J. M. A. – No último ano chegárom aos mercados galego e português quatro novidades em que, desde a Galiza, se contribui para um mehor conhecimento da Literatura Portuguesa. Em três ocasions, som especialistas que trabalham sobre vultos canonizados das Letras do Sul do Minho; e o outro volume é umha ediçom príncipe de umha produtora portuguesa dos nossos dias. Ei-los:
Eugénio de Castro e a Galiza. Epistolário, publicado em Ediciós do Castro (Sada-A Corunha, Julho de 2008), em ediçom de Eloísa Álvarez e Isaac Alonso Estraviz.
O Mandarim, de Eça de Queirós, publicado em Candeia Editora (Santiago de Compostela, 2008), numha ediçom especialmente orientada para o ensino secundário galego, preparada por Patricia A. Chachero e Xosé Manuel Sarille.
O Padre António Vieira e as Mulheres. O mito barroco do universo feminino, estudo publicado em Portugal, pola editora portuense Campo das Letras em Março de 2008, mas apresentado em Santiago de Compostela em 26 de Novembro. É da autoria de José Eduardo Franco, docente da Universidade da Madeira; e da galega Maria Isabel Morán Cabanas, Professora da Universidade de Santiago de Compostela.
Mais Perto do Céu,volume de relatos da portuguesa Maria do Céu Nogueira, lançado na Galiza pola Associaçom Galega da Língua, em Fevereiro deste 2009.
Som quatro propostas com centros de interesse múltiplos e muito diversos, alguns dos quais merecem com certeza ser salientados.
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Eugénio de Castro, um membro da “Real Academia Galega” que encontrou na Galiza “não uma pátria estrangeira, mas como que um prolongamento da minha própria pátria”.
O volume sobre Eugénio de Castro, de 160 páginas, é fruto da colaboraçom de Eloísa Álvarez, professora espanhola da Universidade de Coimbra, especializada em Miguel Torga, de quem tem traduzido a maior parte da sua produção (entre ela os quinze volumes do Diário) para espanhol; e o galego Isaac Alonso Estraviz, professor da Universidade de Vigo e vulto bem representativo do Reintegracionismo, quem no PORTAL GALEGO DA LÍNGUA nom precisa de apresentaçom. Estes dois especialistas já tinham colaborado há uns anos num volume de teor semelhante sobre Teixeira de Pascoais1.
Este livro de agora, incluído na série “Documentos” da editora O Castro, tem duas partes bem diferenciadas. Na primeira delas (pp. 5-64), a professora Álvarez escreve o estudo “Eugénio de Castro e a Galiza”, e a ela se deve o corpus epistolar e a transcrição das 59 cartas que se incluem no volume: 1 de Manuel Curros Enríquez; 8 de Andrés Martínez Salazar; 24 de Antolín López Peláez; 2 de Filomena Dato Muruais; 2 de Heraclio Pérez Placer; 1 de Emilia Pardo Bazán; 1 de Salvador Cabeza de León; 3 de Eugénio Carré Aldao; 2 de César Vaamonde Lores; 1 de Ángel del Castillo López; 4 de Manuel Casás Fernández; 2 de Carmen Martínez Morás; 5 do Marqués de Figueroa; 1 de Álvaro Mª de las Casas; 1 de Francisco Ponte Blanco; e outra de Nicolás Franco.
Estas mulheres e homens da Galiza som apresentados por Isaac Alonso Estraviz, quem oferece notas respeitantes à sua biografia e produçom. Eloísa Álvarez informa de um projecto de ediçom do conjunto epistolar referente à Espanha e a Hispano-América por parte da Junta de Extremadura. Nestas cartas, as/os correspondentes da Galiza acusam recebimento de livros e revistas que lhes chegam de Portugal por mediação do autor de Oaristos, enviam informaçons que lhe eram solicitadas; fornecem trabalhos ou comprometem-se a redigi-los; e também o convidam para participar em actividades como as homenagens a Murguia e a Camões organizadas na Corunha, entre outros dados valiosos que transparecem das 59 epístolas, todas escritas em espanhol. Também há agradecimentos, como o do Marquês de Figueroa (p. 56) por ter-lhe dedicado Eugénio de Castro o poema “O amolador”.
