Por José Paz Rodrigues (*)
No dia 7 de agosto de 1941 falecia em Santiniketon Robindronath Tagore e era trasladado à capital de Bengala, Kolkata (nome atual de Calcutá). As suas cinzas foram espargidas sobre as sagradas águas do rio Hugli, em cuja ribeira se conserva um monumento para recordar este feito. Por isso agora se celebra o 70 aniversário de sua morte, e como o passado sete de maio se comemoravam os 150 anos de seu nascimento, este ano foi declarado em todo o mundo como “Ano de Tagore”.
Robindronath foi um bengali com uma personalidade única e extraordinária de categoria mundial. Cultivou infinidade de temas: foi um grande músico, um grande pintor e um educador excecional, criador da primeira escola nova do Oriente em 1901. Também foi um magnífico jornalista, reformador social, sociólogo, peregrino por todo o mundo, filósofo e um literato prolífico, merecedor do Prémio Nobel de Literatura, que lhe concedeu a Academia Sueca em 1913. Escreveu tanto que a dia de hoje ainda não estão publicadas as obras completas no seu idioma materno, o bengali, chamado Bangla. Cultivou todos os géneros literários, destacando em todos eles: romances, contos, aforismos, epigramas, teatro, óperas-dramas, ensaios de todo o tipo de temas, canções com a sua música e poesia. Por esta é muito apreciado e na Índia, quando os indianos mencionam a palavra “Kobi”, que significa “Poeta”, todos pensam em Tagore como o maior poeta e o mais sublime. Igual é conhecido como “Gurudev”, o mestre de mestres. E muitos unem os dous termos denominando-o “Kobiguru”. O seu amigo Gandhi chamava-lhe “Sentinela da Índia”.
Muitos de meus amigos e leitores solicitam-me a miúdo orientações bibliográficas sobre livros tagoreanos que possa recomendar-lhes para ler. Como escreveu em todos os géneros, o primeiro que lhes peço a meus interlocutores é que me digam de que género gostam mais, e, em concreto, romance, conto, teatro ou poesia, para poder orientá-los e ter em conta o que há publicado em galego-português. Muitos títulos se podem conseguir usando um motor de pesquisa de livros antigos pola internet como é Iberlivro.
Pequeno guia de leitura de Robindronath Tagore:
Romances: Ainda há vários sem traduzir, inclusive ao inglês. Para mim os quatro mais formosos e importantes, em que as mulheres são as personagens mais destacadas, são: Gora, de que há edição em galego-português com o título de Inquietação, e tradução de Alexandre Fonseca; Noukadubi, com duas versões em galego-português, uma por Telo de Mascarenhas com o título de O naufrágio, e outra brasileira de Gasparino Damata, sob o título de Dois amores e um rio; Ghore Baire, intitulado A casa e o Mundo e de que existem várias edições e diferentes tradutores (Mascarenhas, Fernanda Pinto, Wanda Ramos e Raul Xavier); Choturongo, com título galego de As quatro vozes e tradução de Mascarenhas desde o idioma original Bangla. Deste romance há outra versão brasileira intitulada Çaturanga, belamente ilustrada e feita pola grande poetisa Cecília Meireles. Como é natural, os romances citados, contextualizam-se na Índia, e mais em concreto em Bengala, e para entendê-los de forma mais completa e profunda nada melhor que conhecer a cultura, as religiões e costumes da Índia, ademais da história do país na sua luta pola independência e no momento em que Tagore as escreveu. Algumas foram levadas ao cinema com bastante acerto.
Contos: Tagore escreveu infinidade de contos, todos eles muito lindos. De eles só uma pequena quantidade foram traduzidos para o galego-português. Com tradução de Telo de Mascarenhas publicou-se em Portugal o conto Mashi e A chave do enigma e outros contos, e no Brasil por outros tradutores, como Cecília Meireles, Leonardo Froés e Aloísio Costa, Mashi, A noite de núpcias e O casamento e outros contos.
Autobiografia: São muito formosas as memórias escritas quando Tagore contava com cinquenta anos de idade. No Brasil, Gulnara Lobato traduziu o livro original bengali de lembranças tagoreanas Jibonsmriti, sob o nome de Memórias. Existe outro livro autobiográfico de Tagore que espera ser traduzido para o nosso idioma. Assim como outro recente coordenado pola minha amiga bengali Uma Das Gupto, intitulado Palavra por palavra, de que existe edição inglesa e castelhana.
