O Teatro Principal de Ourense

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Por José Paz Rodrigues (*)

Dentro de uns dias vão ter lugar em Ourense uns atos culturais ao redor do que significou e significa a Rua da Paz para a Cidade das Burgas. Rua em que se encontram as casas que foram morada de Otero Pedraio, Vicente Risco e Joaquim Lourenço, importantes vultos da chamada Geração “Nós”, criadores da revista cultural galega do mesmo nome, ainda hoje não superada na Galiza. E perto da casa de outro grande galego e ourensano Florentino Cuevilhas, próxima à formosa Praça do Ferro com a sua fonte de pedra cisterciense no centro da mesma. Nesta rua encontram-se também formosos cafés, a livraria Torga, a loja “Vento do Sul” e o lindo Teatro Principal, recuperado no seu dia. Precisamente deste teatro é que quero falar desta vez, pela minha vinculação com ele.

Das muitas cousas que sobre educação e cultura tenho feito desde 1971 na minha cidade, há uma da qual me sinto verdadeiramente orgulhoso. Foi o ter colaborado na salvação do nosso Teatro Principal da rua da Paz. Em novembro de 1975, o cineasta Eloi Lozano, o pintor Pepe Conde Corbal, o arquiteto Santi Seara e quem subscreve, constituímos o grupo “Adepende” com o objetivo decidido de impedir que o nosso Teatro fosse derrubado. Como infelizmente acontecera com outros muitos edifícios nobres da cidade. Para isso iniciámos uma campanha sob o título de “Trata-se de salvar o Principal”. Durante mais de um mês trabalhámos sem descanso para organizar, com fotos, cartazes e painéis uma magna exposição, da qual eu ainda conservo os diapositivos da mesma. Que em dezembro desse ano foi exposta pola primeira vez na sala nobre do Liceu ourensano. Para desenhá-la, utilizámos os espaços do estudo artístico que Conde Corbal tinha num pátio interior do Parque de São Lázaro. Fora muito importante a ajuda que desde La Región nos prestaram Sánchez Izquierdo e, muito especialmente, Maribel Outeirinho. Que a considerávamos mais uma do grupo. Porque Maribel sempre amou a nossa cidade e estava totalmente identificada com as nossas reivindicações. Ainda lembro com saudade aquela entrevista que lhe fez a D. Ramóm Otero Pedraio e publicou no diário local. A sua frase lapidária: “É mais importante salvar o Principal que uma igreja românica. Igrejas há muitas, Teatro só um”, foi um apoio magnífico à nossa campanha. Carlos Estévez desde o Colégio de Arquitetos ourensano, e o fotógrafo Del Rio, também deram o seu contributo.

A ‘alma mater’ do grupo era o artista Pepe Conde, com profundo humor risquiano. Mesmo as denominações do nosso grupo e da campanha, são totalmente risquianas. Ademais, por proposta de Conde, os textos utilizados eram do próprio Risco, e, em especial do livro O Ourense perdurável. Tomando como coração da exposição o Teatro, fomos colocando ao redor ruas, monumentos, estátuas, praças, desfeitas (algumas que se estavam a fazer naquele preciso momento) e transferências históricas sem senso algum, acontecidas na nossa cidade. O tempo que utilizámos para organizar tudo foi muito agradável e eu aprendi muitas cousas sobre o meu Ourense. Como que, durante décadas, foram deslocadas de lugar muitas cousas, e no caminho sempre se perdeu alguma peça: a estátua de Conceição Arenal, o cruzeiro de São Lázaro e a capela, a fachada de S. Francisco, o hospital de S. Roque… Aprendi também a grande personalidade que foi Risco, que infelizmente não pude conhecer, porque eu vim para Ourense em setembro de 1963, da minha aldeia de Corna, e D. Vicente falecera em abril. Não quero esquecer-me tampouco de que o Cinema Clube “Padre Feijóo”, que presidia Emílio Losada, e eu era do quadro de direção do mesmo, projetou o filme inglês de Tony Richardson “Um sabor a mel”, nos Salesianos, para arrecadar fundos para a campanha.

O nosso formoso Teatro fora construído em 1830, seguindo o modelo italiano que também é o do “Beatriz Galindo” de Madrid. No dicionário de Madoz de 1845 já se fala dele. Em 1915 é adaptado também para cinema. E mesmo nele funcionou durante um tempo o histórico Cinema Clube “Minho”. A princípios dos setenta foi fechado. Eu lembro ainda que a primeira vez que nele entrei foi em outubro de 1963 para ver o filme “Parrish” de Delmer Daves. E já ficara prendado do seu teito e dos decorados. Depois fui ver filmes muitas vezes. Vitorino Núnhez, convém dizê-lo, foi logo em 1982-83 o verdadeiro artífice da salvação, assumindo em solitário a Deputação que presidia, a sua aquisição. Falharam antes outras instituições para colaborar. Durante anos, com grande esforço, levou-se a cabo a restauração definitiva. Em 1990, sendo Conselheiro da Cultura da Junta da Galiza Daniel Barata, foi inaugurado tal como hoje o temos. Eu gostaria que se mantivessem o teito tal como era e os decorados de Parada Justel. No entanto reconheço que também assim ficou muito bem. Com o teito desenhado por Jaime Quessada. Após a sua recuperação é também a sede do nosso Coral de Ruada e ali leva a cabo os seus ensaios semanais. E gostaria mais que na atualidade fosse melhor gerido. Como quando o fazia Manolo Rego Nieto.

 

Teito Antigo do Teatro Principal de Ourense

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.