Por José Paz Rodrigues (*)
No passado dia 20 de novembro cumpríram-se os cem anos do falecimento de Leom Tolstói. Muito conhecido como excelente literato, polas suas grandes obras mestras universais Ana Karenina, Guerra e Paz e Os Cossacos, junto com outras, som poucos os que sabem que também foi um educador extraordinário. Quando tinha 21 anos, em 1849, fundou na quinta familiar perto da localidade de Tula, a escola denominada Iasnaia Poliana. Que todos consideramos como a primeira escola libertária da história.
O meu amigo Jaime Noguerol publicou no passado 4 de julho em La Región um formoso e esclarecedor artigo sobre Tolstói, sob o acertado título de “Mestre de almas”. Eu quero recuperar a figura do russo como pedagogo. A glória de Tolstói como romancista ocultou em certa medida as suas ideias pedagógicas. Ele próprio atribuia mais valor à sua obra pedagógica que à literária. Já desde jovem se preocupou pola instruçom pública e polo desenvolvimento psicológico e social da infância. Tendo como princípio básico que na nossa vida o mais importante é fazer o bem às pessoas com que se vive, criou a sua escola com o objetivo de conseguir o progresso dos filhos dos labregos, por meio da sua educaçom e alfabetizaçom.
No ano seguinte à criaçom da sua escola inovadora, viajou pola Alemanha, França, Itália, Bélgica e Reino Unido, para observar os métodos didáticos das suas escolas e incorporá-los adaptando-os à sua. Trabalhou muito na elaboraçom de manuais escolares para o ensino. Para Tolstói a educaçom fundamenta-se no humanismo, a democracia e a liberdade, princípios que pôs em prática. Tendo sempre presente que deve ser o povo, e nom os que mandam, o que intervenha no processo educativo. Pois estimava, com acerto, que a educaçom tem que ser para todos e, especialmente para os labregos. Para remediar a situaçom do seu país, solicitou a democratizaçom e humanizaçom da ciência e a educaçom. Os êxitos científicos e técnicos devem constituir o progresso verdadeiro só se se põem ao serviço de todo o povo e toda a sociedade.
Para Tolstói a liberdade da escola e da educaçom é uma ideia que ocupa um lugar importante no seu pensamento pedagógico. Para isso o mestre deve ser um guia, nom influindo coercitivamente no desenvolvimento das crianças, nem na formaçom das suas opiniões. A sua é uma antítese da pedagogia autoritária, respeitando escrupulosamente a relaçom humana com o aluno e a sua dignidade pessoal. Segundo ele há que dar uma base científica à atividade educativa, e os métodos de investigaçom pedagógica do comportamento das crianças devem estar intimamente ligados à prática escolar.
O seu é um método de análise multifacético, abrangendo aspectos sociológicos, educativos e psicológicos. Tal método levou-o à acertada conclusom de que as crianças pensam mais em termos de imagens, cores e sons, que de forma lógica. Tambem há que sublinhar que Tolstói acreditava que alfabetizar era ensinar a ler e escrever, mas que educar era fazer conscientes nas crianças o mundo circundante, incluindo as relações sociais e os vínculos entre os diferentes factos. Para dar as suas aulas, como Tagore, preferia o jardim, dando importância aos exercícios físicos. Defendeu igualmente o esperanto como idioma para todos.
Quanto aos métodos didácticos levados à prática na sua escola de Iasnaia Poliana (e difundidos na revista do mesmo nome por ele criada), convém destacar especialmente o seu carácter inovador e revolucionário naquele momento histórico. Diferenciando-se largamente dos tradicionais usados nas escolas do seu país. Num pequeno artigo nom fica mais remédio que resumir os mais importantes usados por Tolstói e os seus colaboradores.
A agrupaçom dos alunos era flexível, seguindo o seu momento evolutivo, o seu interesse e a sua capacidade. Nom existiam castigos nem por má conduta, nem por resultados com insucesso, tratando com respeito a personalidade dos estudantes. Estimulava- se a independência, a criatividade, a autonomia e a capacidade para refletir dos alunos. A envolvente social e natural era usada como um verdadeiro livro aberto e de texto, pois oferece infinidade de recursos didáticos interessantes e motivadores. As ciências, matemática, física e história eram ensinadas de forma lúdica e muitas vezes, para fazé-las atrativas, por meio de contos. Muitos dos quais redigia o próprio Tolstói. Os professores da sua escola tinham que ser muito criativos, respeitar os alunos e adaptar-se sempre ao seu ritmo de aprendizagem. A sua escola, que se iniciou com poucos alunos, chegou a ter tanto sucesso que provocou a criaçom de mais de outras vinte escolas populares nas comarcas próximas.
Em 1862, pola sua influência social e educativa, esta escola foi fechada por ordem do czar e reaberta em 1870, para, segundo as suas palavras, “resgatar das águas os rapazes inteligentes dos labregos, que abundam em cada escola”. A sua escola chegou a ter grande fama no mundo e foi muito visitada. Posteriormente Tolstói escreveu um livro de grande valor didático para a leitura dos escolares da sua escola e das de toda a Rússia, que teve um grande sucesso, com o título de Abecedário (1872), seguindo o método de ensino global da leitura e da escrita . O seu autor, depois de escrever este manual (e mais tarde, em 1875, o Novo Abecedário ), diz : “agora já posso morrer tranquilo”.
Junto com outros livros de contos para a infância que publicou, Tolstói pode ser considerado também como um grande escritor de literatura infantil e juvenil. Nom quero esquecer tampouco que foi um grande amigo de Gandhi, com quem manteve uma prolongada correspondência epistolar. E que teve uma importante influência no desenvolvimento do movimento anarquista mundial, como filósofo cristião libertário e anarco-pacifista.
(*) Didacta e Pedagogo Tagoreano.
