fim a uma situação que achavam discriminatória. Nestas circunstâncias, que bem poderiam resultar na cisão do Reino da Bélgica em dous estados indepentendes, é que nos achamos hoje. Provavelmente, um modelo do tipo suíço teria evitado chegarmos a estes extremos e poderia ser, ainda hoje, o único com a potencialidade de relaxar as tensas relações flamengo-valonas e restituir a coesão ao país.
O Reino de Espanha, como sabemos, também teima no discurso da “língua comum”, que é o eufemismo com o que querem justificar a supremacia uniformizadora e substitutiva do castelhano a respeito das outras línguas que, por enquanto, ainda coexistem no Estado. A maioria dos súbditos do Reino também se recusam a aprenderem qualquer uma das línguas ibéricas distintas do castelhano e até nem fazem o mais mínimo esforço por as compreenderem. Na Galiza, caso avançado de patológico auto-ódio, são já os próprios naturais do país os que agem como vectores de aculturação.
Alguém acha concebível, por exemplo, poder falar galego com toda naturalidade em Madrid? Alguém imagina uma coprodução bilingue entre a Televisão de Galiza e a Televisão Espanhola para o programa de fim de ano de 2011 onde, com toda naturalidade, todos os súbditos do reino ficassem expostos à musicalidade da nossa língua?
Rajoy havia reclamar a cabeça de Zapatero numa bandeja e Espanha havia-lha dar.
