O povo e a mulher santal

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Por José Paz Rodrigues (*)

Os povos mais antigos da Índia são os Santales, que habitam territórios rurais dos estados de Bengala ocidental, Orissa, Assam e Bihar. A maioria das aldeias santales concéntram-se no distrito bengali de Birbhum, muito perto e nos arredores da Santiniketon tagoreana. Os santales, de pele mais escura que o resto dos indianos, têm a sua própria língua, o santali, que conservam com orgulho, a sua própria cultura, as suas normas de vida, as suas tradições, as suas artes populares e os seus costumes ancestrais. O seu maior problema é o não o terem qualquer casta das quatro estabelecidas há milhares de anos polos hinduístas. Por isto são bastante discriminados e marginalizados, embora a constituição atual da Índia não admita as castas e seja avançada e democrática, por nascer com a independência do país.

Os Santales têm que se dedicar a tarefas que outros indianos não realizam: cuidar das casas, serviço doméstico, fazer a limpeza dos lares e outras tarefas mais rurais. Isto levou-os instintivamente a fecharem-se mais sobre as suas comunidades, existindo muitas aldeias em que só habitam eles, com as suas peculiares casas de barro vermelho, aliás, muito bem cuidadas e muito limpas no seu interior, e cobertas de colmo da palha do arroz. Muitos são cristãos, embora também existam bastantes hinduístas e quase nenhum muçulmano. No cristianismo encontraram esse apoio solidário e de irmandade do Evangelho, frente à histórica marginação dos hinduístas com casta, herdada já dos Mogóis invasores de raça ária. Muitas casas têm a cruz decorada por cima das portas. Todos são agricultores e gadeiros e alguns excelentes jardineiros das casas de veraneio dos da cidade. Outros, mas poucos, são artesãos.

 

 

Sou muito feliz visitando as diferentes povoações santales que estão ao redor da Morada da Paz de Tagore: Fuldanga (lugar das flores), Gualpara, Balipara, Purundupur e Moldaga. Neste último lugar, uma mestra bengali de primeira casta, que casou com um homem santali, facto inaudito por estas terras, que merece o maior aplauso, criou uma escola para as meninas santales, que habitualmente não assistem à escola e terminam por não saber ler nem escrever. Todos os anos visito as suas salas de aulas e os campos nos que as raparigas, todas formosas, cultivam o arroz, as batatas, os tomates e hortaliças para a sua mantença. Em todas estas aldeias sou muito feliz, com as suas crianças e os seus vizinhos. Ficam assombrados porque pego no colo as criancinhas pequenas, facto que um indiano com casta nunca faria, por pertencerem os Santales ao grupo dos Intocáveis, que não se podem tocar. Por isto me admiram, e onde já me conhecem muito me apreciam. Também é um prazer estar na sua missa dominical.

Estas aldeias lembra-me muito a minha infância nas aldeias da Corna onde nasci, a de meu pai de Arneiros e a de minha mãe de Torcela. Todo me traz lembranças: os jogos da bilharda, dos bugalhos, das olas, da viola, da macaca, os labores comunitários da malha e da mata do porco, as festas populares, o leite maçado e o requeijão, as medas de palha, o colmado das casas, os fornos e as cozinhas de lareira… Por vezes parecem-me as nossas aldeias em tempos em que os vizinhos se ajudavam e se levavam bem, e não havia os egoísmos de hoje.

 

 

Polo geral os homens santales trabalham o campo, mas também há preguiçosos que trabalham pouco e se dedica mais a jogar cartas e beber o aguardente que fazem do arroz. Por isto, ademais das crianças, o melhor dos Santales são as mulheres. Estas não param de trabalhar, levando a sua casa e o cuidado amoroso dos seus filhos, procurando lenha para o lar, lavando, cozinhando e, em muitos casos, trabalhando também em casas alheias por um ínfimo jornal. Quando Tagore em 1901 criou a sua escola nova pensou essencialmente no ensino dos rapazes e raparigas santales, que viviam nos campos próximos. Para eles organizou tudo e criou logo em Sriniketon em 1922 uma granja-escola. Nos primeiros anos a maioria dos escolares eram pertencentes às tribos santales. Infelizmente hoje, o que é uma injustiça tremenda, nas aulas de Santiniketon menos de um por cento de estudantes são Santales. E maior injustiça é que quase todas as meninas destas comunidades não frequentam a escola e, por isto, são analfabetas. Embora tenham uma inteligência natural extraordinária.

O outro dia conhecim uma rapariga santal lindíssima, de olhos e cabelo preto primorosos, chamada Mala Soren. O seu nome significa “colar de flores”. Tem uns 25 anos e pedia-me chorando que, por favor, lhe ensinasse a ler e escrever e que depois de aprender castelhano a levasse para Espanha. Contou-me que só sabia escrever o seu nome e apelido, e que quando estava em idade escolar não a mandaram à escola por ser mulher e por ser santal. Pelo contrário, o seu irmão mas velho foi, e por isto não é analfabeto. Hoje lim o formoso artigo de Tagore titulado “A Mulher Santal”, e comprometim-me a mim mesmo a criar aqui uma escola de alfabetização de adultos, ou, se for o caso, aproveitar e apoiar alguma das que existem para crianças, ocupando polas tardes as suas aulas para ensinar a ler e escrever às mulheres santales adultas. A primeira a ser admitida teria que ser Mala, de apelido santalí Soren.

 

 

(*) Didata e Pedagogo Tagoreano.