Os dez princípios da felicidade

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Por José Paz Rodrigues (*)

Se conseguíssemos integrar os aspetos positivos das culturas oriental e ocidental, como queria o meu admirado Tagore, e deitássemos para fora os negativos de ambas, poderíamos ter uma sociedade mais autêntica, mais solidária, mais justa, com mais ética, na qual os cidadãos tratassem com carinho os seus semelhantes, cultivassem a verdade, a bondade, a generosidade, amassem a beleza ali onde se encontra e fossem felizes. Depois de ler Robindronath e outros autores indianos, antigos e modernos, que trataram este tema, decidi redigir um decálogo-resumo do que considero básico para que todos pudéssemos alcançar a felicidade.

Escrevo este meu depoimento num lugar em que tenho a sorte de estar agora, e aonde desde 2001 venho todos os anos por vários meses. Estou sentado no lugar do mestre numa sala de aulas ao ar livre da escola criada por Tagore em 1901, que chamou Santiniketon, e significa Morada da Paz. A sombra da árvore de mango ou mangueira acolhe-me, mas um raio do sol radiante, que neste momento desfrutamos, alumia a mão com que escrevo. Agora mesmo os estudantes estão a fazer a sua meditação livre, sentados na relva em postura de ioga. E tudo anima a que se medite sobre cousas profundas, difíceis de contar com palavras. Exponho a seguir os dez princípios básicos que considero fundamentais para que todos cheguemos a ser de verdade felizes:

 

 

1.-Ninguêm me vai dar a felicidade, só eu a posso conseguir : Os seres humanos temos que tomar a responsabilidade das nossas vidas e começar a busca, fazendo o necessário esforço para encontrar isso que tanto procuramos.

2.-Só eu decido o que devo fazer neste momento : Os seres humanos devem entender que as influências alheias são tão-só isso, influências, e são eles os únicos que podem decidir o que fazer em cada instante.

 

 

3.-Eu sou um ser único em toda a Terra, ninguém me compreende melhor que eu, e ninguém sabe o que eu necessito melhor que eu : Pensar assim é a melhor maneira de eliminar qualquer ofensa que as pessoas recebam de parte de outras, e qualquer comentário que deprima a uma pessoa poderá ser nulificado, já que a pessoa reconhece que ninguém pode opinar sobre ela, já que ninguém a conhece melhor que ela mesma.

4.-Nem o passado nem o futuro podem magoar-me, só o presente tem valor na minha vida : As pessoas temos que dar ao nosso momento presente o valor que tem e tirarmos importância aos feitos passados, que nos causam remorsos, e aos feitos futuros que nos criam angústia.

 

 

5.-Nas minhas decisões tomarei sempre em conta o benefício dos demais : Que bom seria que todos os seres humanos tomassem aquelas decisões que beneficiassem à maior quantidade de pessoas. Obrando assim, as nossas vidas estariam encaminhadas à maior glória que é o receber a compensação polo serviço prestado aos demais seres humanos.

6.-Só no amor e na paz interior posso tomar as decisões corretas : Se temos que atuar no momento presente, teremos que fazê-lo em paz e com amor, pois desta forma as acções que empreendamos estarão inspiradas na nossa mais alta capacidade, tanto de inteligência como de serviço.

 

 

7.-O meu rosto é o reflexo do meu estado interior : Temos que cuidar muito o aspeto do nosso rosto, adornando-o sempre com um sorriso, e que os nossos olhos se encontrem sempre dispostos a enviar um olhar de amor, porque desta forma estaremos espelhado a serena harmonia de quem aprendeu a caminhar pola senda da felicidade.

8.-O que recebo agora é o que ontem semeei, e o que semear agora há ser o que amanhã receba: Todos os seres humanos têm que reconhecer que os problemas atuais são o resultado de acções incorretas do passado, mas que, por isso mesmo, o momento presente é o indicado para ir semeando um futuro.

 

 

9.-Sou uma pessoa ao serviço da Humanidade : Tudo o que fizermos, tudo o que dissermos, tudo o que pensarmos e sentirmos, há de servir para glória da Humanidade, ou então para a perdição da mesma.

10.-Eu tenho uma missão na vida, ser feliz e fazer felizes os demais : Este princípio fundamental é o que dá verdadeiro sentido à nossa existência, e, ao mesmo tempo, orienta os nossos esforços para o benefício da Humanidade toda.

 

 

Tagore resumia tudo isto de forma maravilhosa no seu famoso aforismo: “Dormia e sonhava que a vida não era mais que alegria. Acordei e vi que a vida não era mais que servir. Servi e vi que servir era a alegria”.

Santiniketon (Bengala-Índia): 22 de janeiro de 2012.


(*) Didata e Pedagogo Tagoreano. As fotos que acompanham este artigo foram tiradas pelo próprio autor do artigo  em 19 de março de 2011, na festa popular da primavera, da alegria e das cores, que chamam “Bosonto-Utsov”.