Eloísa Álvarez reproduz parte de um escrito de Eugénio de Castro publicado em 1926, Cartas de torna-viagem, em que rememora o itinerário percorrido na Galiza no ano 1900. Álvarez qualifica de “relevante” esse texto por nele, (p. 10) “reafirmar a perdurabilidade de aquele sentimento de pertença a um espaço cultural que se configura como um prolongamento da sua própria pátria, a partir da sensação de familiaridade que lhe transmitiram a paisagem, a alma do povo e a língua na sua primeira estadia”. Nesse trecho, que reproduz na continuaçom na mesma página, Eugénio de Castro refere-se à “Real Academia Galega, da Corunha, a que pertenço como sócio correspondente desde a sua fundação” e manifesta como na viagem de 1900 “na Galiza encontrara, maravilhadamente, não uma pátria estrangeira, mas como que um prolongamento da minha própria pátria (…) e, para que a ilusão fosse completa, até a língua que lá me haviam falado, não sendo portuguesa, portuguesa me parecera também”. Eloísa Álvarez indica igualmente que as cartas reproduzidas estám datadas entre 1891 e 1943 (um ano antes da morte de Castro), e todas som inéditas excepto a de Curros Enríquez.
Entre as páginas 64 e 65 deste volume, sem numerar, incluem-se ilustraçons sobre Eugénio de Castro e Camões. E continua depois com o contributo de Isaac Alonso Estraviz (pp. 65-158), que se centra sobretodo em como ecoou na comunicação social escrita galega da altura a visita de Eugénio de Castro à Galiza com ensejo da vista que realizou em 1924 para participar na homenagem a Camões.
Estraviz reproduz textos e comentários publicados em A Nosa Terra, no Boletín da Real Academia Galega, nos jornais La Voz de Galicia, El Ideal Gallego e El Correo Gallego; e finaliza com três apêndices de textos de Eugénio de Castro: “Una historia del soneto en la poesía portuguesa del siglo XVI. La influencia del Renacimiento italiano” (pp. 139-148), publicado em 25 de Maio de 1924 no jornal La Nación, de Buenos Aires; “De Coimbra à Corunha” (pp. 149-156), datado em 30 de Novembro de 1924 e incluído no já citado volume Cartas de torna-viagem, embora se reproduziu em 11 de Fevereiro de 1925 também em La Nación de Buenos Aires, sob o título “La encantadora y verde Galicia”; e num terceiro apêndice acrescenta “A mantilha de medronhos e Galiza” (pp. 157-158), em que Estraviz acrescenta a segunda poesia dedicada por Eugénio de Castro a Tui, que nom tinha referenciado anteriormente junto com outra também destinada a esta mesma cidade, além de a Vigo, Ponte Vedra, Santiago de Compostela, A Corunha e Ourense, e que estám incluídas no livro de Castro com esse título, publicado em 1923, e igualmente neste volume preparado por Álvarez e Estraviz.
Vale a pena pôr em destaque os generosos espaços da imprensa galega da altura, mesmo na capa, sobre este poeta português, e como reproduziam os seus textos, às vezes traduzidos e outras vezes em original português.
No início do estudo “Eugénio de Castro na Galiza”, Alonso Estraviz indica que dos galegos que encaminhárom cartas para Castro e para Teixeira de Pascoaes só dous coincidem, Álvaro Mª de las Casas e Francisco Ponte Blanco. Afirma que, a diferença de Teixeira, Eugénio de Castro, juntamente com Rodrigues Lapa, percorreu as terras galegas, e frisa que as pessoas da Galiza que enviárom cartas a Lapa (p. 67) “escrevem em galego”, acrescentando: “Surpreende, sem embargo, que tanto uns como os outros compartilhem as mesmas ideias, os mesmos sentimentos, quer desde o ponto de vista sentimental, cultural quer político. Para todos eles Galiza é uma prolongaçom de Portugal ou vice-versa, os escritores galegos são considerados por[t]ugueses e os portugueses galegos e a língua é a mesma em ambos os territórios. Neste aspecto as diferenças entre uns e outros são quase nulas”.
