Por Edelmiro Momám
AUTOESTIMA INDIVIDUAL
A autoestima tem a ver com a imagem que um indivíduo tem de si próprio. Esta auto-avaliação subjectiva que cada um de de nós faz sobre as suas características particulares condiciona em grande medida toda a nossa vida. Nomeadamente se existir um desajuste importante entre essa percepção e a “realidade”. Meto a “realidade” entre aspas porque na verdade essas características e essa identidade não são estruturas estáticas, bem ao invés, são materiais muito maleáveis e vão evoluindo com a aprendizagem e a experiência. Porém, a percepção, aprendida através da nossa experiência vital, que temos do “eu” costuma ser mais estática do que a natureza, proteica e adaptável, desse “eu”. Por isso, quando essa percepção é negativa, tende a condicionar, congelando-as, a criatividade e a iniciativa do indivíduo, empecendo-o para explorar e desenvolver as suas potencialidades.
Por outras palavras, assim como aprendemos a ver-nos a nós próprios através da nossa interacção com o mundo, também a imagem subjectiva que de nós próprios vamos desenvolvendo condiciona a maneira com a que interagimos com o mundo e a imagem que o mundo tem de nós. É a pescada que morde a sua cauda. Sabemos bem, por exemplo, que uma pessoa com uma baixa autoestima inspira no outrem menos confiança e respeito do que uma pessoa com uma autoestima equilibrada. Esse “outrem” também vai agir em consequência, o qual leva-nos ao terreno das profecias auto-realizáveis.
PROFECIAS AUTO-REALIZÁVEIS
Em palavras do sociólogo Robert K. Merton “a profecia auto-realizável é, no início, uma definição falsa da situação, que suscita um novo comportamento e assim faz com que a concepção originalmente falsa se torne verdadeira”. Por exemplo, se eu me achar incompetente vou agir de forma diferente ante um determinado problema que se me achar competente para solucionar o problema. No primeiro caso, a probabilidade de solucionar o problema é baixa porque nem vou tentar a sério ou vou abandonar o esforço cedo demais. No segundo caso é possível que, mais tarde ou mais logo, dê achado uma solução. Da mesma maneira, se o meu chefe não me acha o suficientemente competente para assumir uma determinada responsabilidade é provável que nunca me dê a ocasião de demonstrar que posso fazê-lo ou, no caso de me dar a ocasião, a sua desconfiança poderia ver-se inconscientemente reflectida em comportamentos que dificultassem o sucesso da minha missão.
É difícil medrar como pessoas se não se dão as circunstâncias propícias no contorno propício. Mas, como a nossa autoestima depende das experiências que a reforcem, a pescada volta travar a sua própria cauda.
IDENTIDADES COLECTIVAS
Sendo as identidades individuais já avondo difusas, meter-se nas lameiras das identidades colectivas resulta arriscado. Porém, por ser o homem um animal intrinsecamente social ou, em palavras dos clássicos, político, resulta difícil se não impossível separar a suas dimensões individual e colectiva. Não apenas a auto-percepção do indivíduo vai-se definindo a respeito do grupo ou grupos (que conformam o mais substancial do ecosistema ao qual o indivíduo deve adaptar-se), como também surgem de forma natural as “identidades colectivas” em constante interacção com as individuais.
Estas interacções entre os distintas esferas identitárias são complexas, mas é claro que uma autoestima colectiva negativa costuma ser um sintoma de autoestimas individuais negativas e, por sua vez, ao invés, uma autoestima colectiva positiva costuma ser o sintoma de uma sociedade composta de indivíduos equilibrados. As relações recíprocas são se calhar menos claras, mas depois de ter observado diversas comunidades humanas, ousarei afirmar que existem. Assim, um indivíduo que nasce numa comunidade com uma percepção positiva de si própria tem mais possibilidades de desenvolver uma autoestima positiva. Não apenas por uma questão simbólico-identitária, que também, mas porque, para além disso, a comunidade com uma autoestima equilibrada fornecerá melhores condições materiais para o desenvolvimento do indivíduo (o que inclui oportunidades para gozar de experiências positivas que reforcem uma adequada auto-percepção das suas capacidades).
Tenho até observado que os indivíduos com uma autoestima positiva que moram no seio de comunidades humanas com uma auto-percepção colectiva mais bem negativa tendem a agir de forma diferente na relação com o outrem, com o colectivo, e, em relação com isto, são mais propensos à corrupção. De facto, creio observar uma relação directa entre o nível de corrupção duma determinada sociedade e a percepção (negativa) que esta tem de si própria.
