O pensamento Luso-Galaico-Brasileiro (1850-2000). Actas do I Congresso Internacional

Partilhar

Por Joám Manuel Araújo

Todos falárom a mesma língua e nela se entendêrom sem necessidade de tradutores; mas na escrita dos trabalhos nom acontece o mesmo.

No mês de Maio saírom do prelo estes três volumes de Actas, que serám umha referência para os estudos da Filosofia. Neles reunem-se trabalhos defendidos com ocasiom do Primeiro Congresso Luso-Galaico-Brasileiro da disciplina, celebrado no Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa em Outubro de 2007. Som no total mais de 2.100 páginas, distribuídas da seguinte maneira:

No Volume primeiro (749 páginas):

I. “Sessão solene de abertura do congresso”; com a intervençom de Arnaldo Pinho (Universidade Católica Portuguesa).

II. Textos das conferências; inclui as proferidas por António Braz Teixeira (Universidade Autónoma de Lisboa), Antonio Paim (Rio de Janeiro), Xosé Luís Barreiro Barreiro (Universidade de Santiago de Compostela [USC]) e Afonso Rocha (Universidade Católica Portuguesa).

III. Metafísica e Ontologia: 30 trabalhos.

No volume segundo (671 páginas):

IV. Racionalismo e Religião: 12 trabalhos.

V. Antropologia, Ideia do Homem: 13 trabalhos.

VI. Reflexão Ética: 5 trabalhos.

VII. Reflexão Jurídica: mais 5 trabalhos.

E no terceiro volume (709 páginas):

VIII. Reflexão Estética: 8 trabalhos.

IX. Reflexão Política: 6 trabalhos.

X. Nos 150 Anos do Nascimento de Sampaio (Bruno): 6 trabalhos.

XI. Vária: 14 trabalhos.

XII. Encerramento do Congresso: com o discurso de encerramento, de José Esteves Pereira (Presidente do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira da Universidade Nova de Lisboa).

O repositório finaliza com um capítulo sem numerar, intitulado “Palavra Final da Comissão Científica sobre o Congresso”, que recolhe intervençons de António Braz Teixeira, António Paim e Xosé Luís Barreiro Barreiro.

Das mais de cem intervençons recolhidas, há umha notável presença galega, por mais que nom atinja todas as áreas, e que se concretiza nos seguintes trabalhos:

a) Umha das conferências inaugurais, de Xosé Ramón Barreiro Barreiro (pp. 83-130), intitulada “O Pensamento Galego entre 1850 e 2000: Presenzas e Tendências”.

b) No volume primeiro, capítulo III, os estudos de Ramón Sánchez Rodríguez (“Olladas ao Infinito: Galiza e Portugal. Um enfoque de Victoriano García Martí“, pp. 213-245) e Andrés Torres Queiruga (“Amor Ruibal, Pensador no Cambio de Século”, pp. 267-286), os dous da Universidade de Santiago de Compostela (USC); e mais outro de Manuel Rivas García (“Viqueira, o filósofo da Xeración Nós“, pp. 387-411), do IES Rosalia de Castro de Compostela.

c) No volume segundo, no capítulo IV, o de Victorino Pérez Prieto (“O Pensamento Relixioso na Xeración ‘Nós’: Galeguismo e Cristianismo”, pp. 73-90), da Universidade da Corunha.

d) No capítulo V os de Xosé Ramón Mariño Ferro (“Lazos entre as Culturas Tradicionais Galega e Portuguesa”, pp. 241-261), e Anxo González Fernández “Portugal e o Pensamento Centroeuropeo na Galega Xeración Nós“, pp. 263-293), os dous da USC; e mais o de Humberto Busto (“Rexurdimento polo Espírito: Irmandades da Fala e Renascença Portuguesa”, pp. 421-442) do IES Cacheiras.

e) E no terceiro volume, no capítulo VIII, de Luís Garcia Soto (“Os Eoas: Poema, e Drama, Teológico-Político de Eduardo Pondal“, pp. 43-57), da USC.

f) No capítulo IX, os de Carlos González Figueiras (“As ideias sobre o Relacionamento Galego-Português nos Processos de Elaboraçom dos Projectos de Estatuto de Autonomia para a Galiza [1846-1981]”, pp. 151-170); e de Roberto López-Iglésias Samartim e Gonçalo Cordeiro Rua (“O Pensamento Cultural Galego em Referência a Portugal: Posiçom e Funçom de Ideias e Grupos no Tardofranquismo e na Transiçom”, pp. 171-196), os três pesquisadores do Grupo Galabra da USC.

g) No capítulo XI, os de Elias J.Torres Feijó (“Portugal nas Velas do Galeguismo Contemporâneo: De Teófilo Braga a Manuel Rodrigues Lapa“, pp. 371-401); Joel R. Gômez (“O Pensamento de Ernesto Guerra da Cal sobre a Lusofonia: Umha Estratégia para a Internacionalizaçom da Língua e a Cultura da Galiza”, pp. 403-427), os dous do Grupo Galabra da USC; e o de María Xosé Agra Romero (“O Pensamento Feminista na Galiza –1850-2000”, pp. 481-506), também da USC.

h) E umha das três intervenções assinaladas como “Palavra Final”: a de Xosé Luís Barreiro Barreiro (pp. 699-700), que dá fim ao magno repositório.

