Afirmava Murguia no capítulo que dedica a Rosalia (1837-1885) n’Os Precursores que havia quem comparava a poeta com Robert Burns (1759-1796) polos Cantares e com Heinrich Heine (1797-1856) por Folhas Novas. A opiniom, inequivocamente enaltecedora, procedia seguramente do próprio Murguia, comovido no momento pola morte da cantora – o livro viu a luz no ano da sua morte – e empenhado já por vida no culto da santa padroeira da saudade. Burns e Heine, dous líricos inconvencionais, incómodos para os seus coetáneos que acabariam nom obstante consagrando-os como vates do sentir colectivo dos seus respectivos países: a Escócia e a Alemanha románticas. Dous líricos radicais elevados à categoria de poetas nacionais como prenúncio do destino de Rosalia.
De Burns, todo o mundo é capaz de cantarolar o formoso canto de despedida em Auld Lang Syne – Old long since, Há tanto tempo já, em dialecto escocês – envolto na saudosa melodia escocesa que acompanha o poema. Heine mereceu também pentagramas perduráveis, por cima de todos o maravilhoso lied de Schubert Der Doppelgänger que veste com sombria melodia a sinistra experiência de autocontemplar-se em vida desdobrado em premonitória imagem fantasmal. A imortal Negra Sombra de Rosalia vai unida também para sempre à saudosa música com que a vestiu Joám Montes, inspirado ao que parece num alalá das terras do Íncio. Quando é chegado o momento, os grandes poemas concitam a lira, palavra e música, como o pai Orfeu.
Circulou há pouco tempo nas escassas salas de cinema que ainda ficam abertas umha melancólica homenagem cinematográfica à beleza romana. Refiro-me ao filme A grande beleza (2013), de Paolo Sorrentino interpretado polo grande Toni Servillo. Quem tenha visto o filme guardará memória de umha viagem ao desencanto pautada pola arquitectura e a música. A música é um dos protagonistas no filme, quase o narrador da história mínima que ele relata. Soa no filme por duas vezes, creio, umha cativante cançom apoiada de leve na mínima estrutura melódica e tímbrica que lhe presta um discretíssimo órgão a maneira de baixo contínuo. O autor do texto é Burns: My heart’s in the Highlands, my heart is not here/My heart’s in the Highlands a-chasing the deer…
A música tem todo esse difuso sabor místico e despojado que infunde às suas obras Arvo Pärt. A versom que eu guardo é a do disco Triodion, Hypérion, 2003, dedicado à música vocal de Pärt. A interpretaçom é do contratenor David James, que consegue desvendar a estática beleza dos versos de Burns através de umha inquietante voz de castrati.
A cançom My heart’s in the Highlands de Pärt e do ano 2000, a maneira de homenagem serôdio ao poema que venerava desde a infáncia. A versom que podemos escuitar na Rede é a da soprano dinamarquesa Else Torp que embora careça da hipnótica beleza da de David James é muito expressiva, como é de esperar de umha soprano do Hilliard Ensemble.
O poema de Burns, evocador das Terras Altas escocesas, lembra os Feros corvos do Jalhas de Pondal e também o Adios rios, adios fontes de Rosalia. Saudosa evocaçom da terra perdida no poema de Burns, dolorosa despedida iminente no de Rosalia. A terra em ambos como metáfora da saudade.
Pärt amou o poema de Burns que apreendera de cor num livro escolar. Nascido em 1935, numha república soviética em tempos em que imperava no Kremlin o autocrata com bigodes de barata que decretara silêncio geral: “Insensíveis vivemos ao chão que pisamos/as nossas vozes a dez passos nom se ouvem”, versificava Mandelstam no poema que o condenará de por vida ao desterro siberiano.
Pode parecer chocante a requintada educaçom lírica oferecida por Stalin aos jovens pioneiros. Umha surpresa relativa, Robert Burns fora elevado à categoria de “poeta do povo” polo regime como reconhecimento ao valor didáctico do seu ethos igualitarista e ao seu compromisso com as revoluçons americana a francesa. O Burns da escola soviética extraia mais bem o Curros que nele havia, Pondal ou Rosalia nom seriam tam aptos. Um lírico revirado como Burns, de firmes convicçons sociais, que compartia a paixom pola natureza e pola gentinha humilde era um candidato ideal para a preceptiva revolucionária do país dos bosques imensos e da servidom perpétua.
Foi assi como o infante Pärt apreendeu de cor o poema My heart’s in the Highlands e este, chegado o tempo, reclamou a lira, que neste caso mais parece despir do que vestir o poema.
