O marechal Ney entra em clausura (I)

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Por Joám Lopes Facal

Para todas as mulheres que tecérom a sua teia em soidade.

Para Isaac, que começou a tecer a sua de palavras em clausura.

Michel Ney, duque d’Elchingen, príncipe de Moscovo e marechal d’Empire, foi fusilado na Praça do Observatório de Paris em sete de dezembro de 1815. Uns meses antes, em dezoito de junho de 1815, o marechal defendia com 24.000 homens um flanco estratégico em Waterloo para atalhar a ajuda das tropas británicas ao exército prussiano. O marechal tinha nascido em 1769 e contava no momento do seu fusilamento 47 anos.

Em três de maio de 1809, o jovem marechal encontrava-se em Santiago de Compostela e tinha resolvido visitar de imediato os mosteiros de clausura a fim de conhecer a sua situaçom. Decidiu principiar polo mais respeitado da cidade pola sua antiguidade, a quantia das suas rendas e propriedades e o facto de ali se recluirem por vida as meninas fidalgas de toda a Galiza: Sam Paio de Antealtares. Violar a clausura das consagradas era umha ímpia decisom que deveu comover intensamente a cidade do apóstolo, mas, para o marechal d’Empire, talvez nom passasse de ser um breve trámite incidental na penosa campanha de submissom da Galiza que lhe fora encomendada. Quatro semanas depois justamente, o marechal aprestava-se a travar batalha contra as forças resistente á beira do rio Verdugo, ao fundo mesmo da Ria de Vigo.

Em sete de junho de 1809, o marechal, ao mando de 10.000 homes, alcançava Ponte Sam Paio onde o esperavam as tropas patrióticas galegas comandadas polo coronel Pablo Morillo. As cargas do marechal, nom conseguírom quebrar a resistência dos voluntários galegos apesar dos reiterados intentos. Em dia nove, depois de ponderar a perda de vidas e a impossibilidade de culminar com êxito a batalha, o marechal convocou Conselho de oficiais e determinou dar ordem de retirada a Lugo onde o esperavam as tropas do marechal Jean de Dieu Soult que se viram obrigadas abandonar Portugal. Em julho de 1809 os dous marechais abandonavam a Galiza com destino ao seu país

O episódio da violaçom do recinto beneditino feminino foi narrada com compassiva intimidade polo investigador da mesma ordem, García Mª Colombás OSB (Ordo Sancti Benedicti)1. O hermético e severo mosteiro compostelano com a sua imensa fachada para a Quintana, coroada por duas filas superpostas de 24 janelas gradeadas, 48 em total, além das correspondentes ao coro da igreja e as que abrem no bordo inferior de fachada, formam um fascinante pano barroco, severo e poderoso, difícil de esquecer. A fachada que dá para a Via Sacra abre sobre a mesma um majestoso portal em arco coroado por friso de tríglifos e métopas entre duas espectaculares colunas dóricas presididas por um frontom curvo que deixa espaço para um escudo imperial. Em meados do XVIII o mosteiro abria finalmente a Porta dos Carros culminada por alto miradoiro barroco sobre a encantadora cena da Fuga a Egipto que os compostelanos adoram desde sempre. Os artífices da torre fôrom os reputados arquitectos Fernando de Casas e Lucas Ferro Caaveiro, lá por volta de 1750.

A comunidade de Sam Paio constituía o refúgio claustral inveterado das fidalguinhas galegas incitadas a tomarem os hábitos e tinha bem ganhada fama de abastança tanto polas dilatadas propriedades rústicas que possuía desde que se tivesse memória até mesmo pola lendária arca de dotes que em tempos chegou a financiar até a própria monarquia hispánica. Infelizmente, corriam maus tempos e rendas e dotes tinham descido muito no final dos setecentos. As donas de Sam Paio ostentavam contudo um firme compromisso com a defesa do trono e do altar, tam gravemente ameaçados pola onda de impiedade que procedia de Paris. O decidido apoio da comunidade às forças patrióticas resistentes contra o francês era bem conhecido por todos na cidade.

