O idioma de Bengala tem palavras nossas

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Por José Paz Rodríguez

O grande escritor espanhol Ramón Gómez de la Serna dizia que o idioma bengali ou Bangla era tam lindo que nele cantavam os pássaros de cores. Nom lhe falta razom ao famoso escritor. Em bengali escreveu toda a sua imensa obra o Nobel Robindronath Tagore. E também outros menos conhecidos também importantes, como Vidiasagor, Bonkim Chateryi, Modusudon Dotto e na actualidade Sunil Gongopadhay. O Bangla é o idioma oficial de Bangladesh, com 130 milhões de falantes e cuja capital é Dhaka. E o do Estado índio de Bengala, com 83 milhões de habitantes, e por capital Kolkata, cidade de mais de 13 milhões de pessoas.

Certamente o Bangla é um idioma formosíssimo. Por isso, com acerto, existem os que pensam que é o italiano da Ásia. E também o idioma do amor, pola sua doçura e formosura. Para poder ler nos seus originais Tagore, e para poder entender-me com estudantes e professores de Bengala, aonde viajo cada ano, estou a estudar este belo idioma. Já o sei ler e escrever – tem muitas letras e diferentes às nossas – e conheço muitas das suas palavras. Embora ainda tenha dificuldades com os verbos, que som básicos para poder falar, pois nom existe publicado um dicionário bengali de verbos. Infelizmente só existe um dicionário castelhano-bangla bastante incompleto e há que recorrer aos ingleses que têm deturpado muitos vocábulos bengalis.

 

 

A fonética do Bangla é muito semelhante à castelhana e à portuguesa e mais ainda à italiana. Quando recito poemas ou canto cantigas bengalis, os meus amigos da bonita terra de Bengala ficam assombrados da minha fonética. O segredo está precisamente na similitude fonológica com os dous idiomas que domino, o galego-português e o castelhano. Agás três fonemas, o b, o d e o t, para os que, com 4 letras diferentes em cada um, os bengalis diferenciam 4 sons distintos, e que o nosso ouvido nom pode discernir, por nom estar habituado, dado que nós só temos para estes um único símbolo e fonema, todos os demais fonemas som exactamente iguais ao castelhano.

Polo demais, o galego-português ajuda-nos muito, pois o Bangla tem várias nasalizações e também o “xis”. Em Bengala compreendemos porque é tam difícil para os ingleses aprendê-lo, devido à disparidade fonética de ambos. Por isso quando a Índia foi um domínio colonial inglês, ao nom poder pronunciar, fizeram a barbaridade de mudar os topónimos e apelidos bengalis por outros diferentes dos originais e autênticos.

De onde vem o Bangla? Igual que o assamês e o hindi, que é o idioma oficial de toda a Índia, procede do sânscrito, antigo idioma em que ainda os hinduístas recitam as orações, irmão do latim e do grego e portanto filho do chamado indo-europeu. Por isso há no Bangla infinidade de raízes e desinências semelhantes às do castelhano. E, por se fosse pouco, o galego-português emprestou-lhe ao Bangla mais de 80 palavras, que com plena vigência estám incorporadas de facto no mesmo. E com o mesmo significado.

Entre elas destacamos saia, janela, varanda, chave, balde, canasta, cadeira, chá, xabrom, armário, ananás e dália. Resulta curioso também que fosse em Lisboa, no século dezassete, onde se publicou a primeira gramática do Bangla. Os portugueses, muito apreciados em Bengala oriental e ocidental, foram os primeiros, com Vasco da Gama à cabeça, que chegaram às terras do golfo bengali.

 

 

Ao contrário que os ingleses, os nossos irmãos portugueses relacionavam-se com os nativos e mesmo se casavam com as formosas mulheres destas terras. Isso explica o das 80 palavras nossas incorporadas no seu idioma, e que sejam tam apreciados os nossos vizinhos do outro lado do Minho. Mesmo quando em Bengala nós mesmos dizemos que a Galiza, situada ao norte de Portugal, tem o mesmo idioma que o deste país e o de Brasil, Timor e os 5 países africanos de expressom galego-portuguesa, ficam surpreendidos e terminam tratando-nos com mais agarimo se cabe. E admiram-nos por estar estudando o seu belo idioma, dirigindo-se a nós com muito respeito, por exemplo, nos aeroportos de Dhaka e Kolkata.

Quando eu digo aos bengalis o nome da minha cidade, botam um sorriso complacente, porque em Bangla Ourense é “Sonarpur”, que significa “Cidade de Ouro” e em Bengala existem muitos lugares com este topónimo.

Bangladesh conseguiu a sua independência alá polos anos setenta. O detonante fundamental foi o idioma Bangla. E mesmo Naszrul Islam foi um poeta mártir naquela altura, que morreu polo seu idioma e o seu país. Por isso todos os 21 de Fevereiro comemora-se nestas terras com grande fervor e muitos actos o “Dia internacional da língua materna”. Em Santiniketon estou aprendendo a falar cada vez mais este formoso idioma, por estar imerso entre professores, estudantes e cidadãos bengalis, que muito amam a sua língua. Ajuda-me também muito para aprendê-lo o escuitar as cantigas de Tagore e cantigas populares do país. Já gostaria que todos os galegos e galegas amassem como os bengalis a nossa língua galego-portuguesa.

 

 


(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.