Por José Paz Rodrigues
(Didata e Pedagogo Tagoreano)
Depois de quase cinco meses morando na Bengala indiana, e, em concreto, na “Morada da Paz” de Tagore, desde o passado 11 de novembro, venho de aterrar na minha Terra. O primeiro ato público com que me encontrei foi o da homenagem póstuma a Manuel de Dios, celebrada no sábado dia 2 de abril em Ourense. Por estar ausente da minha cidade naquela altura, desconhecia que, com o apoio de todos os grupos políticos, no pleno do último novembro, fora aprovada a concessom da medalha de ouro da Deputaçom, a título póstumo, ao professor, escritor e músico ourensano e, por uma prolongada etapa, diretor do Coral de Ruada, Manuel de Dios Martínez. Por isto tampouco pudem aderir-me a tam merecido reconhecimento, estampando a minha assinatura, junto com a de outros ourensanos e ourensanas que muito queríamos a de Dios. Ao qual conhecim pola primeira vez como companheiro no Instituto do Pousio, no ano letivo 1971-72. Naquele ano eu terminara a minha licenciatura em Pedagogia na Complutense madrilena e o primeiro trabalho que encontrei como docente foi no antigo Instituto ourensano (hoje com o nobre nome de Otero Pedraio), para lecionar Introduçom às Ciências da Educaçom no COU diurno e noturno e Filosofia no sexto ano da jornada noturna, tendo como diretor de departamento outro grande galego como foi Jesus Ferro Couselo.
Manolo de Dios era o chefe de estudos das aulas noturnas, que desempenhava com autêntica mestria e sensibilidade. O meu relacionamento com ele foi muito importante, pois chegámos a configurar um grupo de professores (eu era o mais novel) de verdadeiros amigos, que todos os dias durante o ano saíamos para tomar juntos café e algum que outro copo de bom vinho, a cantar e tertuliar. Lembro com saudade que no grupo estavam todos aqueles professores (entre os que recordo o de desenho, o de língua filho de Taboada Chivite e a sua companheira e a professora de história), imoralmente represaliados polo diretor Ogando Vázquez. De Dios era como um pai para todos, e para aqueles professores que tantos problemas tinham com a direçom, era uma verdadeira bençom. Tanto, que o clima tam agradável que se respirava na sua companhia servia de bálsamo para aqueles, fazendo-lhes esquecer o tratamento que recebiam de quem nunca teve qualidades humanas para ser diretor e professor. Mais tarde o meu relacionamento com de Dios foi como diretor do Coral, quando assistia a algumas das suas atuações e à festa anual dos amigos em Usseira.
Estando já em Ourense, eu nom podia faltar a esta homenagem tam merecida, que com tanto acerto se lhe tributou. Num ato maravilhoso, cheio de sentimentos positivos e de são ourensanismo, o ato foi perfeito em tudo e todos os intervenientes no mesmo mereciam uma matrícula de honra. A atriz Marisa Calvo no recitado de dous formosos poemas do homenageado; o seu grande amigo Arturo na laudátio que realizou sobre ele, bela, concisa e perfeita; o seu filho ao recolher a medalha no seu pequeno e fantástico discurso; Valadares na leitura do acordo de concessom e o grupo musical dos “Velhos Amigos” na interpretaçom das duas lindas e emocionantes cantigas “Ourense ao longe” e “Ourense no solpor”. Deixo para o final a intervençom do presidente José Luis Baltar, que foi o artífice principal desta acertada homenagem, polo que merece os sinceros parabéns. O ato foi magnífico e cheio de galeguismo e ourensanismo, como há muito nom tenho desfrutado. Agora fica que uma das suas cantigas passe a ser o hino da cidade e província de Ourense, e que, por quem corresponda, se lhe dedique uma rua da cidade ou uma praça e se levante um monumento. A um Manuel de Dios que sempre levou Ourense, e também a Galiza, no seu coraçom. De maneira digna, nobre e sincera, como bom e generoso que era. E tudo isto o necessitamos que nem ginjas, para levantar a auto-estima de ourensanos e ourensanas, hoje bastante de arrasto. Por isso estranhei a ausência no ato dos candidatos a alcaides dos grupos que hoje governam daquela maneira o nosso concelho.
