Por José Paz Rodrigues
(Didata e Pedagogo Tagoreano)
Após uns dez anos vindo à Índia, num promédio de estância de três meses por ano, morando a maior parte do tempo nas terras de Bengala, tenho já um conhecimento mais amplo e profundo deste país. E nom digo completo porque, ademais de ser impossível, este é um país imenso, variado, complexo e, por vezes, enigmático. Do que sim estou certo é de que para falar da Índia há que visitá-la. Nom se pode falar e escrever deste país sem viver em direto a realidade do mesmo. De forma atrevida há comentaristas, mesmo em Ourense, que escrevem sobre Índia sem conhecê-la e à distância. Por isto, existem muitos preconceitos e apreciações muito erradas sobre a vida e as gentes indianas.
A Índia é a democracia mais grande do mundo, mas também das mais jovens, pois a sua constituiçom tem tam só de vida uns sessenta e dous anos, depois da independência do império britânico, que custou sangue, suor e lágrimas e muitos anos de luita, com Gandhi de máximo líder. De quem, a propósito, de forma equivocada, nom respeitaram ao final o seu acertado desejo de que a Uniom Indiana acolhesse o território atual, unido ao que hoje configuram países independentes como o Paquistám, Bangladesh e Sri Lanka. Que evitaria muitíssimos dos problemas que aconteceram antes e após o logro da independência.
A característica essencial da Índia é a sua diversidade: de culturas, etnias, religiões, idiomas, paisagens, climas, natureza, produtos, filosofias… Curiosamente também é um traço essencial a profunda unidade do país, dentro da diversidade. Por exemplo: só existe uma bandeira, a das três cores laranja, branca e verde com a “chakra” ou roda no centro, que representa toda a República federal, com todos os seus Estados. E um hino formosíssimo, do qual a letra e música som de Robindronath Tagore. Que também transmite essa sensaçom de unidade, dentro da grande diversidade indiana. Na atualidade este grande país, polas suas múltiplas riquezas naturais e as suas matérias-primas é, junto com a China, o que mais progride economicamente do mundo. O incremento aproximado anual é de oito por cento no seu produto interno bruto. Por isto está considerado como um país emergente ao lado do Brasil, China e África do Sul. Num momento em que tanta crise existe no planeta. Em que o modelo capitalista resultou um fracasso estrepitoso.
De todas as maneiras, o que é realmente grave é que o progresso só é bom em parte, pois com ele aparecem muitos problemas sociais de que falaremos a seguir. E dos quais em Ocidente temos muita experiência, dado que com ele vieram as comodidades materiais, mas nom o enriquecimento espiritual e pessoal dos seres humanos, com perda grande de valores sociais, de solidariedade, amizade e felicidade. Pois o que produz esta é o “ser” e nom o “ter”. Desde que venho a este país, pola primeira vez em 2001, tenho observado em vivo e em direto o seu crescimento económico. E, especialmente, o aumento sem parar de bens de consumo: carros novos de todo o tipo, eletrodomésticos nas casas, como frigoríficos, televisores e máquinas de lavar, mecanizaçom do campo, melhoramento das redes viárias e de caminhos-de-ferro, eletrificaçom, conduçom de águas, rede de esgotos e construçom de muitas casas. Por todo isto, as multinacionais aterraram desde há tempo na Índia, pois aqui existe um mercado potencial imenso, em que mais de quatrocentos milhões de pessoas configuram uma massa social de classe média com muito poder aquisitivo.
Paralelamente, e por desgraça, este progresso económico duma determinada classe, amplia as desigualdades com as classes menos favorecidas: os sem casta, que som muitos, e realizam as tarefas que ninguém quer, os artesãos e os labregos. Ao mesmo tempo aparecem, ou aumentam em demasia, vícios perigosos para a saúde física e mental, antes muito reduzidos, como o consumo de tabaco e álcool. Em tam só cinco anos quintuplicou-se o seu consumo em toda a República. Com os problemas de saúde pública que a seguir vai trazer este cada vez mais elevado consumo. Produto muitas vezes da nefasta publicidade televisiva que estám a sofrer muitos lares indianos, em que a televisom entrou, mesmo via satélite, como um elefante numa louçaria. E que também está a introduzir modelos nefastos de conduta ocidentais. Muitos no comportamento e nas relações humanas, com mais violência, num país em que a bandeira gandhiana sempre foi a “nom violência”. Infelizmente, nos últimos tempos, os indianos estám a copiar os modelos negativos ocidentais e nom os positivos, que também existem.