Apesar de os diferentes estudiosos se centrarem na análise da actividade filosófica dos seus respectivos países, há alguns trabalhos que colocam em diálogo a Galiza e Portugal, Portugal e o Brasil, ou os três povos. Isso faz que a Galiza seja objeto de atençom, v. gr., em trabalhos que focárom o pensador português Agostinho da Silva, bem conhecido polo seu interesse, relaçons e iniciativas a respeito da cultura galega; ou muito em especial nos intitulados “Manuel de Oliveira Guerra e a ‘Terra Nai’” (Volume terceiro, capítulo XI, assinado por Maria Virgínia Santos Guerra e Pedo Vilas Boas Tavares, nas pp. 593-606); e na Conferência de Encerramento, “Do Caminho de Santiago ao Cruzeiro do Sul: Pensar em Português e em Galego” (também no volume terceiro, pp. 675-690), proferida por José Esteves Pereira.

Som muitos os interesses desta publicaçom e do acontecimento em que se alicerça, mas o principal de todos eles, sem dúvida, o diálogo estabelecido entre especialistas dos três países sobre assuntos de interesse comum para a sua actividade e produçom. Esse diálogo, nas intervençons orais realizadas na seqüência do Congresso, fôrom feitas numha língua comum, com os diferentes sotaques brasileiros, portugueses e galegos, que nom empecêrom a comunicaçom. No entanto, na reproduçom escrita de agora, observamos como brasileiros e portugueses utilizam a ortografia comum com as respectivas peculiaridades dos seus países; porém, entre os galegos, há três reacçons: Garcia Soto e Torres Feijó empregam o padrom português; González Figueiras, López-Iglésias Samartim, Cordeiro Rua e Gômez, a normativa da Associaçom Galega da Língua (AGAL); e os restantes a do ILG-RAG. Quem optárom polo padrom português ou pola proposta da AGAL utilizam um cánone ortográfico que nom presenta dificuldades para os leitores luso-brasileiros. Nom obstante, quem escolhêrom a norma de ILG-RAG cometem umha pequena injustiça, porque estas pessoas da Galiza entendem bem aos restantes colegas, mas som difíceis de entender polos nom galegos, ao utilizarem essa grafia “extravagante” (por utilizarmos o adjectivo que lhe aplicou o saudoso Carlos Casares, como é bem conhecido), dificultosa para portugueses e brasileiros. Em definitivo: todos falárom a mesma língua e nela se entendêrom sem necessidade de tradutores; mas na escrita nom acontece o mesmo, o que devera levar estes especialistas galegos a reflexons para tentar mudar em próximas ediçons que, confiamos, terá este magnífico acontecimento.

Este Congresso, em todo o caso, representa mais um passo para a frente a respeito de iniciativas precedentes que visavam privilegiadamente o encontro bilateral, nomeadamente os simpósios Luso-Galaicos de Filosofia que se organizam desde 1999, de colaboraçom entre as universidades de Santiago de Compostela e do Minho; os colóquios Tobias Barreto e Antero de Quental; ou a actividade do Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro, iniciativas a que se aludiu nas intervenções.

Na “Sessão Solene de Abertura do Congresso” o Professor Arnaldo de Pinho, presidente da Comissom Científica, referiu-se ao trabalho realizado nos dez anos anteriores polo Centro de Estudos de Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa na sua sede regional portuense, e afirmou: (Volume primeiro, p. 11) “Se de aqui saísse a vontade firme de realizar um segundo Congresso, daqui a dois anos, no Brasil ou na Galiza, seria um bom fruto deste primeiro encontro luso-galaico-português”, acrescentando que esse primeiro, felizmente materializado, bem poderia ser o início de um “novo ciclo” para os estudiosos desta área do conhecimento. Há que almejar a maior fortuna para essa proposta, e de nom ser em dous que seja em três anos, mas que nom se perda a continuidade de umha iniciativa tam positiva e que com certeza pode contribuir para, como também manifestou este mesmo Professor, “interessar as novas gerações” na Filosofia. Umha Filosofia que se deve trabalhar mais como a maneira das persoas de entender-se a si próprias e a sua relaçom com a comunidade e com o mundo, dialogicamente, criticamente, dialecticamente, democraticamente, para atingirem um melhor futuro, com mais progresso e qualidade de vida, com aceitaçom e reconhecimento dos outros, e com respeito pola dignidade de todas as gentes e pola diversidade cultural e de pensamento, integrando activamente e nom excluindo, entre outras possíveis conseqüências do pensamento na acçom.

Santiago de Compostela, 27-29 de Novembro de 2009.


Mais info: