Por Edelmiro Momám
La traición y el contrabando
son cosas incompartidas.Ángel González
Quando se consumou a privatização de France Telecom (Orange) em 2004, os novos gestores caíram na conta de que sobrava pessoal por todas as partes. E como sobrava havia que eliminá-lo. Cousas da competitividade e isso. O problema é que muitos trabalhadores eram na altura funcionários públicos e não podiam botá-los para a rua assim como assim. Havia muita gente nova, diplomados, engenheiros e tal, polo que as pré-jubilações também não resolviam muito o problema. Havia que convencê-los de que marchassem pola sua própria vontade. Então, a companhia contratou uns assessores muito competentes que traçaram um minucioso plano de tortura psicológica que faria desistir até o mais varudo. O plano deu um resultado estupendo, não apenas marcharam muitos, alguns, por volta dos 40, até decidiram marchar de vez. Suicidaram-se. Isso chama-se eficácia que nem o Raid (kills bugs dead). Para que depois digam que estudar psicologia não serve para nada.
Há uma conhecida companhia de aparelhos electrónicos que também está a ter problemas com suicídios maciços de trabalhadores. Sim, para mais senhas, é uma companhia que tem uma maçã mordida, símbolo bíblico da tentação, como logótipo. Mas como é uma companhia muito cool para gente muito cool, em troques de contratar psicólogos para incentivar o suicídio, contratou psicólogos para paliá-lo. Aliás, também colocou barreiras de protecção para estorvar os operários de chimparem ao valeiro desde própria usina, que depois ficam os trebelhos tudos lixados de sangue, e gente cool não gosta de sangue. Essa mesma companhia tão cool para gente super-cool envia os seus refugalhos electrónicos para macro-vetedoiros electrónicos na África. Uma cousa que mete medo, tipo mil SOGAMAs mas com algo menos cheirume. Também manda chover na Havana que os africanos tenham que apandar com o lixo e a poluição sem terem podido usufruir da tecnologia (nem do design!, pois, ao cabo, é do que se trata).
Mas voltemos ao tema do suicídio. Chocou-me muito. Não apenas polo facto do suicídio em si próprio, como também pola nacionalidade dos suicidas. Chineses. Dá para pensar. Quero dizer, eu posso entender que se suicidem os franceses ou os nipões. Em certa maneira está na sua cultura. Ao final, para que serve viver sendo um loser? Mas, chinês? Chinês é como galego. Chinês é sobrevivente. Chinês, não se suicida, chinês emigra. Nós não nós importamos tanto com o facto de sermos perdedores porque, como povo antigo que somos, já sabemos que não lhe somos nada. Não posso imaginar o que lhe tiveram que fazer a essa gentinha chinesa para terem rematado por contemplar o suicídio como melhor opção. Assim e tudo, muito teve que padecer.
E, mandar, manda, já não chover, mas nevar mesmo na Havana, que a ditadura do proletariado chinesa permita que sejam as companhias americanas as que venham massacrar o proletariado chinês. Disso já se deviam encarregar eles. Porque claro, todos os dias escutamos nas notícias como o regime de Pequim desrespeita os direitos humanos da população, e já o único que lhes faltava aos trabalhadores chineses era irem as companhias ocidentais super-cool a ajudar.
Semelha que os de acima são todos muito amigos, para além de supostas divergências ideológicas. Conta Michael Moore, se me permitem a digressão, como após o 11-S, estando tudo o espaço aéreo dos EUA fechado por razões de segurança, apenas se permitiu a descolagem de dous aviões civis do aeroporto de Nova Iorque. Os que levavam a família Bin Laden de volta para o lar na Arábia Saudita (também por motivos de segurança). Muito amigos. Semelha que estamos indo cara uma sorte de feudalismo global onde todas os parasitas do mundo se puseram de acordo para sugar o sangue dos de embaixo (e do planeta inteiro).
