Os mestres da A.T.E.O. ourensana na recordação

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Por José Paz Rodrigues

(Didata e Pedagogo Tagoreano)

Dentro da série de artigos que tenho escrito sobre a educação e a cultura na Segunda República, período da nossa história dos mais ricos no campo pedagógico, tenho de fazer a merecida e justa lembrança do grupo de professores ourensanos organizados sob as siglas da A.T.E.O. E o faço arredor das datas em que as instituições educativas decidiram centrar, no dia 7 de dezembro, as festividades relacionadas com os docentes. Para o que a seguir resenho, tomo como base as interessantes investigações levadas a cabo nos anos oitenta polo professor Cid Fernández. Este agrupamento de professores ourensanos nos alvores da nascente República foi algo surpreendente por muitos motivos que comentarei.

A A.T.E.O. foi uma associação pedagógica pluralista, sem filiação sindical nos primeiros momentos, se bem comprometida com a realidade das classes sociais populares ourensanas e com a sua positiva transformação. Inicialmente estes professores compartilhavam um mesmo ideário pedagógico, centrado no modelo educativo da ILE (Instituição Livre do Ensino, de Giner e Cossio). Também coincidiam na política liberal-republicana e socialista, a favor da liberdade, da democracia e das reformas sociais. Além disso davam uma grande importância ao respeito pola infância, ao modelo de escola laica, pública, participativa e ativa e à dignificação moral e material dos docentes.

Muito pouco depois de ser proclamada a República é criada esta associação, de nome e siglas tão significativas, que para muitos nos parecem mesmo hoje ousadas. Em maio de 1931 aprovam-se os estatutos da associação, estabelecendo a sede social na Casa do Povo. Albino Nunez é nomeado presidente, ademais de diretor da revista Escola do Trabalho, órgão pedagógico da associação e cujo primeiro número foi publicado em março de 1932.

O primeiro que surpreende é a rapidez com que os professores ourensanos se auto-organizam. Isto só se explica porque nos anos precedentes houve em Ourense um dinamismo político importante e positivo. Em que destaca o bom entendimento entre os socialistas e galeguistas com prestígio intelectual e um grupo de professores entusiastas como o já citado Nunez, mas também Manuel Sueiro – pai de professores extraordinários – Rafael Alonso e Amadeu Lopez. Ademais de intelectuais destacados, como é o caso do advogado Alfonso Paços, de Luís Fábrega e Roberto Branco Torres.

O segundo tema que surpreende é como o grupo se manteve tão unido durante os anos republicanos, apesar da grande variedade de professores com as suas próprias ideias e militâncias e uma grande diversidade de atitudes. Tema que só pode explicar-se pola habilidade e qualidades humanas dos seus líderes sucessivos, que souberam como manter a unidade por meio do debate civilizado e o respeito entre todos. Isto converteu a A.T.E.O. num exemplo de convivência pacífica entre as diversas tendências que a integravam, com debates de profunda intensidade ideológica e também pedagógica. Não conhecemos casos semelhantes em outras latitudes, ao menos com estas caraterísticas. Que fazem do movimento de professores ourensanos nesta altura algo exemplar. Em que também se apresentam os sucessivos avanços e retrocessos que se produziam a outros níveis no devir da República.

A efervescência tinha de ser grande, assim como a impaciência para mudar aquilo que levava séculos sem mudar. Isso explica também o anticlericalismo da maioria dos professores membros, em algum com verdadeira fixação, difícil de entender agora, mas que naquele momento tinha de ser entendido melhor, polos grandes erros que cometera a igreja. O caso do professor Adolfo Rodríiguez Ansias, que esteve escondido perto de 29 anos, para que não o matassem, é paradigmático do que comento.

OS PROFESSORES “ATORES”

Foram muitos os docentes, especialmente de educação primária, que decidiram integrar-se no agrupamento. Entre os republicanos moderados estavam Abel Carvajales, quem, com bom critério, defendia que na revista deviam prevalecer os artigos pedagógicos e didáticos para a melhoria do ensino, Raul Gonçalez, professor de Sampaio, que fora condenado a morte e depois se salvou, e de quem eu recuperei antes de ir ao lixo a sua biblioteca. Também Celso Baratta, Henrique Castro, Cervantes Vilamarim e Manuel Vidal.

Entre os socialistas estavam Albino Nunez, que em setembro de 1932 parte para a Corunha para dirigir o agrupamento escolar “Conceição Arenal”, Manuel Sueiro, Elígio Nunez, Rafael Alonso e Amadeu Lopez Belho. O grupo dos galeguistas estava integrado polos professores Ignácio Herrero, um dos mais versados em didática, Manuel Luís da Cunha, António Couceiro e “Ben-Cho-Shey”. Os comunistas, divididos à sua vez entre os militantes no clandestino PC e na esquerda comunista-troskista, figuravam Luís Souto, que pôde exilar-se no México, e foi um dos fundadores da UPG nos anos sessenta, Baltasar Vásquez, Félix Salgado, o já citado Amadeu Lopez e Armando Fernandez Mazas, que morreu não há muitos anos.

Um dos mais formosos trabalhos que poderiam e deveriam fazer-se, seria investigar sobre cada um dos professores citados, porque todos são bem merecedores de estudos sérios sobre o seu pensamento social e pedagógico e sobre o seu labor didático nas escolas que regeram. Infelizmente o golpe franquista provocou uma grande repressão sobre a maioria destes professores, que não puderam exercer mais nas escolas públicas e acabaram por criar academias. Outros salvaram-se partindo para o exílio. Jacinto Santiago não. Porque, como muito bem diz num dos seus artigos Neruda, na Galiza, e em Ourense em particular, foi onde se produz sobre os professores a maior repressão. Aqui foi fácil, pois os fascistas puderam pegar no livro de sócios da A.T.E.O. na Casa do Povo ourensana, onde estava depositado.

Que não voltem mais os tempos em que não é respeitada a vida das pessoas. Que é sagrada e contra a que ninguém pode atentar. E lembrar com carinho merecido o entusiasmo e a ilusão que estes mestres puseram no seu labor escolar. Exemplo para os professore de hoje e para os que se vão dedicar em breve à mais nobre tarefa, que é a de preparar as gerações de crianças, em que está o futuro do mundo.