Aforismos: Robindronath escreveu cinco livros de aforismos. O mais famoso, escrito por Tagore na sua visita ao Japão com o título de Stray Birds, no Brasil, com o nome de Pássaros perdidos, foi traduzido polo poeta Abgar Renault. Polo seu grande sucesso, do mesmo existem muitas edições. Infelizmente, outro seu famoso livro de aforismos, Ionakiguli (Vagalumes ou Pirilampos), ainda não foi vertido para a nossa língua.
Poesia: Embora Tagore seja reconhecido especialmente polo seu famoso livro Guitánlholi (Oferenda lírica), tiveram maior sucesso os seus livros A lua crescente e O jardineiro. O primeiro acolhe formosos poemas sobre a criança e sua relação com a mãe, e o segundo é uma antologia de poemas de amor, com uma grande influência nos poetas da geração do 27, em Neruda, nos brasileiros Cecília Meireles, Abgar Renault e Guilherme de Almeida (este foi membro do Seminário de Estudos Galegos), e no galego Avilês de Taramancos. No Brasil, com tradução dos três poetas brasileiros citados, em belas edições, foram publicados Oferenda lírica, O jardineiro, A lua crescente, A fugitiva, A colheita e Purobi. Com tradução de José Agostinho Baptista, a editorial de Lisboa Assírio-Alvim, publicou em 2004 Poesia, uma antologia poética de Tagore. Em São Paulo, com tradução de Ivo Storniolo, publicou-se em 2003 outra antologia poética tagoreana com o título de Poesia mística (Lírica breve).
Teatro: A maior parte das obras teatrais, e as suas famosas óperas-dramas, ainda não estão traduzidas ao nosso idioma. Tagore escreveu-as para serem representadas na sua escola nova de Santiniketon (Morada de Paz), e especialmente com motivo das festas populares do ciclo anual que ali tem lugar. A única edição realizada na Galiza, com tradução um bocadinho requintada de Júlio Cuns Lousa, em 1976, e por edições d’O Castro-Sada, foi a das formosas obras teatrais: O carteiro do rei e Malini. No Brasil Cecília Meireles, grande tagoreana, fez em 1962 uma magnífica tradução de O carteiro do rei, para ser representada e comemorar no seu país o centenário do nascimento de Tagore. Já em 1914, em Goa, José Ferreira Martíns publicou a obra teatral tagoreana Chitra.
Ensaio: Tagore escreveu numerosíssimos ensaios e artigos sobre todo tipo de temas e dos mais variados. E especialmente relacionados com a educação e a cultura. Desgraçadamente o seu livro Na procura do homem universal, editado em vários idiomas com motivo do seu centenário, não tem ainda edição na nossa língua. Uma equipa de especialistas escolheu aqueles artigos de Robindronath que consideravam mais valiosos e interessantes para o pensamento mundial, e foram recolhidos num volume. Outros livros de ensaios em edição brasileira, foram O significado da vida, A religião do homem, Sadhana ou o caminho da realização e O Cristo. Nesta altura estou a preparar a que vai ser a primeira edição no nosso idioma dos artigos educativos de Tagore, muito dispersos em infinidade de publicações periódicas e a maioria em idioma Bangla.
Correspondência: Milhares e milhares de cartas de Tagore, e enviadas a Tagore por infinidade de pessoas de todo o mundo, foram digitalizadas no seu dia e conservam-se no Museu Tagore de Santiniketon. Quase toda a sua correspondência encontra-se inédita. Na nossa língua não existe livro algum sobre esta interessante matéria. Seria importante preparar a edição dum livro, com os comentários correspondentes, que recolhesse as cartas de Tagore com Adeodato Barreto e Gastom Figueira e as muitas que ao longo do tempo recebeu do Brasil, Portugal e outros países da lusofonia.
Só me resta dizer que Vicente Risco traduziu poemas de Tagore para o galego, que foram publicados no seu dia em A Nosa Terra e na revista Nós, e que seria interessante recuperar. Assim como os poemas que lhe dedicaram a Robindronath as tagoreanas Pura e Dora Vázquez. E os artigos sobre Tagore que, ademais de Risco, publicaram em diversos jornais e revistas os galegos Del Riego, Biqueira, Borobó, Joaquina Galhego, Avilês de Taramancos, Vilar Ponte e quem assina. De todos os livros citados anteriormente existem exemplares e cópias na biblioteca Tagore do autor do presente artigo.
Santiniketon (Bengala), a 18 de dezembro de 2011.
(Ano Tagore)
(*) Didata e Pedagogo Tagoreano.