Um volume, pois, interessante, que recupera na Galiza um dos cinco vultos de Portugal que fôrom eleitos membros da Real Academia Galega quando a sua fundaçom, um facto nom muito conhecido e que se costuma obviar muitas vezes, e que bem merecia um estudo para avaliar a presença de produtores portugueses eleitos para participarem nessa instituiçom galega, umha decisom que ainda tem continuidade neste século XXI.
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Ler O Mandarim, de Eça de Queirós, porque “desde Galiza débese pensar en clave europea e non só doméstica” (sic)
Candeia Editora distribuiu entre professorado galego exemplares de O Mandarim, de Eça de Queirós, acompanhados de umha carta de apresentaçom em que recomendava utilizar este volume a partir do terceiro curso da educaçom secundária obrigatória, e esclarecia que esta ediçom está “especialmente pensada e preparada para ler nas aulas de Lingua e Literatura Galega” a partir do curso 2008-2009. Nessa epístola também se acrescenta que “Galiza forma parte de Europa, aínda que o atraso retarde a toma de conciencia sobre o que implican os grandes espazos mundiais e europeos, nos que sen dúbida estaremos integrados e nos que se dirimirá o noso futuro. Desde Galiza débese pensar en clave europea e non só doméstica. A rexión Galiza-Norte de Portugal é xa unha experiencia, mais na Europa e no mundo que veñen, para afirmar a personalidade e a identidade, deben prevalecer o interese polas visións amplas, a aproximación, a coorperación e a concordancia”.
Já no interior do volume, Patricia A. Chachero e Xosé Manuel Sarille, que preparárom esta ediçom, informam de ter experimentado com sucesso nas aulas a utilizaçom desta narrativa queirosiana, afirmando que (p. 5) “a nosa experiencia nas aulas de galego dinos que esa familiarización coa lectura en portugués produce resultados óptimos. Primeiro, porque os rapaces decátanse de que están comprendendo e apreixando un idioma que descoñecían que coñecían. Con moi poucas horas de práctica toman conciencia dunha potencialidade que antes permanecía oculta para eles. En segundo lugar porque ao entender sen dificultade, o exercicio convértese nunha agradábel sorpresa que lles amplía extraordinariamente as miras, tanto lingüísticas como vitais, e as potencialidades da propia lingua galega”.
O texto da narrativa de Eça de Queirós inclui-se íntegro e em original, entre as páginas 11 e 83. Na continuaçom acrescentam um “Apéndice lexical” (pp. 85-92), com termos que entendem pudessem ser de maior dificuldade para a compreensom nas aulas; um vocabulário certamente generoso, que podia ser mais reduzido, pois há várias palavras (v. gr. “decrépito”, “dilecto”, “filantropo”, “genealogia”, “heráldico”, “lascívia”, “letrado”, por colocar alguns exemplos tirados das páginas 88 e 89) que não precisavam porventura explicaçom2. E finaliza (pp. 93-120) com propostas de exercícios, alicerçados na leitura do texto, relacionados com diferentes disciplinas.
É evidente o acerto de Chachero e Sarille na eleiçom deste produto literário para introduzir nas aulas galegas o português. Estamos perante umha narrativa extraordinária que é, como demonstrou Ernesto Guerra da Cal na sua imprescindível Bibliografia Queirociana, a narrativa de Eça de Queirós mais traduzida a outras línguas. O trabalho que realizam estes dous docentes galegos, sóbrio e correcto, merece todo o louvor.