No que diz à autoestima colectiva jogam distintos factores. Primeiro, temos o desempenho objectivo dessa sociedade tanto historicamente como de forma sincrónica, no presente, em contraste com outros grupos humanos. Para além dos factores objectivos também podem influir os valores imperantes nessa sociedade. Valores que podem ser endógenos, como por exemplo o sentimento de culpabilidade que faz com que por exemplo os países católicos tendam a ter uma autoestima mais baixa do que os protestantes ou os laicos (isto correlaciona-se também com os mais baixos níveis de desempenho objectivos num contexto capitalista e com mais altos níveis de corrupção). Mas também pode haver valores exógenos que são inoculados a partir de fontes externas. Pode, por exemplo, existir uma guerra de propaganda exógena que visa a desmoralização dum determinado colectivo humano. Assim, observamos que na imprensa internacional os estados que obedecem os ditados do FMI são positivamente conotados (os “tigres”) e os que não são criticados continuamente e descritos como pouco democráticos ou até economicamente “inviáveis”.
O CASO GALEGO
Na Galiza, por exemplo, observamos dous fenómenos inter-relacionados que fazem com que a nossa autoestima colectiva seja particularmente baixa. Por uma parte, observamos um desempenho objectivo claramente inferior ao doutras comunidades humanas da nossa contorna. Históricamente, ao longo dos últimos séculos, este pobre desempenho significou miséria e emigração. Hoje, as condições materiais melhoraram substancialmente mas a Galiza continua a ser apresentada e a ter uma percepção de si própria como uma comunidade “dependente” e “inviável”. As causas históricas e estruturais desse menor desempenho já têm sido avondo discutidas por autores mais capacitados e portanto não vou entrar nisso. Interessa-me hoje o segundo factor, os valores.
Primeiramente, os pretextos empregados para justificar o nosso “atraso” são também bem conhecidos: isolamento geográfico, geologia esgrévia, ignorância, carácter indeciso e fechado das pessoas, etc. Não me vou deter a analisar estes mitos, interessa-me simplesmente sublinhar de que se trata em todos os casos de características “internas” e relativamente “instrínsecas”. Podemos suspeitar, já que logo, que estamos ante um caso de propaganda exógena que visa justificar a discriminação a meio da auto-culpabilização do colonizado. Se todas as causas dos nossos males estão em nós, ficam apenas duas soluções possíveis, quer a resignação (temos o que merecemos), quer a mudança (temos que deixar de ser o que somos para ser como os outros).
Assim pois, nos últimos séculos foi-se alimentando um complexo de inferioridade que chegou ser quase plenamente auto-assumido por nós: tudo, for material ou imaterial, quanto nos faz diferentes é causa do nosso atraso e deve ser erradicado para podermos prosperar. Mas diferentes de que? Bom, obviamente, diferentes da metrópole mesetária. Assim, tendo como única referência a Espanha, começamos a arrasar com tudo, desde as estruturas sociais e económicas até a paisagem, a língua e a cultura, se deter-nos nem um momento a pensar se não poderia haver alguma cousa positiva e aproveitável. Tendo uma única referência (de péssima qualidade) e sem confiança em nós próprios chegamos muito tarde e muito mal, quando outros já vinham de volta e sem aprender dos seus erros, à revolução industrial, ao produtivismo, à especulação… Não se trata, pois, duma evolução se não mais bem duma fugida em desbandada de nós próprios. E nestas continuamos.
IMPASSE
Vou falar de língua porque, dentro do património “imaterial”, para além de ser o atributo identitário com maior potência simbólica, embora não o único nem se calhar o mais importante, é também um parâmetro “mensurável” da qualidade da nossa autoestima. Os galegos estamos a renunciar à nossa língua, aquela que herdamos dos nossos ancestros. Isto gera na população um sentimento consciente ou inconsciente de culpabilidade. Sentimo-nos covardes, traidores. Há distintas estratégias psicológicas para fazer face a este sentimento. Uma é assumi-lo e obrar em consequência. Outra é a assumi-lo mas não fazer nada. Ou então simplesmente tentar ignorá-lo ou até negá-lo. Dentro da negação existiriam ainda a negação indolente e a negação veemente que se exprime comummente no ódio cara a língua ou cara qualquer cousa que nos possa fazer lembrar o opróbrio que estamos a cometer contra os nossos antepassados (ergo, contra nós próprios e contra os nossos descendentes).
Qualquer que for a estratégia escolhida, agás se calhar a primeira, o sentimento de culpabilidade existe, minguando substancialmente a nossa autoestima colectiva. Para mim é claro que um povo sem autoestima não pode ser próspero. Deduz-se portanto que temos um problema sério para o que devemos atopar uma solução.
Ou matamos o cão ou lhe damos de comer. Prolongando a agonia do animal estaremos perdendo de ganhar. A priori, matar duma vez por todas o cão semelharia a solução mais simples e porém não é. Não é porque estas peçonhas da consciência não morrem com o bicho. O exemplo da Irlanda é muito eloquente neste sentido. Alimentar o cão, permitir que reviva é na verdade a solução prática mais rápida e eficaz, para além da mais digna. Por isso eu sou galeguista.
