Por José Paz Rodrigues (*)
Ninguém na Galiza pode discutir que o melhor lexicógrafo que temos na Nossa Terra é o limiao de Vila Seca, Isaac A. Estraviz. Que leva toda uma vida, com verdadeira paixom, trabalhando por recuperar as palavras do nosso formoso idioma. Que também é oficial no Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. E ainda se conserva em Goa, Damau, Diu, Macau, Colombo e Singapura. O lindo idioma em que se exprimiram Afonso O Sábio, Rosália, Curros, Pondal, Castelao, Dieste, Cabanilhas, Vilar Ponte, Risco, Biqueira, Otero, Ben-Cho-Shei, Bouça Brei, Celso Emílio, Manuel Maria, Avilês, Carvalho Calero, Guerra Da Cal, Pessoa, Camões, Eça de Queirós, Torga, Nobre, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Drummond de Andrade, Guilherme de Almeida, Abgar Renault, Cecília Meireles, Alencar, Guimarães Rosa, Pepetela e Telo de Mascarenhas. Idioma internacional de enorme importância no mundo. Juntamente com o castelhano, a Galiza tem duas línguas tam valiosas, que se encontram entre as cinco mais usadas e de maior extensom e utilidade no nosso planeta.
Ao Isaac Estraviz, como a muitos de nós, proibiam-nos de nos exprimir em galego dentro das instituições. Quando tinha dezassete anos prometeu solenemente que sempre falaria e escreveria em galego, compromisso que mantém em pé com dignidade de galego bom e generoso. Como nom havia um bom dicionário, começou logo o trabalho lexicográfico já em 1978. Primeiro foi às fontes dos dicionários parciais antes publicados, como os dos Padres Sarmiento e Sobreira, Pintos, Rodríguez, Cuveiro, Valhadares, Carré, Ibánhez, Eládio Rodríguez e Franco Grande. E todas as teses ou trabalhos monográficos publicados pola universidade compostelana. Sendo peneirados todos estes materiais por ele e seus colaboradores. Mais tarde recolheu infinidade de palavras galegas de viva voz polas aldeias da Galiza, das mais diferentes partes do território galaico e confirmando a sua existência em todo o norte de Portugal. Onde comprovou que existiam as mais estranhas palavras do léxico galego que se possa imaginar. Para a sua tese de doutoramento recolheu na comarca de Qualedro-Trasmiras mais de treze mil palavras.
Em suporte papel, em 1983, publicou o primeiro volume do seu dicionário. No verao de 1986 saíra do prelo o de três volumes, que em breve se esgotou. Como também se vendeu na sua totalidade, polo seu grande valor filológico, o publicado em 1995 pola editora Sotelo Blanco. Em janeiro de 2005, pola AGAL, incorpora-se à rede na sua página “Portal Galego da Língua”, web hoje muito consultada desde todos os países que configuram o mundo da lusofonia. Nesta altura foi enormemente importante o labor impagável e o apoio de Vítor M. Lourenço, verdadeira “alma mater” do Portal. A segunda ediçom em rede é de 2009, contando neste momento com mais de 126 mil entradas. Podendo ser consultado de forma gratuita, sendo sem dúvida, o dicionário galego on-line maior e mais extenso. Ademais nom é sectário, pois quem entrar nele pode escrever o vocábulo de muitos jeitos. Por exemplo: nación/nazón/naçom/nação, que vai dar com a palavra certa. Estám nele todas as variantes galegas e ainda que se lhe dê preferência a umas sobre as outras, as entradas estám amplamente definidas, sendo raro nom encontrar nele o que se procura.
O léxico utilizado por Estraviz é o patrimonial e popular galego, e o que o afasta dos outros dicionários publicados é a ortografia empregue, própria de toda língua românica, afim à variante portuguesa da língua comum. Potencia as formas comuns à variante portuguesa sem deixar de lado as outras, inclusive as variantes da mal chamada normativa oficial. Também dá prioridade a aquelas variantes dialectais portuguesas que nos som comuns e, como é natural, na terminologia técnica, as comuns à variante portuguesa. Igualmente suprimiram-se todo tipo de castelhanismos, colocando nas entradas as variantes autênticas e legítimas que temos na Galiza e que som comuns com o mundo da lusofonia. E todo isto porque para Estraviz unidade nom significa uniformidade. Como eu, Estraviz apoia o galego como língua internacional, a unidade lingüística dentro da lusofonia e o respeito à diversidade lexical dos diferentes falares dos países que formam o mundo lusófono.
Mas, nom entendemos como uma pessoa que tanto tem trabalhado de forma generosa pola Galiza e a sua cultura nom tenha sido valorizada devidamente e como bem merece. É a triste sina, na Nossa Terra, para as pessoas autênticas, boas e generosas. Antes com Carvalho Calero. Agora com Estraviz. De todas maneiras também somos muitos os que o estimamos e apreciamos de verdade.
(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.
Nota : Este artigo foi publicado no passado 17 de maio no Suplemento das Letras Galegas do diário ourensano La Región.