No entanto, e tratando-se de umha ediçom preferentemente escolar –por mais que seja de utilidade para qualquer leitor galego, ou português– poderia acrescentar-se o seu valor em próximas reediçons com dous elementos que suporiam poucas páginas a maiores das 120 de que consta o volume, e resultariam certamente de interesse: umha referência a como foi recebida a produção de Eça de Queirós na Galiza antes e depois da Guerra de Espanha de 1936 [a Tese de Doutoramento de de Elias J. Torres Feijó defendida na Universidade de Santiago de Compostela em 1995, subordinada ao título Portugal na Galiza, Galiza em Portugal através das revistas literárias (1900-1936), é muito valiosa em informaçons sobre a recepçom na Galiza no tempo anterior à Guerra de 1936; e trabalhos de Guerra da Cal, quer Língua e Estilo de Eça de Queirós ou a antes citada Bibliografia Queirociana, tanto para o período anterior a 1936 como para o posterior], e também acrescentar o texto “A propos du ‘Mandarim’. Letre qui aurait dû être une préface”, elaborado por Eça de Queirós a respeito desta narrativa, com informaçons muito valiosas sobre a mesma e sobre a concepção da Literatura por parte do escritor português. Este texto (datado por Eça de Queirós em 2 de Agosto de 1884, e que ocupa apenas 3 páginas incompletas na reproduçom que se fez na ediçom crítica desta narrativa preparada pola professora brasileira Beatriz Berrini, publicada em 1992 pola Imprensa Nacional-Casa da Moeda de Portugal) seria umha ajuda nom só para as aulas de Literatura, mas também para as de Francês. Por mais que este magnífico e maravilhoso texto de Eça de Queirós tem certamente valor para muitas matérias da secundária, nom só as de Língua e Literatura, mas também História, Geografia, Educaçom para a Cidadania, Idioma Estrageiro, Ciencias Sociais e outras.
Merecem portanto os maiores parabéns Candeira Editora, Chachero e Sarille por este produto.
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O “genial e desconcertante” Padre Vieira e o seu pensamento sobre as mulheres
Já no PORTAL GALEGO DA LÍNGUA se tem falado deste interessante estudo sobre o Padre Vieira publicado o ano passado, com ensejo das comemorações centenárias deste vulto da Literatura Portuguesa do século XVII, redigido de colaboraçom entre dois docentes: o açoriano José Eduardo Franco, e mais a galega Maria Isabel Morán Cabanas.
Segundo esclarece o eminente lusitanista Tom Earle no “Prefácio” (pp. 7-10), este livro trata “do papel delas [as mulheres] na obra escrita, sobretudo no sermonário” e “preferem [Franco e Morán Cabanas], e muito bem, concentrar-se na forma como Vieira encara as figuras femininas da Bíblia e as santas da tradição cristã que tantas vezes constituem tema dos sermões que pregava no Brasil, em Portugal ou em Itália”, estudando Vieira como “um simples sacerdote e pregador, não propriamente convencional, mas certamente um escritor cuja obra pode ser compreendida dentro dos parâmetros que regiam a oratória sagrada do século XVII. A Igreja seiscentista era francamente misógina, e o Padre António Vieira não era o menos violento dos que denunciavam os erros do sexo considerado fraco. Mas, pelo menos, era um dos mais engenhosos”. Conclui este reputado especialista que “o espírito racional e científico do livro é em si uma resposta digna à extravagância e à violência da época barroca. Temos a obrigação de tentar compreender o passado, mesmo nos aspectos que não é possível admirar, e, neste aspecto, os nossos dois autores têm muito que nos ensinar”.
