J. M. A. – Nos finais do ano passado publicou-se no Brasil Historias nefastas1, de Paulo Soriano, umha colecçom de 24 relatos distribuídos em cinco epígrafes –”Contos Medievos (divididos por sua vez em ‘Contos Vetustos [séculos XII-XIV]’ e ‘Contos Modernos [Séculos XV-XVI]’)”; “Contos Vampirescos”, “Contos Grotescos”, “Contos Horrendos” e “Contos Fantásticos”—, em que o autor demonstra o seu domínio em diferentes registos deste género.
Há vários achados na leitura destas narrativas que chaman a atençom. O primeiro é na intitulada “Delírio macabro” (pp. 26-31), em que utiliza léxico e outras peculiaridades da língua da Galiza. Pouco mais para a frente encontra-se o conto “O elixir da juventude” (pp. 33-35), que está dedicado “ao brilhante Valentim Fagim, preclamo amigo d’além-mar, de quem roubei, qual Robin Hood, o ilustre nome para entregá-lo a uma pobre personagem….”. É esta amizade galego-brasileira, entre Fagim e Soriano, o que permite compreender aquele interesse e o facto de querer mergulhar no cánone galego da língua comum.
A prosa de Soriano é de fácil leitura, fluida e viva, com muitos atractivos. Vale a pena assinalar como, v. gr. na página 47 inclui umha “nota do autor” para indicar que o relato “Ventos uivantes” (pp. 46-47) admite várias leituras: na ordem que se oferece, mas também “de baixo para cima”, com o que se depara com umha história diferente; e mesmo “talvez haja um terceiro conto. Ou melhor, apenas um conto, com desfechos diferentes, a depender da ordem em que se lê. Se ele existir –e torço para que exista–, eu o dedico a Henry Evaristo”.
Outras muitas histórias estám também dedicadas. A leitura, aliciante, introduz progressivamente em relatos como “O homúnculo”, “Quando Deus nos abandona”, “A morte absoluta”, “Licantropia”, “O vampiro do castelo de Bran”, “A casa do enforcado”, “Um homicídio perfeito”, “O ladrão de sepulturas”, “Círculo vicioso (dividido por sua vez em ‘O homem que amava a noite’ e ‘O homem que amava o dia’)”, “O ressuscitado” ou “A casa das sombras nefastas”, títulos impactantes e que convidam para a leitura, que nom decepciona.
Nas badanas deste volume informa-se que o autor é de Itabuna (Bahia), onde exerce a advocacia e o magistério superior; e como polo seu trabalho literário tem sido agraciado no concurso nacional VI Prémio Literário Asabeça 2007. Por causa da dificuldade para a circulaçom na Galiza destas Histórias nefastas, os interessados na sua produçom podem mergulhar, na Internet, no site Contos Grotescos (www.contosdeterror.com.br), que ele mantém, e onde se oferecem informaçons respeitantes a este volume e se podem ler o “Sumário” e algumhas páginas.
Roberto de Sousa Couso, na contracapa, valoriza Histórias nefastas como “uma mansão antiga com novos recintos anexados ao longo dos anos: mais cantos sombrios e assustadores, onde se percebe as presenças fantasmagóricas de Emilly Brontë, E.T.A. Hoffmann, Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft”.
Em definitivo, deparamos com a leitura de um autor que sabe criar suspense, tensom narrativa, e que oferece elementos de atractivo, que proporcionam instantes de prazer e dam para pensar.
Frisar a aproximaçom à língua da Galiza e o facto que se espelhe nas páginas do livro. É assim mais umha prova de generoso interesse, e respeito, desde esse grande país de superior cultura que é o Brasil, em que tantas demonstraçons houvo, e há, pola cultura, a literatura e a língua da Galiza, sobretodo desde meados do século passado.
Santiago de Compostela, Fevereiro de 2009.
Nota:
1 Soriano, Paulo, (2008), Histórias nefastas, Rio de Janeiro, Corifeu, 96 páginas.
