O marechal entra em clausura. Um epílogo

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O episódio saltou de imediato a todos os meios de comunicaçom. Chovia sobre molhado, nom há tanto, o roubo do Calixtino na Catedral por um escuro electricista acovilhado à sombra de um estranho cónego colocara Compostela nas páginas de sucessos de meio mundo. O episódio actual vai da denúncia de três monjas de clausura de procedência indiana sobre a situaçom de cativeiro a que se viam submetidas no Convento das Mercedárias, pé da Porta de Maçarelos. O bispo reagiu ante o incómodo episódio como aconselha o manual de estilo dos gabinetes do poder: o caso estava sob controlo, apenas pendente da preceptiva dispensa da Santa Sé.

O papa Francisco, quer seja por espontaneidade congénita quer por cansaço crescente contra a nuvem de eufemismos que pretende ofuscar a mensagem evangélica no altar da conveniência, declarou com insólita franqueza que o esvaziamento dos grandes mosteiros que tanta dor lhe produzia era sintoma claro de que “o ventre da vida consagrada ficara estéril mas, contodo, nom era lícito tentar resolver o problema mediante inseminaçom artificial”. Admirável formulaçom do problema da escassez de vocaçons. Nom podia um esperar menos do florido verbo argentino, desde Borges, o inventor de mundos, ao papa Francisco, passando por Jorge Valdano que demitiu do seu posto no Real Madrid por «disfunción de su cargo con el del entrenador».

O anciao do Vaticano está aflito ante tanto naufrágio. Nos circuitos reactivados da memória ecoa o canto rebelde de Violeta Parra: “Miren como nos hablan de libertad cuando de ella nos privan en realidad…Qué dirá el santo padre que vive en Roma que le estan degollando a sus palomas”.

O episódio do convento mercedário é a última prova do fatal destino de tanto ser humano atraído à opulenta mesa dos países ricos para afinal cair em qualquer repugnante antro de prostituiçom, num presídio de trabalhos forçados por conta dum explorador sem lei, nas redes da droga e o assassinato ou, no melhor dos casos, no mísero negócio de artigos de luxo de pacotilha que cabe inteiro numha gastada manta transeunte. A integraçom numha comunidade de clausura nom é de todos o pior destino quando umha se afai ao implacável curso do cronómetro quotidiano e à prática da desmemória da vida pretérita: um primeiro amor, umha família, o sabor da comida caseira, a liberdade perdida.

A actual superiora das mercedárias de Santiago de nome Luísa Tato e de 79 anos de idade compareceu ante o juiz para lhe explicar as condiçons da clausura forçada que as três moças indianas denunciaram quando decidírom romper o silêncio que as mantinha reclusas. Deus e pam para sempre foi o engado irresistível que as conduziu a gradeamento perpétuo e estrita disciplina. Outras quatro monjas, duas indianas e duas mexicanas, decidírom permanecer no mosteiro; quem sabe as razons, o conforto talvez dumha vida já habitual ou o temor a esse mundo hostil e ruidoso que escoa às vezes através das grades conventuais. Vocaçom, submissom, aniquilaçom, resignaçom; quantas jovens professas nom terám percorrido esta via-sacra de amputaçom da vida própria.

Convento das Mercedárias 2016, Mosteiro de de Antealtares 1809. Nom sei se algum leitor curioso do PGL ou dos “Percursos sem roteiro” da Através Editora lembrará ainda aquele episódio de maio de 1809 quando o marechal d’Empire Michel Ney, na altura em Compostela, decidiu interrogar as donas de Sam Paio para saber se por acaso algumha delas morava contra vontade no mosteiro. Para o jovem guerreiro francês seria um acto de piedade: projectar a luz da razom ilustrada sobre o obscurantismo opressor. Talvez teria lido o romance “La Religieuse” de Diderot publicado a título póstumo em 1796. Quero crer que si, que terá sido esta fonte literária a que inspirou o Marechal para libertar mulheres cativas num impulso tam semelhante – ironias da história – à vocaçom original da ordem mercedária. No sucesso de 1809 foram duas as fidalgas reclusas que optárom por abandonar: dona Ventura Pinheiro das Casas, filha do marquês de Bendanha e dona Antónia Bermúdez de Castro; esta última, para nunca mais volver.

