Olladas no futuro, de Ramón Piñeiro

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Por Joám Manuel Araújo

Muito se leva falado de Ramón Piñeiro nos poucos dias decorridos desde que a Real Academia Galega acordou dedicar-lhe a comemoraçom do Dia das Letras Galegas de 2009; e muito mais se falará nos próximos meses. Isso pode ser positivo se serve para avaliar o contributo de quem foi um agente central do Grupo Galaxia e do denominado “Galeguismo”, que participou activamente na vida cultural e política galega sobretodo na segunda metade do século XX.

Umha figura também central para o campo do poder político autonómico, que o honrou na década passada ao dar o seu nome a umha instituiçom oficial. E personagem, enfim, que está a actualizar-se nos últimos meses pola editora Galaxia, ao reeditar a sua produçom, com alguns volumes já no mercado que recolhem os seus escritos, tendo-lhe dedicado, específica, a “Biblioteca Ramón Piñeiro”.

Um dos livros mais significativos dessa colecçom é Olladas no futuro1, publicado inicialmente em 1974 e agora reeditado. Trata-se de uma colectánea de quase meio cento de contributos de muito diverso feitio: artigos breves, epístolas, estudos e trabalhos de homenagem, alguns certamente curiosos ao serem lidos com perspectiva actual.

A língua e o seu futuro é assunto principal em muitos destes trabalhos; mas também valorizaçons de Rosalia, Castelao, Pimentel, Otero Pedrayo, Antón Vilar Ponte, Viqueira, Risco, Curros, Cunqueiro ou Valle-Inclán; ou vultos da cultura portuguesa como Teixeira de Pascoaes, Eça de Queirós, Jacinto do Prado Coelho, Rodrigues Lapa ou Francisco Cunha Leão. Do Reintegracionismo encontramos nas páginas deste livro alusons a Carvalho Calero ou a Carlos Durão, além de a Corominas, por colocar algumhas referências das mais de 300 páginas dessa publicaçom.

Entre os estudos há um que resulta especialmente significativo. Trata-se do intitulado (Piñeiro, 2007: 211-215) “Galicia nos estudos luso-brasileiros”, defendido como relatório no VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, celebrado no ano 1966 nas universidades norte-americanas de Harvard e Nova Iorque, e em que este intelectual galego foi umha das três figuras convidadas do campo da Lingüística. É bom lembrar como no Comité Organizador desse acontecimento encontravam-se importantes nomes de universidades dos EUA, entre eles Ernesto Guerra da Cal, na altura também colaborador principal do Grupo Galaxia, mesmo um dos principais no exterior.

Nas apenas cinco páginas desse texto, que ele próprio define como “breve e esquemático panorama histórico do galego”, Piñeiro conclui que os especialistas em estudos luso-brasileiros devem interessar-se por Galiza, e argumenta-o destarte (p. 215):

En primeiro lugar a comunidade das orixes idiomáticas. Durante os períodos da romanización, da cristianización e da formación do romance galego, a Gallaecia foi unha unidade cultural e política. De aí que, en rigor, débese hoxe falar de cultura galego-luso-brasileira.

En segundo lugar, a comunidade literaria durante o ciclo medieval galego-portugués.

En terceiro lugar, a conservación dun gran caudal documental dos séculos XIII ao XVI.

Finalmente, o interesante fenómeno do seu vigoroso rebrote cultural contemporáneo.

Temos, xa que logo, unhas orixes idiomáticas galegas –da Galecia–, unhas orixes literarias galego-portuguesas e unha comunidade cultural actual galego-luso-brasileira.

Este e outros trechos desse volume, que contém textos redigidos originariamente entre meados das décadas de 40 e 70 da centúria passada, evidenciam como o dito Galeguismo defendeu naquela altura pressupostos de aproximaçom ao espaço luso-brasileiro que abandonou com posterioridade.

É este um assunto do maior interesse para compreender a nossa história lingüístico-cultural –e política– de finais do século passado e mesmo da actualidade.

Oxalá, pois, a comemoraçom da efeméride das Letras Galegas2 nom se convirta num ritual de pouco interesse e sirva para um diálogo aberto e frutífero que permita conhecer melhor o passado para, a partir dele, avançar para a frente com decisom e trabalhar por um futuro em que exista umha convergência de actuaçom e interesses entre os defensores da língua da Galiza. Que ajude, enfim, para ultrapassar as divisons actuais, que estám a enfraquecer as perspectivas do idioma, apesar de ter a potencialidade de desfrutar de um mercado de mais de 230 milhons de lusófonos na CPLP, que nom se está a aproveitar e para o qual, com as excepçons bem conhecidas neste meio, se continua a virar as costas propositada e irresponsavelmente.

Compostela, Julho de 2008

 

 
 
 
 Capa da última ediçom de Olladas no futuro
Ramón Piñeiro (Ed. Galaxia, 2008)

 
Notas:

1. Piñeiro, Ramón, (2007), Olladas no futuro, Vigo, Galaxia, Biblioteca Ramón Piñeiro, nº 2.

2. A celebraçom mantém-se desde 1963. No tempo do franquismo também havia comemoraçons como o “Día del Subnormal” ou o “Día del Domund”, que fôrom perdendo força com a normalização democrática. No entanto, a efeméride das “Letras Galegas” mesmo se pode dizer que é na actualidade a actividade central da Real Academia Galega, sem dúvida a que lhe oferece maior projecçom na sociedade galega, o que prova como soubo tirar-lhe rendimento e transformá-la.