Quem diz que o galego está em perigo?

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Por José Paz Rodrigues

Agás em território espanhol, onde é uma língua minorizada (nom minoritária!), o idioma galego nom está em perigo. E aqui o está por levar a cabo desde 1982 uma política linguística totalmente errada, iniciada com uma norma ortográfica isolacionista. Que nos afasta e nos afastou do tronco linguístico a que o nosso idioma pertence: o galaico-luso-brasileiro. Quando a árvore se planta já torcida, é impossível que logo se endireite. Quando a norma se impom por decreto, sem deixar que exista antes um debate civilizado na sociedade, chegamos ao que hoje temos, sendo ainda quase tabu falar disto. Chegamos a este sarilho em que nos encontramos. Chegamos a que os cidadãos, e especialmente os jovens, nom lhe vejam a utilidade à nossa língua. Que é internacional, é extensa e é muito útil, ainda que lhe moleste a Camilo Franco que digamos isto. E acrescentamos, sem temor a equivocar-nos, que, em todo o processo iniciado a princípios dos oitenta, nunca se teve em conta a psicologia das pessoas. Sempre se usaram os decretos, as imposições, a inquisiçom, nunca se permitiram os debates, sempre se estigmatizaram os discrepantes. Quando mesmo muitas vezes foram perseguidos e anatemizados. Nunca se intentou convencer antes que impor. E este é agora o resultado que temos. Daquelas águas nom limpas, temos agora estes lodos. Embora estejamos a tempo de rectificar e fazê-lo é de sábios, como diz o adágio popular.

O galego, que por aí fora leva o nome de português ou de português do Brasil e dos PALOPs, nom está em perigo. Pois é o idioma oficial de muitos organismos internacionais e de nada mais e nada menos que oito países em todos os continentes do planeta. Na Goa indiana todos os maiores de 50 anos o falam e na nossa Galiza, por lei, é co-oficial com o castelhano. E a isto temos que acrescentar que, ademais de ser o nosso, é um idioma muito lindo. Um idioma em que escreveram, antes de existir o castelhano, os jograis das cantigas galaico-portuguesas de amor, amigo e maldizer e Afonso o Sábio nas suas Cantigas de Santa Maria. E logo na renascença Curros, Pondal e Rosália. Mas em Portugal está o grande Camões, de antepassados galegos, que escreveu uma obra tam extraordinária como Os Lusíadas. Que muitos galegos nom sabem ainda que, assim como os portugueses necessitam notas de pé de página para entender o texto camoniano, nós os galegos nom as necessitamos. Depois está o grande Gil Vicente. E já muito mais próximos Teixeira, Castelo Branco, Eça de Queiroz (do qual o maior especialista foi o galego Guerra da Cal), Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Nobre, Torga e o Nobel José Saramago. Entre outros muitos do nosso país irmão, terra sempre de grandes escritores, dos que, como muito bem dizia Risco, levaram o nosso idioma por todo o mundo. A África, Goa, Macau, Ceilam, Singapura, Damão, Diu, Brasil e Timor.

Para mim é um verdadeiro prazer ler na língua de minha mãe Rosa, a poeta brasileira Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, José de Alencar, Guilherme de Almeida, Abgar Renault e, em especial, Jorge Amado. Que ainda nom compreendo bem porque nom levou no seu dia o Prémio Nobel de Literatura, que bem merecia. Quiçá porque os diferentes e medíocres governos brasileiros passados nunca se preocuparam por apoiar a língua no exterior. Para mim é um grande prazer ver os filmes de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Lima, Babenco, Sales e Meirelles. E os do português Manoel de Oliveira. Escuitar as cantigas de Vinícius de Moraes, Jair Rodrigues, Gail Costa, Jorge Ben, Leonardo, Maria Bethânia, Luiz Gonzaga, Martinho da Vila, Elis Regina, Caetano Veloso e Chico Buarque. Inclusive escuitar Júlio Iglésias quando canta em português do Brasil. E de Portugal Madredeus, Trovante, Maio Moço, Colheita Alegre, Dulce Pontes, Mª Teresa Carvalho, Vitorino e, de forma muito especial, Zeca Afonso, que sempre me encantou. Ou Belaurora das ilhas Açores, Cesária Évora de Cabo Verde e Bonga de Angola. País natural desse grande escritor que é Pepetela. Que grande e formosa é a nossa língua galego-portuguesa!

(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.