UM PAÍS TROPICAL

O Espírito Santo



A Arta era uma weimaraner de pelo curto. Formosa mas um bocadinho gorda. Ter uma cadela de caça no pátio da casa é o que tem. Arta era muito carinhosa e sociável, mas passava a maior parte do dia sozinha e, quando os donos estavam na casa, também não lhe faziam muito caso. Arta era, portanto, uma cadela triste.

Um verão os donos saíram, como tinham por costume, pescar nos fiordes noruegueses. Sim, porque a nossa aldeia era, já naquela altura, uma curiosa mistura de velhos paisanos e de novos ricos. Os labregos habitavam no vale e os urbanitas foram colonizando com as sua casas e os seus chalés pela aba do outeiro arriba.

O caso é que no dia mesmo que saíram os donos, a Arta entrou em cio. Meu filho, que maneira de ouvear. Dia e noite. Nem que estivéssemos na véspera do Apocalipse. Passavam os dias mas aquilo semelhava não ter paragem. Os vizinhos, independentemente da sua extração sociocultural, já não falavam doutra cousa. Queremos dizer, claro está, das noites em vela.

Uma dessas noite, já quase de madrugada, uns berros quase desumanos alertaram a insone vizinhança. Não, não era a Arta. Era a senhora Áurea, a do mudo, que, desesperada, estava a tentar convencê-la de calar a boca. “Por Dios e por todos os santos cho pido, fai o favor, fai-me o favor!”. O homem dela, que, para além do mais, foi abençoado por Deus também com uma considerável surdez, era seguramente o único dormente da aldeia, pelo que a senhora Áurea estava sozinha. Sozinha com a Arta.

Mas não por muito tempo. Aos poucos foram-se achegando, como uma lenta pingueira, quase todos os vizinhos daquela aldeia. Que assistiam caladinhos à cena das duas fêmeas a ouvear. Depois duns imprecisáveis minutos daquele espetáculo entolecido foi Maria “da carbonera” a primeira em emitir algum sonido inteligível. “Bueno, já está bien hombreee!”, foi o que entendemos os que naquele lugar nos achávamos congregados.

A Áurea, calou. Já a Arta, retrucou com um simples e prolongado “ouuuuuu”. Um murmúrio proveniente de todas as direções, embora ininteligível, dava, porém, a entender claramente que sim, que havia que fazer algo. O filho de Hermendina “a zorra”, o Luís, que vinha de estudar biologia em Madrid e que estava no paro, avançou que “esto lo solucionaba yo con media pastillita”. Sugestão que encontrou imediatamente a feroz oposição dum pequeno mas rabudo grupo de jovens urbanitas que vinham de chegar à aldeia na procura dum modo de vida mais “natural” e que ameaçavam veladamente com a Guardia Civil a qualquer um que ousar levar a termo uma solução “química”.

Ainda não se apagara de tudo o balbordo da discussão quando a viril voz de Pepe “da Sultana” troou para solicitar que o deixassem a ele sozinho “com o demo esse do cão” e com a sua vara de vímbio. Todos sabiam que Pepe batia no cão dele quase com a mesma ânsia com que a que Maruxa, a Sultana, batia nele próprio.

Se a solução da pílula tinha dado lugar a uma acalorado debate, com o do maltrato animal quase se chegou às mãos. “Não jogues comigo, Pepe, não jogues comigo”, advertiu a diminuta senhora Manuela da Candelória “que já te tenho mui avisado”. E essa advertência pareceu saldar a questão.

Mas, então, que fazer? Voltar outra vez para o leito, insones? Sucederam-se uns momentos de frases hesitantes, inacabadas.

“Vamos buscar um cão dos do Bechas e botamo-lo a ela e ao caralho!”. Quem assim falava, resolutivo, era o Ferreira, o carpinteiro. A proposição deu início a uma série de discussões indecisas que rompiam contra o dique da esperança antes de chegar a nada.

Não se sabe quem foi o que deu o primeiro passo na direção da choupana do Bechas, mas toda a aldeia acompanhou com movimento swarmiano.

Haver, havia muito onde escolher. Cães grandes, pequenos, caos feros, cães mansos. Houve várias tentativas de apanhar um, ao começo aquele que parecia mais lançal. Depois já tanto dava, qualquer um. Porque o problema era que, sendo o canil estreito, os feros não deixavam achegar-se dos menos feros.

Sentindo que lhe estavam a roubar os cães, aparece o Bechas na porta da sua choupana de cajado na mão. Mas a paralisante dúvida apodera-se dele ao ver que o ladrão não é outro que a assembleia da vizinhança toda em pijama. “Faz-nos falta um cão para botar-lho à cadela dos da Amorosa”. Homem de poucas palavras, “botai-vos daí”, foi tudo quando lhe foi escutado e, uma vez o vulgo escorrentado, ele próprio apanhou um cão, que não era precisamente o favorito dos da aldeia, nos seus braços e, com passo seguro, foi-lho botar à Arta por riba do valado.

Os cães, cães são, uliscaram-se um bom pedaço, latiram, correram… Em fim, as cousas deles. Apesar da evidente e picante curiosidade, a vizinhança, pudorosa, foi recolhendo-se devagarinho, cada um na sua casinha. Apesar da noite de insónia, mal alumiava o sol no horizonte e já se divisavam os primeiros curiosos a espreitar, discretamente, da janela. Porém, o cão já não estava na finca dos da Amorosa e a cadela, dormia.

Quando os da Amorosa por fim voltaram das férias na Noruega encontraram uma cadela aprazibilíssima numa aldeia aprazibilíssima. Mas, embora, como já dissemos, os donos para a cadela muito não miravam, antes da fim do verão o tema virara já muito evidente.

Assim, um dia, voltando eu para a casa, surpreendi a seguinte conversa entre a Yésica “da Amorosa” e a senhora Áurea “do mudo”. “¿Y luego, esta perra, como pudo quedar embarazada? No me lo explico”. Interrogava-se, com estupefação sincera, a Amorosa. “E logo, está grávida a cadela?”. Retrucava a do mudo. “¿Usted no vio nada raro estes días atrás? “. “Ver?, e que havia ver eu?”. “Pues no me lo explico… ¿Y, usted, que explicación le ve?”. “Pois eu…, como não fosse cousa do Espírito Santo…”.

E foi assim como veio ser batizado aquele cão que, que se saiba, nunca nome tivera. Alguns dos cachorros imitavam-lhe bem ao Espírito Santo.

 

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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  • Ernesto V. Souza

    XD XD XD…. ai… estes contos teus… XD XD XD…

    Agora… mesmo parece que os emigrantes vivemos noutra dimensão, querendo construir para os da casa o refúgio mental com que nos fomos dotando.

    • Miro Moman

      O relato é mais real do que possa parecer… De facto, poderia-se dizer que é quase “costumbrista” 😉

      • Ernesto V. Souza

        por isso mesmo…. 😉