No sucesso de agora, sob a aparente similitude, todo é diferente. O de 1809 foi um episódio brutal, filho da cobiça de paço e brasom, nesta jeira, a origem está no desamparo e na miséria infantil que afligem esses países apenas adivinhados por catástrofes televisivas. A viagem foi breve no primeiro caso, umha jornada do paço ao mosteiro em companhia talvez da ama de companhia; no segundo, umha autêntica aventura planetária desde a miséria soalheira e ruidosa da adolescência aos húmidos muros gradeados de umha cidade desconhecida.

A comunidade de Sam Paio rende culto a um santo varom do século VI de nome Bieito que conseguiu educar Europa num ideal da vida laboriosa e retirada; a do mosteiro da Mercê, enraizada na piedade medieval catalá e renascida no século XVII, nasceu por vocaçom de libertar de cativos em terra estrangeira. Hoje, a ordem, conta apenas com cinco comunidades em Espanha, incluída a que se acolhe ao severo caserom promovido polo arcebispo Andrés Girón e habitado em comunidade desde 1720.

Beneditinas e mercedárias pouco tenhem a ver; dous universos alheios fugazmente unidos por acaso num estranho episódio acontecido em 1836. A história vem recolhida em “Las señoras de San Paio” do investigador beneditino García Mª Colombás. Conta Colombás o surpreendente episódio da confluência de quatro comunidades de clausura no mosteiro de Sam Paio: as monjas mercedárias de Maçarelos, as carmelitas da rua dos Loureiros e as dominicanas de Belvis, além da comunidade beneditina de Sam Paio nas funçons de paciente anfitriom. Um caso de força maior por exigência ineludível de alojamento militar em tempo bélico.

Ajuntárom-se setenta professas de quatro congregaçons diferentes, heterogéneas em costumes e ideais e acompanhadas, seguramente, polas respectivas recadeiras da comunidade. Só as clarissas nom concorrérom à histórica concentraçom forçada porque fôrom derivadas para o Convento da Ensinança, quase de estreia na altura. A origem de tam insólito acontecimento foi umha ordem emitida polo Comandante militar de Santiago e marquês de Astariz, dom Jacobo Llorente Pazos de Porvén. O país inteiro atravessava anos turbulentos. Morto Fernando VII, a governaçom ficara em maos da regente Maria Cristina na espera de a herdeira, Isabel II, fazer os preceptivos 18 anos para poder cingir coroa. Mendizábal acabava de decretar leva forçosa de 100.000 homens para combater na que ía ser primeira guerra carlista ao tempo que procedia a desamortizar os bens eclesiásticos e a abolir os senhorios, já em 1837.

As quatro congregaçons reclusas em Sam Paio vam permanecer ali durante quatro longos anos em forçada convivência; pacífica e fraternal contodo, se damos fé às crónicas das comunidades ali reunidas. Até o ano 1840 as monjas conviventes nom pudérom retornar aos seus respectivos mosteiros de origem. E ainda demorou até o verao de 1843 o regresso das monjas de Belvis ao seu convento. Foi nesse momento quando os corredores de Sam Paio pudérom finalmente recobrar o seu secular silêncio.

Cerramos a história das setenta piedosas observantes reunidas no mesmo mosteiro por acasos da história no momento em que Isabel II fai dezoito anos e cinge por fim a coroa, tutelada polo general Narváez e a recém-criada Guarda Civil.

Era sete de outubro de 1836 quando a comunidade mercedária arribava a Antealtares. A abrupta ordem de desalojo do Convento da Mercê fora atendida pola prelada em exercício, dona Maria Carme de Sam Gregório, obrigada polo cargo a suportar a sós durante hora e meia a minuciosa ordem de desalojo transmitida pola delegaçom militar competente. Tam atemorizada ficou a religiosa que tornou triste para sempre sendo antes de natureza alegre, se acreditamos no Livro de bezerro da comunidade. Ao ano de ingressar em Sam Paio falecia a desventurada superiora “assistida polas quatro comunidades”. A morte foi edificante segundo a crónica beneditina, a tal ponto que esta solicitou licença à comunidade mercedária para soterrar a prelada na capela mais próxima do altar maior. Em maio de 1838 chegou-lhe a hora também a outra madre mercedária, a reverenda Asunçom da Santíssima Trindade, para a qual a comunidade beneditina reservou sepultura no espaço destinado às abadessas do próprio mosteiro em prova de amor pola finada. A crónica do tránsito da comunidade mercedária polo mosteiro de Sam Paio parece escrita em tinta da Lenda Áurea.

Quê estará pensando o santo padre que vive em Roma do incerto futuro que ameaça esse silencioso ventre vazio de altos muros gradeados, estéril hoje, cenário que foi de tanta vida?