Por João Aveledo (*)
O checo e o eslovaco formam um mesmo conjunto dialectal, pertencente ao grupo das línguas eslavas ocidentais, sobre o qual se constituíram, devido à diferente trajectória histórica seguida por estes povos, dous padrões normativos, com duas tradições literárias separadas.
Podemos falar, portanto, de codialectos com um alto grau de inteligibilidade mútua, embora existam pequenas diferenças, consequência, basicamente, da influência do alemão nas falas checas e a do húngaro nas eslovacas.
Os checos e os eslovacos separaram-se no s. X. Nessa altura, o território checo unifi cou-se no Reino da Boémia, enquanto a Eslováquia acabaria por se tornar parte da Hungria.
O primeiro intento de normativizar os dialectos checoslovacos foi feito polo reformista protestante J. Huss (1369-1415), que se baseou apenas na variedade falada em Praga, principal centro político e cultural da nação. Huss converteria o checo na língua do rito protestante, então maioritário. A fi ns do s. XVI, o Reino da Boémia integra-se no Império Austríaco. A dinastia dos Habsburgo imporá a contra-reforma católica e, associada a ela, o alemão como língua de prestígio social.
A decadência do checo prolongariase durante os s. XVII e XVIII. Mesmo se chegou a dizer que era na Boémia onde se falava o melhor alemão. Mas em 1795, F. Pelcl publica uns Fundamentos de Gramática Boémia, alicerce, junto com os contributos de Dobrovský e Jungmann, da estandardização do checo moderno. Começava o seu ressurgimento.
Na Eslováquia, o padre A. Bernolák (1762-1813) tentou criar uma língua literária a partir do dialecto ocidental. Era a reacção católica frente ao protestantismo hussita que ainda empregava o checo na liturgia. Bernolák fracassou, mas depois L. Štur (1815-1856), baseando-se no dialecto central, escreve uma gramática e edita o primeiro jornal, o Diário Nacional Eslovaco. A cissão do checo e o eslovaco estava consumada.

Territórios da Checoslováquia em 1929
O checo e o eslovaco constituem exemplos de isolacionismo linguístico bem sucedido, pois ambos alcançaram o objectivo da plena normalização. Contudo, reparemos no feito de que só atingem um status de normalidade quando, após a derrota do Império Austro-Húngaro na I Guerra Mundial, é criada a Checoslováquia, uma república federal na que convivem em pé de igualdade, conforme ao estabelecido na Constituição de 1920 e nos Acordos de Košice de 1945. Logo, a queda do Muro de Berlim possibilitaria que a Eslováquia proclamara pacifi camente, em 1993, a sua independência… Quer dizer, que nem todos os isolacionismos são iguais!!!
Ah! E da limpeza étnica, em 1946, dos mais de 3 milhões de germanófonos dos Sudetos, dos que 241.000 foram massacrados, melhor nem falar.
(*) Artigo publicado originalmente no n.º 22 do Constantinopla, boletim de AGAL-Compostela.