Franco e Morán Cabanas dedicam o livro conjuntamente às suas filhas “para que sejam artífices de uma paridade que vença as discriminações” e, após umha citação do próprio Vieira –muito significativa para compreender a sua visom das mulheres e o objecto de estudo do livro– e outra de Ana Hatherly (figura esta bem conhecida dos campos literário e dos estudos literários de Portugal), dividem o seu trabalho em cinco capítulos: “A percepção barroca da antropologia feminina”, “Caracterização do universo feminino”, “Caminhos da perfeição feminina”, “Caminhos da perdição feminina” e “Formas e figuras de prestígio feminino”, com diferentes subcapítulos. Analisam 47 sermões de quem foi nom só um importante escritor, mas também político, missionário, promotor de uma companhia das Índias, defensor dos cristáns-novos, vítima da Inquisiçom, e figura muito valorizada na actualidade, para concluirem como na oratória de Vieira se verifica (p. 203) “um certo afastamento do antifeminismo radical por meio da valorização positiva da mulher pela via religiosa. Embora tal dignificação remeta para o plano da utopia, convém ter em conta que o qualificado por Fernando Pessoa como ‘imperador da língua portuguesa’ confere a esta dimensão uma dinâmica profundamente transformadora da realidade do seu tempo. Inclusive defende nas suas pregações que as mulheres são as criaturas mais queridas por Deus, o que acarreta consequências vantajosas no plano escatológico (…) as peças da parenética seiscentista respondem à necessidade de inculcar as directivas da doutrina moral católica na modelação dos comportamentos no espaço público e privado. Os seus conteúdos não diferem, em geral, dos que se difundem por outros meios de expressão do tempo do Barroco (poesia, teatro, pintura, etc.) O estudo comparativo serviu-nos quer para confirmar quer para relativizar estereótipos tocantes à concepção do universo feminino”. Assim, e como é assinalado na contracapa, “o livro demonstra que o genial e desconcertante Padre António Vieira é irremediavelmente filho do seu tempo, embora em alguns aspectos acabe por surpreender-nos com algumas observações no que ao género feminino diz respeito”.
Nom é frequente, no ámbito da letras, a colaboraçom em trabalhos de pesquisa. Ao contrário do que costuma acontecer em campos como, v. gr., o da Medicina, onde os estudos de regra som assinados por vários autores, nos estudos literários é maior o individualismo. Por isso tem especial valor este trabalho de parceria: por quebrar esta tendência e favorecer a colaboraçom, necessária cada vez mais para, em grupo ou equipa, poder alcançar melhor os objectivos que se visam na pesquisa e chegar a um conhecimento mais alargado do objecto de estudo; e sobretodo por ser este um estudo de parceria galego-portuguesa, quase umha novidade. Colaboraçons e contactos deste teor som muito necessários para umha mais efectiva aproximaçom entre o Norte e o Sul do Minho. Nesta ocasiom, o resultado é um trabalho do maior interesse, que abre caminhos valiosos quer no campo dos estudos literários, quer no da colaboraçom entre estudiosos de duas nacionalidades diferentes, mas que aspiram a um maior e melhor encontro e colaboraçom, no presente e no futuro.
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Os relatos de umha escritora minhota para “leitores de todas as idades, de quince a noventa anos”
Informa-se-nos nas badanas do volume de Maria do Ceu Nogueira que esta produtora “esteve no ensino aproximadamente quarenta anos leccionando, quase exclusivamente, Língua Portuguesa” e que é autora de diferentes trabalhos de teor didáctico e literário, alguns deles premiados. No ano 2007 publicou na Agália o relato “A Gaivota Galega”. Agora edita na Galiza este livro de contos, distinguido no ano 2006 com uma “Menção Honrosa” em Portugal, e inédito. Segundo se nos indica numha nota da editora (p. 15) “A AGAL, que nasceu para defender a unidade da língua na Galiza e Portugal, com umas pequenas diferenças ortográficas, aceitou publicar esta obra de Maria do Céu Nogueira, autora prolífica na publicação de contos, sem mexer para nada nele, demonstrando assim na prática o que na teoria defende. O leitor comprovará a mesma sintaxe, o mesmo léxico, fora de uma ou outra palavra, o mesmo que lhe acontece com qualquer outro escritor galego”.
