Carlos C. Varela – Cerzeda foi a capital do rock bravu mesmo antes de que este existisse. De essa herdança do “rock pelouro”, da luita das Encrovas e contra a planta de SOGAMA emergeu Machina e o “pós-bravu”. Fam música em galego e sem complexos, e este outono estarám de gira por todo o país. Falamos com o guitarrista Gonzalo Grela e o cantante Martín Loureiro.
P: Como começastes com o grupo?
GONZALO: Do grupo inicial de 2003 só fico eu. Quando colhemos força foi no ano 2006 com a actual formaçom, que é com a que gravamos o EP, demos 90% dos concertos e gravamos o disco “Post-bravú”. Com a anterior ganháramos um concurso universitário. O grupo formou-se ao redor de Cerzeda, sobretodo do veterano festival de rock que a Associaçom Cultural Lucerna, em que estamos, leva anos organizando.
MARTÍN: Na associaçom vamos por rajadas. Agora temos vários projectos em andamento. Fazer um ciclo de cinema comcurta-metragens e documentários para debater. E também elaborar umha “cartografia crítica”, localizando todos os pontos geográficos com conflitos políticos deste tipo: especulaçom urbanística, abandono de instalaçons, etc.
P: O título do vosso último disco, “Post-bravú”, é também umha proclama?
G.: Com o fraguismo a música folque foi mui promocionada, o qual está bem, mas era algo mui institucionalizado. Paralelamente aparece o movimento bravu, que levou o rock ao rural. Em Cerzeda há umha anedota sobre os inícios do bravu. Um grupo de gente veu a Cerzeda para que a banda dos de Zënzar aderisse ao movimento, “queremos levar as guitarras às aldeias”. A resposta foi: “é que em Cerzeda já chegárom há quasevinte anos”. Aí começou a relaçom, e no famoso manifesto de Chantada já assinou Bocixa, o cantante de Zënzar. Como sempre nos exigem etiquetarnos como músicos, decidimos rir da moda dos “pós-” e definimos- nos como “pós-bravu”, meio em broma meio a sério.
P: Todo o que gravastes foi sem copyright, nom?
G.: É que com copyright é aSGAE quem controla todo e já sabemos como é essa gente…
M.: Por isso gravamos o primeiro disco com umha licença creative commons, mas é umha licença digital que realmente nom tem valor “físico”; nom serve para um CD.
G.: Assim que este já o gravamos “a monte”, sem creative commons nem nada. O do pósbravú vai por aí também. Estamos encantados de que a nossa música se poida descarregar grátis, copiar, partilhar, etc. M.: A nós o que nos interessa mais é que nos escuitem, ainda que seja na Internet. Hoje em dia o de gravar é mais para nós, para ter o prazer de ter a tua música num suporte físico que poidas tocar. Depois como banda o que nos interessa som os concertos.
P: Sodes também bastante críticos com o trato que recebem os grupos galegos na sua própria terra, nom?
G.: Pois sim, se um grupo galego cobra dous euros por umha entrada passam dele, mas paga-se sem discutir sete euros por ir ao cinema. Contodo, eu considero que a música e a arte deve estar subvencionada porque é um bem universal como a sanidade ou a educaçom, mas entom nom se pode subvencionar um tipo de música e outro nom.
M.: É que realmente há umha série de grupos que vivem de festivais e concertos oficias ou subvencionados e outros que nunca se chamam para nada.
G.: E nom só a Junta. Organizaçons galegas, de carácter político ou cultural, de defesa do nosso, “tacanheam-che” com o caché nos concertos para poder trazer grupos de fora. No fundo é umha infravalorizaçom e um desprezo. Vás tocar grátis para ajudar e pagam um dinheiral a um grupo estrangeiro… E muitas vezes há que tocar com umha infra-estrutura ruinosa.
P: Ainda assim, parece que o de tocar em galego foi umnegócio para alguns grupos…
G.: Nós dizemos com ironiaque fazemos “música em galego, antes de que estivesse na moda”.
M.: Nos últimos anos muitos grupos fôrom-se somando a isto de cantar em galego porque lhes abria certo mercado no circuito subvencionado. Mas sempre com ambigüidades: algumhas cançons em galego e outras em espanhol.
G.: Em AMELGA, Associaçom de Músicos e músicas em Língua Galega, a finais dos anos noventa já tivemos muitos debates. “A partir de que percentagem de cançons um grupo fai música galega?”. Nós temo-lo claro: nada de percentagens. Nós fazemos todo em galego e ponto, nom jogamos a duas bandas. “E os grupos instrumentais?”, bom, pois terám página web e estará em algumha língua, o mesmo com o título das cançons, etc…
(*) Entrevista publicada originalmente no n.º 82 do Novas da Galiza.
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