Em junho de 1808, a comunidade, que atravessava na altura signos inequívocos de escassez, fijo entrega, apesar de todo, de 22.000 reais da sua exausta arca de dotes à Junta Suprema estabelecida na Corunha. No mês de julho do mesmo ano doaram roupa ao Batalhom Literário e no onze do mesmo mês a comunidade contemplou com emoçom contida desde as gradeadas janelas superiores do muro ocidental de Sam Paio a formaçom do garboso Batalhom no Campo de Santa Susana.

Logo após, inesperadamente, abatérom-se tempos de afliçom sobre a piedosa cidade e as comunidades de clausura que a custodiavam. Exercia de corregedor de Compostela por ordem directa do marechal Ney o catedrático da Universidade Manuel Sánchez Boado e Fraguio e como Director Geral da polícia outro catedrático da Universidade, Pedro Bazán e Mendoza, “persoa de grande ilustraçom, embora de ideias completamente pervertidas e volterianas” em implacável juízo do sábio antiquário catedralício António Lopes Ferreiro.

O mosteiro de Sam Paio foi cominado à entrega imediata de 150.000 reais às arcas públicas sob ameaça de trasladar qualquer escusa ou negativa ao excelentíssimo duque de Elchinguem e, o que era pior, à possível detençom em caso de negativa dos monges vicários do mosteiro, residentes no vizinho mosteiro de Sam Martinho Pinário.

A inapelável ordem recebeu a recusa mais enérgica da abadessa dona Isabel Rivera: Sam Paio carecia de fundos e mesmo vivia de prestado, podiam as autoridades confiscar as propriedades rústicas que o mosteiro possuía, mas nunca o dinheiro do qual carecia. Oferecia a abadessa em compensaçom, se necessário fosse, os ornamentos sagrados destinados ao culto. Perante o ultimato definitivo emitido polo corregedor Manuel Sánchez Boado e Fraguio em 24 de março de 1909, a abadessa ofereceu-se como prisioneira do senhor duque de Elchinguen ela mesma “na Corunha ou onde o senhor duque determinar” acrescentando com firmeza ao senhor corregedor que: “se por infringir umha obriga impossível me sobrevinhessem os males “com que a Vossa Senhoria me comina”, espero que o Senhor me conceda ánimo, fortaleza e conformidade para podê-los sofrer”. A sombria história das dezesseis monjas carmelitas executadas em Paris em 1794 por se recusarem a renunciar aos seus votos monásticos atravessa inevitavelmente a memória. Teria chegado notícia do brutal acontecimento a Santiago?

Em dous de maio, o Director Geral da polícia de Santiago, Pedro Bazán e Mendoza emprazou a abadessa mediante ofício emitido em nome do marechal e Chefe Supremo do Exército, a comunicar-lhe de imediato a lista completa e nominativa das professas na comunidade instando-a a preparar esta para receber em breve o marechal. A ordem continha a instruçom de acondicionar o recinto “com o devido respeito e decoro,·a cujo fim deveria aprontar-se “cadeira distinguida com dossel” para sua Excelência e assentos condignos para os seus acompanhantes.

A ordem irrecusável caiu como condena incompreensível sobre a atemorizada comunidade beneditina. O sagrado voto de clausura que deveria servir de suprema protecçom do espaço sagrado contra a ímpia pretensom de nada valia. Anunciavam-se tempos sombrios. Foi consultado de imediato o vicário da comunidade, frei Luis Vazquez de Puga OSB do mosteiro tutelar de Sam Martinho o qual concedeu imediata dispensa de clausura por imperativo mor. O dia três de maio de 1809 às doze em ponto, acompanhado de dous edecanes entrava na silenciosa clausura de Sam Paio o duque d´Elchinguem, marechal do Império e representante de El Rei José I, acompanhado do Director Geral da polícia e um intérprete. O marechal foi conduzido directamente à Sala Capitular onde o esperava a comunidade de pé, acompanhada de dous padres vicários. Ninguém tomou assento. Fijo-se o silêncio.

 

Nota:

1 García Mª Colombàs, O.S.B (1980): Las señoras de Sam Paio. Historia de las monjas benedictinas de San Pelayo de Antealtares, Caja de Ahorros de Galicia, 1980, Madrid.