Nogueira inclui várias dedicatórias (p. 7), a primeira delas “aos meus amigos galegos Isaac Alonso Estraviz, José Paz e Alexandre Banhos”, os três dirigentes da AGAL na altura de editar este livro, o que contribui para explicar a sua privilegiada presença no mercado galego. Tem também um “Prefácio” (pp. 9-12), assinado por Isaac Alonso Estraviz, centrado na produção anterior de Nogueira. E na continuaçom oferece os relatos “Vida e morte de Julião Gervásio o Sem-Pressas” (pp. 17-26), “Os filhos da comunidade” (pp. 27-28), “Reencontro” (pp. 29-31), “Maria Vitória” (pp. 33-36), “A menina que Cristo acolheu” (pp. 37-43), “O pão dos mortos” (pp. 45-47), “A Deus o que é de Deus” (pp. 49-50), “O azeite do Senhor dos Aflitos” (pp. 51-53), “O Mouro e o Cristão” (pp. 55-66), “Revelação na vila” (pp. 67-73), “Benilde” (pp. 75-83), “O Tesouro” (pp. 85-86), “A calúnia” (pp. 87-90), e “O azar de um nome” (pp. 91-103).
Diversos elementos de teor religioso dam unidade a essas 14 narrativas, nas quais transparecem temas como os abusos sexuais, o analfabetismo, a avarícia, o (des)respeito aos animais, a pobreza, outra maneira de entender as relações humanas, e mais diversos problemas sociais e políticos.
Maria do Céu Nogueira evidencia ofício na escrita do relato curto, demonstra o domínio de muitos recursos narrativos e sabe ganhar o interesse do leitor e surpreender. Num dos relatos deste volume conclui que (p. 83) “As portas de uma vida só se fecham quando vem a morte. Antes disso, por cada uma que se feche, muitas se abrem e todas vão dar a caminhos possíveis. Amanhã, amanhã é outro dia e o começo de muita coisa. Amanhã”; e noutro, numa paréntese esclarece que (p. 49) “Todos sabiam que as pessoas roubavam com fome, já que se vivia em tempos de ditadura. O lavrador dava, mas não gostava que lhe invadissem a propriedade, na calada da noite, para roubar. ‘O respeito é muito bonito’ –diziam todos”, dous parágrafos que ajudam a compreender a ideologia que sustenta o seu discurso literário.
Na contracapa deste volume é qualificada Nogueira de “prolífica e delicada escritora portuguesa” e afirma-se que “O Universo minhoto desta escritora está cheio de ternura, e com este livro vão desfrutar os leitores de todas as idades, de quince a noventa anos”. Um volume bem editado, que é pena nom se acompanhe de um “Índice”, e de que haverá que fazer seguimento da sua fortuna, para ver se contribui para um maior diálogo da Galiza e Portugal através do campo literário. Havia tempo que nom se editava um produto literário português directamente na Galiza, sem ter emergido antes no mercado português, contribuindo para dar uma imagem como de normalidade nas relaçons entre ambas as marges do Minho, que está longe de ser realidade.
Umha ediçom, pois, que merece ser igualmente assinala porque, nos 28 anos de história da AGAL, nom tem precedentes3. Som muitos ainda os entraves que dificultam a comunicaçom entre a Galiza e Portugal, e iniciativas como esta podem porventura contribuir a rui-las lenta mas progressivamente, para que poda ser efetiva na prática essa eliminaçom de fronteiras que, na teoria, se dá no actual quadro da Uniom Europeia e num mundo cada vez mais globalizado.
Compostela, Julho de 2009.
Notas:
1. Álvarez, Eloísa e Alonso Estraviz, Isaac (eds), 1999, Os intelectuais galegos e Teixeira de Pascoaes. Epistolário, Sada-A Corunha, Ediciós do Castro (col. Ensaio-Filoloxía).
2. Resulta curioso que o “Apêndice lexical” sobre O Mandarim incluído na ediçom desta mesma narrativa queirosiana publicada no ano 2003 pela Luso-Española de Ediciones, de Salamanca, nas pp. 87-91 (numha ediçom orientada para o estudantado espanhol de português, também com actividades de teor semelhante) seja por vezes mais breve e bem diferente do desta proposta galega.
3. Outras editoras da Galiza si tinhem publicado algumha ediçom príncipe de produtos literários portugueses em original, poucas em todo o caso; como poucos fôrom também, mas alguns há, v. gr. de E. Guerra da Cal, J. Guisan Seixas, Carlos Quiroga, Elias Torres ou Raquel Bello Vázquez, livros de produtores galegos editados originariamente em Portugal.
