Iolanda Aldrei – O meu ser compostelano mistura-se com um arraigo de dez anos e genéticas várias nas terras do Ulha. Quiçá a literatura necessite tanto das bagagens próprias como das fontes múltiplas e dos espaços de criação híbridos, por isso às quartas-feiras de manhã me achego a Compostela e procuro as suas vozes de rua e café para pousa-las nos textos que vagabundeio entre chávena e pedra.
Conduzi, enquanto pensava no conto que me ocupa, uma história de misérias e alheamentos. Saudei no primeiro semáforo um homem de rosto simpático que vende panos e sorri para abrir a manhã, contei-lhe que não levava perto o saco e não lhe podia comprar:
– Não importa! Bom dia – E sorriso, e comunicação, e alegria.
Estacionei e acheguei-me a um vendedor de sortes indecisas, escolhi um bilhete e partilhamos bons desejos, simpatias várias, na língua nossa, em que a cidade se construiu e se cantou por séculos.
Uma nuvem de rostos chegados do Norte, do Leste, de peregrinações muitas, ocupava a rua com as suas falas diversas e com as cores insólitas das mochilas e as roupagens. Senti estas vidas também a construir Compostela, o cruze dos caminhos antes do fim do mundo, o silêncio e a reunião; sobre o chão de granito galaico que ecoa o próprio ser, o adorno dos passos bem-vindos. Distraí o meu pensamento do relato para me encantar com a ideia da entrevista a viageiros, nesse ponto e nessa hora, cruzar os caminhos com as palavras e partilhar.
Estas histórias criava eu ao cruzar a rua e contornar uma praça pequena e pouco transitada, quando vi um senhor idoso esforçar-se por indicar a uma peregrina solitária um caminho qualquer, talvez o da Catedral:
– Derecho, vaia derecho – dizia num castelhano soletrado.
A peregrina olhava para ele e repetia com a mesma estranheza com que o senhor pronunciava:
– Derecho? Derecho?
Outro homem tinha parado a contemplar a cena e indicava, com acenos, à peregrina que o acompanhasse no seu caminho. O primeiro dos informantes cedeu a tarefa:
– Vaia, vaia!
A mulher ainda hesitou, mas tomou finalmente a companhia do que parecia mais decidido a mostrar o itinerário, e antes, com muita segurança, voltou-se para o seu guia inicial e disse:
– Obrigada.
Novamente mudou o fio do meu pensamento para essa fórmula mágica dos desentendimentos obrigados por indumentárias e documentos. O ânimo sonhou com achegar-se e intervir, a dizer: “Fale à vontade, a sua língua é a nossa. Vá direito, sim, e depois vire à direita, apenas um bocadinho, até chegar à praça seguinte, que tem uma fonte no meio, e já sempre em frente, até enfiar o Obradoiro e a Catedral.” Eram as palavras que o seu guia improvisado teria dito para mim e que guardou dela, as palavras livres que as fronteiras mentais destroem. Não era tempo de intervir, mas de confiar, porque a companhia por poucas ruas podia devir numa descoberta mútua de entendimentos seculares.
Parei à porta de uma cafetaria famosa na Compostela de outros tempos por ser a linha de chegada de um rali lúdico alcoólatra, mas que mudou de aspeto e respeito. Verifiquei que oferecia pequeno-almoço com café ecológico, sumo natural e bolos ou torradas. Entrei. Ocupavam as mesas peregrinos bem atendidos e entendidos. Sentei num cómodo sofá, disposta a ligar o meu computador e iniciar a tarefa. Uma rapariga loira e miúda achegou-se:
– Um almorço com croissant, por favor.- Pedi.
O mesmo nome do espaço convidava a combinar com aquele bolo as possibilidades oferecidas na ementa, mas um “Quê?” foi o único bolo que ofereceu a menina.
– Um almorço – repeti de boas maneiras.
– Ah! Um mosto?
– Não, não, um almorço-, disse nos modos galegos para referir a primeira comida do dia.
– No hay.
– Tem que haver almorço.
– No entiendo.
– Não entendes galego?
– No, no entiendo gallego.
Ergui-me lentamente:
– Vou-me, então. Como posso ser entendida onde não conhecem a nossa língua?
Das mesas, rodeadas de mochilas, pessoas chegadas de tantos lugares, bem atendidas no esforço babélico de quem quer compreender, viam admiradas a única mulher daquele espaço que era originária da cidade sair, porque não se entendia o seu pedido no idioma da terra.
O relato de misérias e alheamentos mudou de rumo. Deixou ficções e fez-se crónica.
