Lembrando Salvador Allende

Partilhar

Por José Paz Rodrigues (*)

 

Neste passado 11 de setembro cumpriram-se os 40 anos do terrível golpe militar fascista, que, com o apoio dos EUA e da sua funesta CIA, iniciou o infame general Augusto Pinochet no Chile. Derrocado o governo democrático da Unidade Popular presidido por Salvador Allende, político que eu considero como um dos mais dignos da história da humanidade, deu começo uma das mais negras etapas na história do país andino, com uma repressão feroz e infame, muito similar à que ocorreu na Espanha de 1936. O número de assassinados, desaparecidos e represaliados é pavoroso. Os que tiveram mais sorte escaparam para o exílio durante anos. A ditadura pinochetiana, com atentados diários aos direitos humanos dos cidadãos, durou de 1973 a 1990, um total de dezassete anos. Neste momento eu quero lembrar um político muito digno chamado Salvador Allende, que todos chamavam “Companheiro Presidente” e, especialmente, os trabalhadores chilenos.

Na formosa cidade chilena de Valparaíso, no dia 26 de junho de 1908, Laura Gosséns Uribe dá à luz um neno que vai receber o nome de seu pai. Com grande alegria, o advogado Salvador Allende Castro, filho de galega e esposo de Laura, recebe este rapaz. Sem pensar que no futuro ia ser um grande político. Em 2008 celebrou-se o centenário do nascimento do que eu considero como um dos mais dignos políticos da história, senão o que mais. Porque Salvador Allende reúne todas as qualidades que o filósofo Platão pedia para um político. Bondade, retitude, sabedoria, respeito aos contrários, sentido da honra e do dever, antisectarismo, altruísmo, amor pelo povo e a cidadania, apreço pelas crianças e pelo trabalho das mulheres, ideias claras sobre educação, sobre saúde, sobre os direitos humanos, sobre os direitos dos povos, anti-imperialista e, entre outras, magistral orador, defensor da verdade e dos trabalhadores. Qualidades que é quase que impossível encontrar em algum dos políticos de hoje no mundo.

A infância de Salvador transcorre nas localidades de Tacna, Iquique e Valdívia, regressando à sua cidade natal em 1921. Quatro anos mais tarde termina a escola secundária, iniciando os estudos de medicina na Universidade de Santiago de Chile em 1926. Excelente estudante, foi também líder estudantil e, por isto, teve problemas para obter o título de licenciado em 1931. No campo político Allende foi um dos que apoiou o movimento a favor da República Socialista no seu país, entrando no cárcere por este motivo pela primeira vez em 1932. Ao fundar-se em 1933 o Partido Socialista chileno, Allende é eleito secretário da região de Valparaíso, e, em 1936, presidente provincial da frente Popular do mesmo lugar. Em 1937 como deputado do PS inicia a sua carreira parlamentar. De 1938 a 1940 ocupa o cargo de Ministro da Salubridade no governo de Pedro Aguirre. Em 1943 é eleito secretário geral do PS e dous anos mais tarde senador. Promove várias leis (saúde pública, segurança social, proteção da infância…). Durante várias legislaturas é candidato a presidente do Chile. Em setembro de 1970, como candidato da Unidade Popular, consegue a maioria relativa, sendo ratificado como presidente eleito em 26 de outubro, assumindo a presidência da República em 4 de novembro.

As reformas necessárias e urgentes no Chile iniciam-se com o seu governo. Em primeiro lugar a agrária, depois a de nacionalização de bancos e empresas, a de distribuição dum litro de leite diário por cada neno, a reforma educativa e cultural, que foram tão importantes. Mas que a oligarquia interna e o imperialismo ianque não podiam permitir. O que se passou depois já o sabem os meus leitores. O derrocamento do seu governo por meio dum golpe de estado fascista encabeçado pelo traidor Pinochet, tem lugar em 11 de setembro de 1973. Felizmente hoje Chile volta a ter uma democracia, e está às portas de umas eleições legislativas para o seu Parlamento. Nas quais parece ser que tem muitas possibilidades de triunfar a candidatura de Michelle Bachelet, cujo pai fora uma das vítimas da ditadura. Tal como prognosticara Allende, antes de morrer, no seu emocionante último discurso: “De novo abrirão as grandes alamedas por onde passe o homem livre”. Todos os bons e generosos do Chile apreciavam Allende chamando-lhe carinhosamente “Companheiro Presidente”, como antes comentei. E, quando perguntaram à sua mãe Laura se o seu filho ia ser um bom presidente, ela respondeu que “se foi um bom filho, há ser um bom presidente”.

Durante o seu, por desgraça, curto governo, realizaram-se no Chile infinidade de iniciativas positivas. O famoso trem ou comboio da cultura que levava a todas as povoações a música, o teatro, os murais… numa espécie de missão pedagógica como as nossas da Segunda República. O trabalho cultural e educativo dos universitários durante as férias de verão, percorrendo o país de norte a sul. O florescimento de todas as artes e das artes populares. O cinema e a nova canção chilena. Víctor Jara, Quilapayún, Inti-Illimani, Violeta Parra, Patrício Guzmán, Miguel Littin, Aldo Francia, Hélvio Soto… são nomes de cineastas, músicos, cantores e compositores que tenho na minha memória e coração. Como também tenho aquele documentário do nosso paisano Carlos Velo, intitulado “Universidade comprometida”, em que se recolhe o formoso discurso pronunciado por Allende na sua visita à universidade mexicana. E ao qual recentemente dediquei um artigo da série “As Aulas no Cinema”. Todos os discursos de Salvador Allende são obras de arte da oratória. Não têm desperdício nenhum.

Porque bem o merece, escreverei um próximo artigo da minha série “Dizer e Fazer”, sobre o labor cultural, social e educativo desenvolvido durante o período da Unidade Popular chilena, presidida por Allende.

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.